domingo, 31 de outubro de 2010

Psiquiatrices























Este texto tem o nexo da conversa, mesmo depois de meia hora à procura de uma ponta naquele emaranhado de vinte e um anos de vida.
Fora enviada ao Serviço de Urgência para observação por Psiquiatria, que na Escala só existia até às catorze horas. Cabia-me decidir se a situação clínica, justificava uma transferência urgente para aquela especialidade, a setenta quilómetros de distância.
Chamo-a, pelo sistema de chamada de doentes, para a Sala de Espera: Ana Sofia …, e aguardo. Entra-me uma rapariga magra, jeans escuros de cintura baixa e cinto largo, sapato com sete centímetros de tacão e blusão negro. Ao ombro uma saca de couro castanha a dizer com a blusa. Não é particularmente bonita, mas é elegante e tem aspecto cuidado. Senta-se e cruza a perna. Certifico-me que é ela que corresponde à carta de referência, e pergunto, ao ler “agitação, ideação depressiva” e coisas no género: - Quando é que lhe escreveram esta carta para vir ao Serviço de Urgência?”.
-”Foi hoje de manhã!” responde.
-“E só vem às vinte e três horas! Porquê?"
-“Porque fui para casa descansar, e estive a tarde a dormir! Depois a minha mãe chateou-me para eu vir, e eu para não a ouvir mais, … vim!”
-“E veio como?”
-“De carro!”
-“Sozinha?”
-“Não! Vim com um vizinho, que é como se fosse meu pai!”
-“Foi ele que a trouxe, e está lá fora. É isso?”
-“Não! Eu vim a conduzir o meu carro, e ele veio comigo!", depois, como a querer dar despacho ao assunto: -" Dr.! O que eu quero é um documento para a minha mãe saber que eu estive cá!”
-“Mas se o médico escreveu esta carta, deve-se ter passado qualquer coisa, ou não?!”
-“É a minha mãe que não me entende! Eu tenho um filho de dois anos, que vive com os avós paternos. O meu ex-namorado é toxicodependente e eu estou em Tribunal para a tutela do meu filho”. E depois, enquanto a voz lhe treme num assomo de um choro, -“Ninguém sabe o que é ser mãe, e só ter o filho ao fim de semana! Ele ainda no passado domingo me dizia, porque vais embora?, é triste!, e a minha mãe não compreende! Sabe, ela é operária numa fábrica de componentes para automóveis, há mais de vinte anos e eu estou lá a trabalhar há sete meses e, com a medicação que tomo para a depressão, não dou a produtividade que eles querem, e a minha mãe atira-se a mim!”
-“Deve haver aqui algum engano. Eu não sou juiz, nem assistente social. Sou médico, e neste momento, você não me parece nada do que está aqui escrito. Importa-se de chamar esse seu amigo que veio consigo!”.
Sai, e volta dois minutos depois com um rapaz de não mais de trinta anos, alto, brinco na orelha, a assumir um ar paternal. Explico-lhe a falta de psiquiatra, e no fim pergunto se notou qualquer coisa de anormal no conflito já habitual daquela vida. Os problemas são os mesmos.
Entretanto o telefone toca dentro da saca dela. Pousa-a em cima da secretária e tira de lá de dentro um smartphone de grande écran táctil, e com um ar de extremo enfado diz: -"É a minha mãe!" Discutem! Diz que se ela meter baixa, então vai trabalhar, só para não ficarem as duas no mesmo espaço, e mais um arrasoado de palavras de um não-diálogo. Peço-lhe o telefone e asseguro-me de que a recebe em casa, e de que não há problema tão grave que não possa esperar. Pergunto se conhece o amigo. Conhece.
Rebobino: vinte e um anos, vive numa aldeia, tem o pai em França separado da mãe, as duas são operárias fabris, ela anda de carro, tem smartphone topo da gama e veste para capa de revista numa quinta-feira à noite, e sugiro-lhe:
-“Minha senhora. Vá para casa dormir. Duvido que qualquer intervenção médica a possa ajudar, mas escolha alguém da área da saúde mental e fale com ele. Mas sempre com o mesmo! Boa noite!”

sábado, 30 de outubro de 2010

Carta ao Cavaco


Caro Cavaco:

Anda um cidadão a cumprir as suas obrigações ao longo de uma vida de trabalho, lutando dentro da sua pequena esfera contra a incompetência e o desleixo, e acaba confrontado com a tomada do poder por gente que, em nome de um “pragmatismo bacoco”, se move num nevoeiro de indefinições, para realizar obra pública de utilidade discutível, sem acautelar o bem comum.
Há mais de dez anos que andas nas mais altas esferas da Nação e, sabes melhor que ninguém as imoralidades que se fazem a coberto das pseudo-legalidades, e dos caminhos em que o país se meteu, e que não levam a lado nenhum.
Foi a promessa de um turismo que não se desenvolveu, de um ensino que estagnou, de uma justiça que regrediu, de uma agricultura que se desactivou e de uma indústria que se foi. Estes anos vão ficar marcados pelos milhares de casas vazias, sinal da orientação da população para o consumo e para a especulação imobiliária e pelo "complicómetro" que se introduziu na administração pública, dificultando a actividade dos seus profissionais.
Foi aqui onde chegámos. Um país de qualidade duvidosa, gerido por gente duvidosa.
Tu és economista, professor e, ao que dizes, conhecedor dos meandros por onde o mundo se move, e foste incapaz de pôr um travão neste desvario, em que ano após ano se gastou mais do que o que se produziu. Estavas à espera de quê? Fosse Portugal uma Multinacional, e tu o CEO, e estarias despedido com justa causa.
Também a tua prática não diferiu da daqueles que hipotecaram o futuro às necessidades do dia a dia de alguns. Lembro-te que recebes três pensões (€ 4.152,00 do Banco de Portugal, € 2.328,00 da Universidade Nova de Lisboa, e € 2.876,00, por teres sido Primeiro-Ministro) para além de € 7.100,00 do Vencimento de Presidente da República. És um exemplo do que está errado.
Só te aguentas porque dás a garantia de um Sr. Silva disponível para facilitar a vida a quem já detém o poder, e de seres o maestro para esta música da moda, que é o fazer a ver se cola, e depois quem vier a seguir que feche a porta.
Vai ser mais do mesmo!
Passa bem! A Rainha de Inglaterra fazia melhor!
Fernando

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Fruta da época


- Dona Maria do Carmo, está tudo bem? Não tem havido crises?
- Sim, Dr.! Agora ando melhor!
- E está a tomar a medicação habitual?
- Sim!, mais um para o ácido úrico.
- Para o ácido úrico? Mas a Sra. teve alguma crise de gota, ou cólica renal?
- Não Dr.! Mas no outro dia, fui à ourivesaria por causa de uma pulseira de prata, que o meu marido me ofereceu, e que estava toda negra, e o ourives disse-me logo: “Isso é do ácido úrico!”. Olhe Sr. Dr.! Fui à médica de família, fiz a análise e tinha-o a 8,5!
...
- E agora, a pulseirinha já anda com melhor cor?

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Um secreto desejo


São um par atípico. Ele tem quarenta quilos, e ela mais de cem.

Ele é padeiro, tem o cabelo loiro e óculos de aros finos, que juntos à magreza e ao silêncio habitual, lhe aumentam a fragilidade.
Ela é analfabeta, trabalha a dias, mas tem um ar determinado. O cabelo negro e comprido, apanhado num volumoso rabo-de-cavalo, oscila-lhe em volta dos ombros, enquanto as palavras lhe saem fáceis pelas gengivas, guarnecidas pelos dois únicos dentes. Hoje vem de jaqueta azul eléctrico, com o fecho éclair semi aberto a salientar-lhe os volumosos seios, e com umas calças de fato de treino muitos justas, vermelhas com listas brancas dos lados.

Ele vem à consulta, para avaliar a situação clínica e receber medicação. Sentam-se e, de imediato, é ela que se chega à frente, pousa os seios na esquina da secretária, para desbobinar o que entende da saúde do marido, e, enquanto procuro as análises recentes no processo, diz-me aproveitando um silêncio:
- "Dra.! Eu quero engravidar!"
Num repente, aquelas palavras meio sussurradas, forçam o meu cérebro a um sem número de ligações, na procura da lógica daquela pretensão. “Ficar grávida?”. Ela é oligofrénica, já tem um filho de cinco anos, que só por sorte não é seropositivo e tem a sorte de se manter seronegativa. Agora diz-me que quer ficar grávida!!???
Olho para ele, na procura de uma palavra que me permita entender o comprometimento naquela loucura, e pergunto-lhe:
- "Então Sr. António, o que é que você acha disso?"
Ele encolhe os ombros e responde, com o ar desinteressado do costume: -“Eu estou a saber agora! ... ”
Não me conformo! Antevejo a caterva de problemas de mais um filho naquela família disfuncional, e viro-me para ela a lembrar-lhe tudo o já anteriormente ensinado, quanto aos riscos e exigências de uma grávida de um seropositivo: -“Então dona Graça! Quer ficar grávida e o seu marido não sabe? E ainda por cima na vossa situação!!?"
Ela endireita-se, faz um trejeito com o rabo-de-cavalo, e responde atirando-lhe o queixo: -“Dra.! Não tem que ser dele! ...”
...
Respiro fundo, numa pausa, para medir a situação, penalizando-me por não a ter já proposto para laqueação de trompas, e continuo.
- “Dona Graça! Eu vou escrever uma carta à sua médica de família, para o Serviço Social lhe dar uma ajuda!”
- "Dra!", responde com o desembaraço habitual, enquanto se empertiga e aponta a caneta na minha mão: – “Se vai escrever para eu ir fazer aquela coisa para não ter filhos, não pense que eu vou. Quem manda em mim, sou eu!”
- "Eu sei! Mas, se não se importa, leva-lhe na mesma esta carta. Está bem!"
História de A.S.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Impostos


- Sr. Carlos, quanto lhe devo do arranjo dos muros?
- São 690 Euros, com a mão de obra e o cimento!
- Um momento, que eu vou lá dentro buscar um cheque, e pago-lhe já!
- Dr.! Agradecia que me pagasse em dinheiro. É que o meu contabilista diz que se eu declarar mais, mudo de escalão, e até ao fim do ano, vai ter de ser assim. O Dr. quando tiver o dinheiro telefone-me, que eu passo por cá!
... ...

- Sr. Armindo. Quanto é por este seu dia de trabalho?
- Do material são vinte Euros, do almoço são dez Euros, e do dia de trabalho são setenta. Mas Dr., agradecia que me pagasse em dinheiro.
- Sr. Armindo, eu sou funcionário público e de tudo o que ganho, o Estado leva uma parte que não é pequena. Você, teoricamente, ganha menos que eu, ... mas também tem de contribuir, ou acha que isto não é para todos?

domingo, 24 de outubro de 2010

João Semedo





Eu ontem à noite, ao ouvir o Dr. João Semedo no "Plano Inclinado" a falar do SNS, fui do Bloco de Esquerda.
Para ver - aqui.


sábado, 23 de outubro de 2010

Carpinteiro no domicílio


- Sr. Armindo! Então? Parou?!
- Não! Dr.! Trouxe uns parafusos para montar as prateleiras e não dou com eles. Devem ter ficado na carrinha, quando mudámos as coisas para o seu carro.
- Eu vou ver se encontro alguma drogaria aberta, mas sábado à tarde, aqui na zona do Hospital Conde Ferreira, vai ser difícil. É melhor começar a pôr a fechadura, que eu vou lá fora perguntar a um dos taxistas!

- Boa tarde! Não me sabe dizer se, por aqui por perto, há uma drogaria aberta para eu comprar uns parafusos?
- A Drogaria aí à frente fechou ao meio dia e meia mas, logo adiante, encontra duas Lojas dos Chineses. Eles têm de certeza!
- Obrigado!

- Sr. Armindo! Trouxe-lhe estas duas caixas de parafusos. Servem?
- É exactamente isso! Obrigado! Mas eu também vou precisar de detergente para aplicar o Veda e Cola, um busca-polos e fita isolante para a tomada no espelho, se o Dr. quer que eu o ajude a colocá-lo!
- Não tem problema! Eu vou lá outra vez, que eles têm isso tudo!

Salvei a tarde!

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

O Rabisco


- Dr.! Eu não posso ir para casa da minha irmã tomar conta dela! Nem, por um dia! Ela, se quiser é que tem de vir para a minha! Sabe, eu tenho um vizinho que está sempre com o olho no que é dos outros, e se topa que não está ninguém em casa, entra por lá dentro e rouba o que puder. É um problema! A vizinhança já fez um abaixo-assinado à Junta, mas quê? Ele continua a roubar tudo o que pode. A mãe teve de sair do lugar para fugir dele. Até um tio que mora lá perto ele rouba. No outro dia trocou-lhe a garrafa do gás. Deixou-lhe a vazia e levou-lhe uma cheia. … Ele é filho de gente boa. As irmãs são de ouro, mas ele não dá sossego a ninguém. Olhe que quando passa de bicicleta pela minha casa estica-se sempre para ver se está lá alguém. Agora não passa pela rua de cima da minha, enquanto se lembrar da coça que um vizinho, que é polícia, lhe deu. Temos de andar sempre alerta. Ele até esteios rouba.
...
- Oh Sr. Ana! É melhor ir para casa da sua irmã. Pelo menos enquanto o Rabisco não levar uma coça na rua dela. São só dois dias. Está bem?

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

A Serração da Velha


Para finalizar a visita aos "Ímpetos Naturais" do meu avô, reescrevo a sua "Serração da Velha", que nada tem a ver com algumas das histórias que agora se contam sobre o mesmo tema.

Ignoro se aquela tradição ainda perdura e desconheço a origem de tão selvático divertimento, que caía sobre os velhos que a gente moça considerava um estorvo, por serem semi-cegos, aleijados ou uma boca a mais sem qualquer préstimo.
Reza a tradição que um velho pai paralítico encavalitado no dorso do filho, exclamara angustiado ao vê-lo caminhar para sítio seu conhecido: - “Bem sei onde me levas, meu filho! Foi ali que eu despenhei meu velho pai, e é ali onde o teu filho te há-de conduzir!”
Nascesse onde nascesse, a verdade é que a tradição se foi conservando, alimentada por muitos dos que agora sofriam o ultraje, e todos os anos atingia os velhos pobres, porque quem tinha onde se arrumar, não era "velho", mas sim "pessoa de idade".

O dia da serração da velha não tinha registo especial no calendário, mas na quarta-feira que precedia o terceiro domingo da Quaresma, uma algazarra de rapazes, alimentada por um tradicionalista arrevesado, surgia do nada e incendiava a vila.
E no meu tempo era o Bairrão.
Ao bater das doze horas, repimpava-se debaixo de uma oliveira ao pé da Escola, esperando a saída dos rapazes e, como um perdigão a servir de chamariz, marcava a sua presença, cantando a melopeia sinistra: “Au! Au! Au! Venha a velha para a rua, que lhe quero dar com o pau!"
Nada mais era preciso para acordar na garotada os instintos animalescos e pô-los a pular, chiar e gritar de alegria. O Bairrão dera as suas ordens, e a revoada de garotos esvoaçara por ruas e becos para, passados minutos, redemoinhar em sua volta, mas agora cada uma com o seu cacete e novos iniciados.
Este pequeno Napoleão, tinha um plano tão bem delineado, que se corriam as ruas sem necessidade de voltar atrás, pois era conhecedor de todos os recantos onde se albergavam aqueles a quem o tempo fora arqueando as costas e posto uma grilheta nas pernas, e os que, no seu entender, deviam receber aquele baptismo, por já lhes pingar o nariz ou comerem com as gengivas.
Uma destas foi a Teresa forneira, que noutro tempo se postava na soleira da porta, de mãos nas ancas, a frisar a cara bolachuda de riso, perante a serração das vizinhas. Muito subtilmente, com a respiração suspensa, para a apanhar de surpresa, a malta endiabrada aproximou-se da porta. O chefe dera o sinal, e á uma, o som dos cacetes no degrau e na própria porta, junto com o de muitas matracas soou como o desabar de um telhado, enquanto a chiada da miudagem e voz roufenha dos matulões, repetia incessantemente - “Au! Au! Au! Venha a velha para a rua, que lhe quero dar com o pau!”. A forneira, qual grilo esfuracado por uma palhinha na toca, assomou ao postigo a cabeça embranquecida, acalorando a assuada, e de seguida, saíu com a pá do forno, armada em padeira de Aljubarrota.
Mas, se nem o diabo quis nada com rapazes, como poderia a pobre livrar-se das garras daqueles gerifaltes? Em breve, semelhava um gafanhoto caído num formigueiro, de cabelos desgrenhados, tombando aqui e ali, até surgir o Manuel Calhaz com uma vergasta e pôr a chiar três ou quatro.

Esta debandada pouco afligiu o Bairrão, que logo reorganizou a tropa fandanga desmoralizada, e pôs o programa a cumprir-se, ou não tivesse sonhado com ele o ano inteiro.
A Genoveva Ceguinha, a Mónica Canhoto, a Antónia Bruxa, a Pirra, etc …, e até a Luísa do Moinho, que morava fora de portas, sofreram tratos de polé. Só a Gemida, uma eterna vítima, ficou ilesa nesse ano, pois quando tudo estava a postos, surgiu detrás da porta a sobrinho, que pôs tudo em debandada com um chicote. Também a Tirroca se livrou usando de esperteza. Conteve os rapazes com a promessa de ir buscar figos e castanhas, para dar tempo a aparecer pelas traseiras da casa o cunhado, que se fartou de dar castanha naqueles que apanhou mais à mão. Figos? Ninguém viu!

O som longínquo do “Au! Au! Au!, canalizado pela íngreme rua de S. Pedro, chegava agora aos ouvidos das almas penadas que armazenavam o sol no botaréu da praça. Eram os inválidos do rio, a quem o reumático e a miséria envelhecera precocemente, e que, irmanados na desgraça, faziam dali o seu ponto de reunião. Alertados pelo barulho, arrastaram as pernas adormecidas, antes que o pé ligeiro da galfarrada os apanhasse desprevenidos.
- “Agora rapaziada, vamos aos velhos da praça!”.
Todos, tinham debandado, só o Poita, melro de bico amarelo, ali ficou imóvel como um bonzo. Regaladinho de sol, ao sentir o trotar próximo dos rapazes, puxou o esburacado chapéu para os olhos e deixou descair os braços, como se tivesse adormecido. Observava o cerco a gravitar e, quando um mais atrevido o quis acordar daquela letargia, puxou-o de repelão e com uma sovela furou-lhe uma nádega, perante as gargalhadas dos assistentes e os saltos e guinchos do visado.

Agora era a vez de um iniciado.
De mãos enlaçadas sobre o ventre volumoso, o Zé Fadista tasquinhava, sentado à porta da taberna do lá vem um, estendendo a beiça à D. João VI, como se estivesse a desdenhar de alguém. O cerco fez-se. Os varapaus bateram. A canzoada ladrava e uivava, com as vozes enrouquecidas dos gritos de toda a tarde. O Fadista estremunhado, enfunou as bochechas com um sorriso bonacheirão, cruzou os braços, olhou em volta para os que gozavam de palanque, e encolheu os ombros como que a dizer: -“É justo! Eu fiz o mesmo na idade deles!”, na esperança de que a indiferença desarmasse aquela súcia, enquanto seguia fleumaticamente para dentro do balcão, no meio de um batuque de acordar os mortos, dos paus que lhe rabeavam os pés. E tudo teria terminado aí, se o Zé do Algarve, não tivesse aproveitado o motim para meter os cinco dedos no alguidar dos tremoços, a obrigá-lo a recorrer à celha de lavar os copos, sem que as suas mão flácidas pudessem impedir que o vaso seguisse a água, e na gargalhada, o bando perder o temor e intensificar o “Au! Au! Au!. Veio então à rua por uma pedra, e o furor redobrou. Cercaram-no. E, como se fosse à mercê de ressacas, levaram-no até meio da praça, onde chegou com as forças enfraquecidas e a faixa negra que lhe compunha o abdómen desmanchada. Um dos gerifaltes apanhou-lhe a ponta caída e fê-lo rodopiar como um pião até as calças lhe caíram. Um suor de agonia deslizou-lhe pela testa, humedeceram-se-lhe os olhos, na esperança de um auxílio, e a sua boca desdentada ficou incapaz de qualquer som.
Nesse ano a serração da velha terminou com dois estalos no Bairrão. Foi o último a que assisti e onde fui gloriosamente compensado com uma nádega furada.
Mea Culpa! Mea Culpa!

terça-feira, 19 de outubro de 2010

O electricista


- Dr.! Esta instalação eléctrica não se entende. Quem foi o electricista que fez isto?
- Isto é obra do construtor! Mas eu penso que foi o Sr. X! Ele também é canalizador. Conhece-o?
- Não o estou a identificar!
- Olhe! Eu tenho aqui o telefone dele. Você telefona-lhe e tira as dúvidas desse quadro eléctrico! Ele às vezes não atende!
- Não faz mal, eu vou telefonando. Isto hoje fica assim, que dá para funcionar quase tudo!

Dois dias depois.
- Então Sr. Jorge! Falou com o homem!
- Liguei-lhe várias vezes. O telefone tocou e até me pareceu que alguém atendeu, mas só se ouvia um GGGhhhhhzzzz, e eu desliguei. Ele deve ter o telefone avariado!
- Desculpe, Sr. Jorge! É assim mesmo! O homem é gago. Às vezes demora mais de dez segundos a pronunciar a primeira palavra. Por favor, ligue-lhe outra vez e tenha mais paciência!

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Cell Block Tango

do filme "Chicago"



Tradução livre:
E agora as seis homicidas da prisão do Município de Crookem:

Ele só se pode queixar de si próprio.
Se fosses tu que lá estivesses, … aposto que farias o mesmo.

O Ernie tinha a péssimo hábito de mascar e de fazer bolas com o chiclet.
Nesse dia eu pedi-lhe para ele não estourar mais uma vez a bola, e ele fê-lo!
Então, eu pequei na arma que estava na parede e dei-lhe dois tiros de advertência … na cabeça.

Eu conheci Ezekiel Young na cidade de Salt Lake. Quando ele chegava a casa, eu arranjava-lhe uma bebida, antes do jantar. Então descobri que ele era mórmon e que, não só era casado como tinha seis mulheres. Naquela noite fiz-lhe a bebida como de costume, e nem queiram saber o seu esgar com o arsénico.

Ele pegou uma flor no seu apogeu e usou-a e abusou-a. Foi um assassinato, mas não um crime!
...
Eu estava na cozinha a arranjar um frango para o jantar e de repente o meu marido Wilbrin, apareceu com um ataque de ciúmes a dizer que eu tinha saído com o leiteiro, e depois correu para a minha faca … dez vezes.

... e por aí fora

domingo, 17 de outubro de 2010

Segunda Carta a Sócrates


Caro Sócrates:
É a segunda vez que te escrevo, para te dizer mais ou menos a mesma coisa que te disse em 7 de Fevereiro de 2010, mas como desde então o país pouco mudou, venho lembrar-te alguns dos meus porquês, porque corres o risco de ser reeleito, pese embora o António José Seguro te andar a seguir a sombra.
Não te falo do Orçamento (pois nas aflições é vender os anéis para salvar os dedos), falo-te das razões de chegarmos a este ponto.
Podes dizer que o mal já vinha de trás e que o contexto internacional nos foi desfavorável, e mais isto e mais aquilo, que justificações não te devem faltar, mas mete a mão na consciência e pergunta-te se fizeste alguma coisa pelo “rigor”.
Deves conhecer esta palavra, que significa “ser preciso”, controlando os gestos para que haja eficácia, que é uma coisa que dá trabalho, pois exige muito estudo e empenho para que se não faça de qualquer maneira.
Tu facilitaste que nos últimos 15 anos, o país se deslumbrasse com os computadores, e o resultado está à vista. Os quadros do Estado foram obrigados a “registar”, mais do que a executar. Os médicos, os enfermeiros, os professores, os psicólogos e gestores (à carrada) e os engenheiros de todas as Instituições, passaram a “registar”, para que não os incomodassem na sua actividade diária, sem que se avaliasse a utilidade desse registo ou a qualidade do gesto a que teoricamente corresponde, e Portugal ficou cheio de informação que ninguém irá ler e com necessidades informáticas cada vez mais pesadas. Será isto a tal "sociedade tecnológica"!
Não basta ensinar, é necessário que se aprenda o que é útil para se viver em sociedade e numa profissão. Não basta ter, é necessário saber usar eficientemente. Não basta falar em objectivos cumpridos, se o que deles retiramos são números com escasso conteúdo, que só nos alienam por nos levarem a julgar com direitos que só povos muito mais rigorosos que nós conseguiram.
Somos um pequeno país, com uma população a envelhecer, e damo-nos ao luxo de lógicas onde impera o facilitismo, com o fundamento da … “inclusão”, que não são mais que um “nivelar por baixo”.
Não abriste a porta aos nossos melhores. Esses são diariamente ameaçados por aqueles que dizem “sim” ao poder qualquer que ele seja, que dão garantias de permissividade com a corrupção, que vivem numa lógica de que “não sou eu que vou endireitar o mundo” e assim dão seguimento às ordens, sem avaliar as condições para a sua implementação, para que o registo no papel passe a ser a verdade que se não verifica, porque tudo está atamancado e ao mínimo sopro se desmorona.
Foi isto que permitiste. Um país “atamancado”, onde se tropeça constatemente em expedientes, e onde poucos questionam os verdadeiros porquês.
Estamos nas mãos dos banqueiros, que passaram a ser a gente mais séria e capaz da nossa sociedade, a par com outros políticos que a única diferença que de ti fazem, é “não terem sido eles”, porque na questão de facilitismo já deram provas iguais quando os Euros entravam país adentro e foi o desgoverno que se viu.
Agora chamam a vender os anéis quem não teve responsabilidades nessa falta de rigor, e ameçam-nos de que podem vir a ter que dar a roupa.
É esta a minha verdade, que não passa de mais uma, no meio das tantas que hoje se digladiam, e que te atanazam os miolos.
Mas és tu que tens o leme e o barco não vai no rumo certo.

Passa bem!

sábado, 16 de outubro de 2010

Casa do Cabo


- Então a Dona Ema não morreu na sequência da agressão?
- Não! Ela foi assaltada no Carnaval e morreu em 14 de Julho.
Nunca mais foi o que era. Ela mantinha o eido sempre limpo, e produzia coisas para casa, apesar de estar sozinha e viúva há mais de 10 anos.
Nunca se soube quem foram os malandros. Esteve cá a Judiciária, mas não identificou ninguém.
Ao norte da casa os bolimes estavam acamados, de eles estarem ali à espera que ela apagasse as luzes da cozinha onde esteve a ver televisão. Depois entraram por uma janela e procuraram dinheiro, mas como não encontraram foram ter com ela ao quarto e ameaçaram-na de morte. Mas ela não tinha dinheiro na casa, e eles bateram-lhe tanto que as paredes ficaram cheias de sangue!
A Rosinha ouviu-a gemer e chamou a ambulância que a trouxe para o Hospital.
Isso foi em 1985, e a Sra. Ema tinha 75 anos.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

As Histórias do meu avô - 2




Na sequência da visita aos seus "Ímpetos Naturais", atrevo-me, mais uma vez, a rescrever um dos seus textos, que fazem a História da época e do lugar, e onde as "necessidades da vida", fazem agruras.


O Filho daquela mãe


Nesse ano o verão lembrara-se de levar nas suas asas, para paragens mais altas e distantes, as águas do Tejo, deixando no seu leito um Sahara dardejante de mica, recortado por uns regatos, onde os barcos cochilavam há três meses.
Os barqueiros, cansados de tirar cotão dos bolsos e do ar franzido do tendeiro, andavam de nariz no ar, a ver a direcção das nuvens, fartos de rogar pragas ao tempo e à vida.
- “Que chovam raios e coriscos! Vamos ter chuva por uma pá velha!”, blasfemou, nesse dia, o João da Barca, esfregando as mãos e fazendo tremelicar a barbicha branca, à passa-piolho, ao ver ao longe um fuzilar de relâmpagos a rasgarem o negrume, quais girândolas de foguetes no dia da procissão da padroeira, e, em poucos instantes, o campo de concentração onde os barcos jaziam insulados, foi envolto numa capa líquida ondeante e espumosa.
Por isso, naquele primeiro dia de Novembro, apesar de santo, havia reboliço nas margens do rio e nas ruas da pacata vila, com as tripulações a formigar entre as casas dos arrais e os barcos, arqueadas pelo peso das fateixas, remos e varas, fazendo retinir nas calçadas as correntes, como se uma leva de grilhetas fosse a caminho da galés.

O arrais Jacinto Ferreira, na azáfama dos preparos, atirou com o saco da roupa para o convés, e cruzou os braços sobre o peito calejado da vara, ao ver aquele embrulho no cimo da proa do seu varino. Aproximou-se, como que a responder a um chamamento, e susteve-se ao desdobrar a serapilheira, com o ténue choro de uma criança. Depois, elevou-a nos antebraços, deu-lhe um leve balanço como que a pesá-la, e rouquejou:
- "Quem será a desavergonhada?", e, enquanto os outros barcos já iam cortando as águas, bolinando, guinando ou desfraldando as vermelhas velas triangulares, enchendo o rio de alegria, o mestre Jacinto procurava a margem onde as lavadeiras se juntavam.
- "Mas quem seria a marvada da mãe?" interrogou para o céu, de mãos postas, a Tuleta velha, ao ver o enjeitado todo nu embrulhado num farrapo.
- “Deus que o marcou, algum defeito lhe achou!”, murmurou docemente a Luísa Godinho, ao pousar os lábios ressequidos na grande mancha, como um girassol, no peito do recém-nascido.
E começou o falatório. Primeiro com a calúnia a pingar aqui e além, para depois se concluir que o frete viera de longe, e a atestar, lá estavam bem visíveis as ferraduras do animal que o conduziu, já que ninguém iria dar de beber a cavalo ou burro daquela água lodosa.
...

João Cavalo, vingara sugando as tetas famintas de uma pobre mulher. Aparecera na vida para cobaia da rapaziada do pião. Triste e tímido, filho das tristes ervas, ficava-se a coçar com as sujas unhas a grenha encarniçada, quando qualquer pícaro fazia dele bode expiatório, recebendo os sopapos sem saber a quem agradecer os benefícios.
Aos dez anos foi moço do arrais Joaquim Russo, que o fez dançar as escovinhas do fandango com as cordas do leme e lhe pôs asas nos pés para a vida de moinante, hoje à gandaia do rio, amanhã de servente de pedreiro, pastor de cabras, moço de cavalariça, assim foi andando até lhe penderem das faces dois cachos de uvas de suíssas alaranjadas.
Todos os seus companheiros de infância recebiam das gerações mais novas o tratamento de senhor, só ele era o João. O João Cavalo, para aqui e para acolá. O humilhante tu, na boca de velhos e fedelhos, causava-lhe arrepios dolorosos. O recalque não podia ser maior quando o bonifrates do funileiro, recém-chegado, com os seus pedantes cabelos frisados e a sua boquilha de palmo, o tratou depreciativamente por tu.
- “Em que barca passou você comigo, seu papo-seco das panelas?”, e em menos de um credo, depois de uma estraloiçada dos demónios, a latoaria ficou transformada numa loja de Pim-Pam-Pum, e a cabeça do artista num arremedo de Santo Cristo.
Após a refrega, o pobre do João, convencido de ter assassinado o mestre latoeiro, meteu á deriva por montes e vales, com o coração a chocalhar ao mais leve crocitar de corvo, ou ao escorregar de uma sombra, no temor de lhe aparecer o regedor - mestre Cristóvão, ferreiro, que não era bom de se assoar.
Dois dias depois apareceu, por um bambúrrio, no monte do Paivó, no âmago da charneca. Ali só cigano poderia dar notícias dele. Diziam as más línguas ter ali existido, em tempos remotos, uma estalagem, valhacouto das quadrilhas do pinhal do Escarópim, e que no sítio onde agora era o curral das cabras, saíam lumes pelas frestas, que mais não eram que as almas dos enterrados naquele solo bafiento, depois de assassinados e roubados.
Aquele monte fora um baldio sem nome, até constar que a actual proprietária, uma sexagenária ainda fanchonaça, era um fruto incestuoso do seu avô, e toda a gente lhe passou a chamar o monte do Pai-Avô.

Já lá iam quatro anos, e o João Cavalo caíra no monte como sopa no mel. O abegão da casa, ali nascido e criado, estava um cangalho, cartacego e trôpego, e o Sr. João, depois de guardador de porcos, ocupara-lhe o lugar. Mas não ficou por aí. O Rodela, marido da velha, ex-guarda municipal, fanfarrão e zangarilhador de pau, apanhara tal coça na feira de Montargal, que fora desta para melhor, e quem melhor para o substituir senão o Senhor João? Serviçal como ele, nunca a lavradora tivera. Era pau para toda a obra, e muito principalmente para fazer uma caldeirada à fragateira, bem apimentada, que aquecia e regalava a alma da patroa. Estava como peixe na água. Casar com ela, foi um passo natural, apesar da grande diferença de idades.

Quis o destino, que aquela volta na vida tivesse o fim no dia em que uma vaca, recentemente adquirida, num repente, deixasse a cria, para lhe furar os intestinos, deixando-o agónico depois de muito espezinhado. Quando nos primeiros socorros, foi necessário rapar a floresta de cabelos louros que lhe barravam o tórax, e surgiu a mancha roxa como uma flor de girassol, a lavradora ficou imóvel, sem descravar os olhos do seu peito e, incrédula, questiono-o:
-“Tu não atiraste o menino ao rio, João!?”
- “Não! Não tive coragem! Deixei-o na proa de um barco!”, disse, enquanto as pálpebras roxas, lhe pesavam sobre os olhos vitrosos e os últimos sons da vida se filtravam em direcção ao céu.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Uma cheia no Tejo
























Este texto é do meu avô, e reporta-se a uma cheia na Vila de Constância, no início do século XX.
Tentei transcrevê-lo tal como ele o escreveu, mas não resisti a revê-lo, e a dar-lhe uma forma mais moderna, como (talvez) o conseguisse escrever, caso a fortuna me tivesse dado o seu poder de observação.

...

Ainda me lembro da vila, mesmo longe de lá, há quase meio século!

Debruçado sobre o lado norte da Praça Nova, havia um varandim que a ladeava em todo o comprimento, assentada sobre uma parede de quatro metros de altura, restos da antiga igreja paroquial, profanada e destruída pelo tempo que, com a sua galilé, ocupara outrora a praça toda. Era um dos baluartes contra o assédio das cheias que, só nos seus caprichos a conseguia escalar.

Quem, naquela manhã, a mirasse, vê-la-ia tão apinhada de coisas, que pensaria que um antípoda escoiceara pelo subsolo e fizera ali aflorar uma feira da Ladra. Tudo aquilo que por mais pesado ou volumoso, os andares superiores das casas não comportavam, tinha sido acogulado a trouxe-mouxe sobre a calçada. A um canto acumulavam-se umas pipas em semicírculo, e, no meio delas, como que a arengar, uma dorna com o fundo para o ar, sustentando um barril e dois remos que apontavam, do outro lado da praça, duas torres de caixotes, bancos, fateixas, paneiros, cepos e uma infinidade de objectos bolorentos, há muito esquecidos nos cantos das casas, por cujos desvãos se metia, a garotada. Era uma reunião de vasilhas, chamadas a capítulo, para resolverem o destino daquela miscelânea de coisas ali arrecadadas.

A vila emergia como um batólito mágico, saído das profundezas dos dois rios que a cingiam e se enroscavam em muitos abraços, pelas ruas e vielas. A cheia, acantonada entre os marcos da Praça, beijava o botaréu que servia de contraforte ao varandim, e já não permitia a ninguém passar a pé enxuto. Era um grande lago, onde gravitavam mansamente, abóboras e laranjas, envoltas em mantilhas de renda espumosa, que as ressacas empurravam para junto dos marcos onde se encastelavam, sepultando-os.

O Tejo, já sem margens, esparramava-se pelos nateiros. Raros tufos de laranjeiras e oliveiras, apareciam e desapareciam, para lá das varas vibrantes dos salgueiros, como se fossem cabeleiras de afogados, mas chegado à velha torre de menagem, emperrava assanhado, enchia-lhe os subterrâneos, de areia e pepitas, esgatanhava-lhe os vestígios da escada de caracol, e trepava-lhe até à janela, para desafogar as suas águas lodosas.
Na Rua de Traz da Igreja, onde antes só o Mestre Anselmo sapateiro rompia o silêncio com a sua voz avinhada, acompanhada do som do martelo sobre a sola, refugiavam-se agora os taberneiros com sua corte de bêbados e de “topa a tudo”, fornecendo o palco para as mais disparatadas previsões e profecias sobre a marcha do temporal e da cheia, e para apostas e disputas, com alguns muito lidos no Saragoçano e no Seringador. Os veteranos do rio contavam coisas mirabolantes ouvidas e vividas, evocavam o testemunho de gente há muito reduzida a ossos e a folhas de cipreste, como se ali estivessem presentes de barrete na cabeça, a coçar as suíças, e enchiam-se de cóleras, quando algum novato os interrompia.

O temporal não amainava. Golfadas de chuva chofravam-se contra as vidraças, e pela íngreme rua de S. Pedro, despejava-se uma ecoante cachoeira, sobre os cinquenta degraus da cadeia.
Na casa da Câmara, já insulada, mas com o primeiro andar bem acima do nível da água, o Joaquim Antonho, secretário, preparava-se para o que desse e viesse.
Na taberna do Rocha Pregos, ouviu-se o som cavo e longínquo de um trovão, como um arrastar de móvel em casa vizinha, e o tasqueiro e freguesia fincaram os olhos no tecto, como se das teias de aranha que dele pendiam, caísse a braveza da trovoada distante.
- “Mau Maria! Lua Nova trovejada! …, profetizou o Zé Bonito, franzindo as asas do nariz bourbónico, herança dos Albuquerques, e o Zé Latoeiro, embrulhou-se ainda mais na sua velha manta de pastor. O Furta-Gatos, entrou esgalgado, com o guarda-chuva aberto, rompendo caminho, sem mais cerimónia do que gritar: -“Arreda que te espeto!”, e o Zingalho, deu um passo ao lado para equilibrar o corpito trémulo, e arregalando os olhos atrofiados, remocou: -“Arre gaitas! Se não viro proa, abalroava-me!”, e o pedreiro, depois de sapatear com força no lajedo e de se espanejar como um ganso para sacudir a água, chasqueou, compondo as varetas deslocadas do sombreiro: -“Isto é que vai um tempo! Boa vida que te parto, alma!”
-“Pois é! Pois é!”, concordou o João Lobato, ali também de remissa, até que o tempo o deixasse pegar na enchó ou tormentar uma frincha de algum barco. E a cada tasquinhadela de figos secos que ia desenterrando da algibeira, separando-os das pontas de cigarro que vinham pegadas, ia murmurando: Pois é! Pois é!
-“Cá por mim tanto me faz que chova como faça sol!”, resmungou com voz pastosa o Zé do Cabo, estendendo o lábio inferior até ao bigodão orvalhado. –“Se faz sol, varro as ruas e enterro os mortos! Se chove, ando sempre num rodízio, às ordens de muitos patrões a um tempo!”, e voltando-se para o Paulino, rematou: -“E ao fim e ao cabo, chega a sábado, pago a Paulo e a Sancho, e fico a dever a minha fome a Martinho, e … sem dez reis para rabiar!”
-“Pois é! Pois é!” exclamou mais uma vez o Lobato

A enchente vinha agora a galope, sugando os marcos da Praça e agrupando os detritos boiantes, num tapete negro. Uma corrente furiosa e fugitiva, vinda do Tejo, atravessou-a e bifurcou-se pelas ruas de S. Julião e Misericórdia, inundando a Igreja e inflectindo depois pelas ruas e becos contíguos, antes de se abraçar ao Zêzere, para por fim retroceder, trazendo o que levara no seu giro e ensarilhando tudo num arquipélago flutuante.
Impelida pela corrente, cirandava o cadáver de uma mula branca, abaulado de inchação, com os dentes arreganhados como que a querer morder o trambolho da manjedoura onde vinha presa, até que o repelão de um redemoinho a enganchou na coluna do pelourinho, para aí ficar, qual balança oscilando no fiel, até nova sacudidela partir a corda, e cada coisa seguir o seu destino. A mula passou então a exibir-se num circo, ora rentando o varandim, ora seguindo à valentona pela rua da Misericórdia. Os garotos, capitaneados pelo vozeirão do Zé do Algarve, naquela alegria própria da idade, batiam asas por todas as ruas onde houvesse água para fazer navegar um barco de cortiça, ou enfunavam-se como garnizés na disputa dos melhores lugares, por cima das pipas para melhor observar as reviravoltas do muar, gritando na sua voz guinchada: -“Lá vem a mula! Lá vem a mula!”. Por fim, numa última exibição daquele bailado macabro, tal jeito lhe deu a corrente, que a todos pareceu impossível que um animal tão corpulento, tivesse entrado por uma estreita fenda, único vestígio da porta submersa da loja do Zé Maria, para lá ficar entalada por debaixo do sobrado a encher a rua de um fedor insuportável.

Quem dominava era o Tejo, que retinha diante de si, numa postura de humildade o Zêzere, convertido num grande estendal de flocos de espuma que, ao escorregarem para as águas raivosas do Tejo, engalfinhadas numa luta de polvos gigantescos, se enovelavam em monstruosas serpentes flutuantes.
Encostado à porta do Zé Condinho, barbeiro, o Mendes Passinhas, comodamente agasalhado no seu vultuoso capote à cavalaria, cravava os olhos sanguíneos em toda a barafunda, e com a boca invisível debaixo da farta bigodeira, sentenciou cheio de gravidade: -“Enquanto os rios trouxerem esta espuma, as águas não vão descer!”

Na Praça, ao crepúsculo, o lufa-lufa das mudanças abrandara, e os inundados debruçavam-se das janelas lançando olhares ao tempo, a tentar adivinhar se a noite que se aproximava, os iria fazer vergar os sobrados do andar superior, com a tralha dos primeiros andares.
Como a chuva parara, havia alguma confiança e descanso, mas nas ruas vizinhas do rio, onde a enchente já tocava o segundo andar, a faina mantinha-se, enjaulando e apertando tudo nos sótãos, tendo apenas de permeio entre a vida e a morte, as tábuas podres dos sobrados, que deixavam ouvir, três palmos abaixo, o gorgolejar das águas.
Aqueles trabalhos já os avós os haviam passado e, por isso, os moradores viviam noites lúgubres sobre estes abismos, convencidos de que estavam num baluarte inexpugnável. Só os que não tinham ali nascido, e aqueles cuja mobília não cabia nos sótãos, se mantinham no transbordo em canoas e barcaças.
Preso às grades da Cadeia (aquela cadeia que para honra da vila estava sempre vazia), cochilava o barco do arrais Pereira, recheado com a mobília do secretário da Câmara, onde se entrevia por debaixo dos oleados, baús encourados, gaiolas com canários e pintassilgos, de permeio com cadeiras e canapés, uma cabra, uma pipa com coelhos e até uma raposa presa a uma corrente.
Mais além o velho António Marau, há muito a morrer lentamente, decidira fazer a sua última mudança. As lágrimas do céu retumbavam lentas sobre o caixão e na cara bexigosa do padre Joaquim, com a batina a drapejar e os lábios em oração, enquanto o barqueiro sofreava a proa da barcaça em direcção aos sete palmos de chão sagrado, no alto da vila.
Da casa de primeiro andar do Joãozinho, só grimpava a chaminé, como uma torre de fadas, surgida no meio das ondas, e do telhado do Zé Viegas só restava a casinha de grilos que era a trapeira, onde o Pilhante, um gatarrão mais negro que o criado do Moncada, aparecia a tempos a incendiar os olhos doirados com o seu miar suplicante.

Finalizava o dia e tudo se ia diluindo na tristeza da noite. O vento canalizado pelas ruas, dava vozes misteriosas ao arvoredo, empolava as águas e enfunava o varino do Asas, no afã e acender os candeeiros de petróleo, espetados nas esquinas.
Na provisória Tasca do Bentes, o Zembarra, que viera lá do Vale do Mestre, onde os sobreiros servem de coro aos pombos bravos, amesendava-se a um canto, mirando os pés descalços, com o queixo sustentado no forcado de um cajado. Parecia um réu sem defesa, a aguardar a chegada do Reitor. –“Olha o vento como zune ali!” disse, apontando para a chaminé da padaria da Maria Joana do outro lado da rua. E aquela quentura que adivinhava do pão fresco, fê-lo exclamar quase num murmúrio: - “Quem me dera ser padeiro!”
-“Eu antes queria ser taberneiro!”, interrompeu o magarefe do Poita. –“Isto é que é grande negócio. Vender água àqueles que estão fartos dela! Não é verdade, oh Bentes! Não há vida como esta!”
-“Eu cá por mim”, aduziu o tasqueiro, tirando o lápis da orelha, - “queria ser escrivão da fazenda, para andar a geringonçar de bengala na mão!”, e empertigava-se como se estivesse a fumar um havano.
A lata girou de boca em boca, e quando chegou a vez do Jaques molhar a goela, limpou-a à manga do casaco, levantou-se como que a brindar, ergueu a cabeça de galo de quem ainda arrasta a asa às moças pataqueiras, e disse: - “Eu não queria mais que ser um gato!” e deu um ai que foi acabar dentro do copo.
Já o sino da cadeia avisava que eram horas de fechar, deixando o som a boiar nas casas esburacadas, quando o taberneiro de chaves na mão perguntou descarado: –“Então vocêzes não tendes famelga?”.

Com a noite foi-se a débil esperança dos inundados e dos que tinham coisas no varandim. A cheia deu um salto e a água irrompeu furiosa, chofrando-se contra as paredes e balançando a baralhada de barcos que se chocavam surdamente, fazendo retinir as suas correntes de ferro.
Os jorros de luz dos archotes iluminavam o esforço desesperado e o tresmalhar das coisas do varandim, e enchiam de reverberações as águas da Praça. Vultos iluminados pelos fogaréus, sumiam-se nas sombras e rodopiavam de sala em sala, de andar para andar, aos encontrões, empurrando mobílias ou transportando objectos à cabeça. Era mudar o que já tinha sido mudado, com paciência e rapidez, não fosse a calamidade reclamar mais do que aquilo que já tinha levado. Lampiões, lanternas, candeeiros e gazómetros, lucilavam neste vai-vem, ilustrando a doca improvisada da Praça e os buracos negros das janelas a engolirem as golfadas das águas que passavam correndo e se esbarrondavam nas paredes.

Da Igreja vinham as horas, que ficavam a besoar nos ouvidos dos que as contavam, ansiosos pela manhã que tardava. Às três da madrugada o vento amainou, amorteceram os tem-tens frouxos, e a cheia recuou, deixando nas paredes um bichanar de gravidade taciturna, para alívio dos que tinham já derretido todo o seu alento.
Por fim, não havia varandim ou qualquer outro obstáculo na Praça. Tudo era um grande palco, onde só o pelourinho espreitava com a sua esfera, como que a ordenar: - Aqui não se toca!”


sábado, 9 de outubro de 2010

Como os médicos chegam ao diagnóstico




Lisa Sanders é professora da Faculdade de Medicina da Universidade de Yale e publica, no New York Times, há 6 anos, uma rubrica intitulada “Diagnosis”, onde conta algumas histórias clínicas interessantes.

Neste livro realça a importância de uma boa história clínica e de um exame físico correctamente efectuado.

É um livro importante para um aluno de Medicina e para os médicos de Medicina Interna e de Medicina Geral e Familiar, já que creio que o público em geral, não lhe dará a devida importância.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Santo Onofre




No rito ortodoxo, reza a lenda que, Santo Onofre teria sido uma virtuosa rapariga que, para preservar a sua virgindade de um feroz perseguidor, rezou a Deus que a transformasse num homem. Depois terá fugido para o deserto, tornando-se eremita, usando apenas para se cobrir folhas e o seu longo cabelo e barbas.


Segundo a Vida dos Santos, Onofre estudou jurisprudência e filosofia num mosteiro perto de Tebas, antes de se tornar eremita no deserto de Egipto superior, durante sessenta anos, onde tinha como único visitante um anjo que lhe dava uma hóstia todos os domingos.
Viveu nos séculos IV e V, DC.
O seu dia da festa é 12 Junho e é patrono dos tecelões e protector contra o vício do álcool.

Na Igreja da Serpente, do Museu ao Ar Livre no Vale de Goreme – Capadócia - Turquia, está desenhado como metade homem e metade mulher, e conta-se que era inicialmente uma mulher de má vida, que cansada dos homens, rezou para que Deus a salvasse, e Deus fez com que lhe crescesse uma barba e tornou-a feia.






No Nordeste do Brasil, Santo Onofre tira catimbó (feitiço), traz boa sorte no baralho, toma conta da dispensa e protege as famílias pobres contra a fome, no Vale do Jequitinhonha é o santo protetor dos bêbados e das prostitutas pobres: é ele que arranja os fregueses e não deixa suas protegidas passarem necessidades.


... e já ouvi dizer que foi eleito protector dos gays.

... ...

... A vida que um santo tem depois de morto! ...

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Peregrinações


Como foi possível localizar a “Casa de Maria” em Efeso (Turquia) - onde Nossa Senhora “morou com S. João e ali adormeceu e foi elevada ao céu”? dogma ex cathedra do Papa Pio XII em 1950.

Resposta: Foi vista num êxtase espiritual de uma freira alemã estigmatizada - Catharina Emmerick (1774-1820).

Catharina sem conhecimento geográfico da região e sem nunca lá ter estado, descreveu o lugar que permitiu a sua localização pelo padre M. Poulim, em 1891.
Fez-se a sua restauração no ano de 1910, e começaram as peregrinações. Já lá foram três Papas - Paulo VI em 1967, João Paulo II em 1979 e Bento XVI em 2006.
Os muçulmanos também lá rumam, para a homenagear como modelo de mulher.

Estigmatizada: diz-se de alguém que, por viver uma fé intensa, lhe surgem no corpo ferimentos sangrantes nas mãos, pés e tórax, semelhando os de Cristo.

A morte de Nossa Senhora, aos 72 anos, foi suave, chamada de "dormição".
Os fiéis, ao terem notícia do seu falecimento, vieram em multidão prestar-lhe as últimas homenagens, e logo se multiplicaram os milagres em redor da relíquia sagrada de seu corpo.
Três dias depois chegou o Apóstolo S. Tomé, que pediu para ver o corpo: “Quando retiraram a pedra, o corpo já lá não se encontrava, e do túmulo se exalava um perfume de suavidade celestial! Como o seu Filho, a Virgem Santa ressuscitara ao terceiro dia. Os anjos retiraram o seu corpo imaculado e levaram-no para o Céu, onde goza de uma glória inefável".

A Assunção difere da Ascensão de Cristo, no facto de este ter subido ao Céu por seu próprio poder, enquanto a sua Mãe foi assunta pelo poder de Deus.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Rescaldo de Férias


A Turquia moderna está sentada sobre o Império Romano do Oriente e de grande parte da civilização grega, e foi terra de sultões até Mustafa Kemal (Atatürk), em 1922, fundar a ocidentalizada República da Turquia.

Tem uma população jovem de 70 milhões, ávida de oportunidades, sem preço fixo, com impunidade na contrafacção e um culto por Ataturk que se sente em cada esquina.

As muitas Histórias que se digladiaram, deixaram no terreno documentos passíveis de muitas leituras.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

domingo, 3 de outubro de 2010

Turquia - Os Sufis



O sufismo é a corrente mística e contemplativa do Islão.
A sua filosofia básica é: "Estar no mundo, mas não ser dele", livre da ambição, da cobiça, do orgulho intelectual, da cega obediência ao costume ou do respeitoso amor às pessoas de posição mais elevada
Os sufis procuram desenvolver uma relação íntima, directa e continua com Deus, utilizando, entre outras técnicas, a prática de cânticos, música e dança.
A jurisprudência islâmica, considera-o um movimento herético, tendo sido, por isso, perseguido inúmeras vezes ao longo da história.

Na Turquia, Mevlana (1207-1273) fundou a Ordem Mevleviyyah, que propõe sete conselhos:
1- Sê como um rio na generosidade
2- Sê como um sol na ternura e misericórdia
3- Sê como a noite no ocultar dos defeitos dos outros
4- Sê como um morto perante a cólera e a irritabilidade
5- Sê com a terra na humildade e modéstia
6- Sê como o mar na tolerância
7- Sê visto como na realidade és.

Os seus membros, conhecidos no Ocidente como os "dervixes rodopiantes”, no exercício de meditação, denominado "sama", rodam por mais de trinta minutos ao som de uma oração musicada, com a mão direita virada para cima para alcançar o amor de Deus e a esquerda virada para a Terra, para transmitir esse amor aos homens, numa viagem espiritual a que chamam “transe”, pois neste movimento vêem toda a actividade cíclica do universo.