terça-feira, 19 de maio de 2026

Viajantes

Hoje em dia, em Portugal, quase todos viajam. Em serviço ou por lazer, as estradas andam cheias de automóveis e, pelo ar, quase não há gato-pingado que não tenha ido à Polónia, a Paris ou a Cabo Verde, à boleia dos “low cost” da EasyJet e da Ryanair.

No tempo da outra senhora, ir ao “estrangeiro” era assunto para meses de conversa. A novidade fazia do viajante uma pessoa importante, mesmo que a viagem pouco lhe tivesse acrescentado.

Corria então uma anedota sobre um paisano que regressara de uma longa volta pela Europa até ao Egipto. No café, perguntavam-lhe o que mais o impressionara. Falava das italianas, das gregas, das alemãs, sempre com entusiasmo crescente, até que alguém lhe perguntou:

— E as pirâmides?

Ele hesitou um instante, como quem revira gavetas na memória, e respondeu:

— As pirâmides? Ah… as pirâmides são umas putas!...

Foi isto que ele viu do mundo.

A história sempre me pareceu menos caricatura de um homem do que retrato de muitos viajantes. Conhecem aeroportos, hotéis e restaurantes, acumulam fotografias e carimbos no passaporte, mas regressam praticamente iguais ao que eram quando partiram.

Talvez por isso olhe com algum cepticismo para esta necessidade moderna de colecionar países. Há quem percorra o mundo como outros colecionam caricas: o prazer parece estar menos na descoberta do que na contabilidade.

Viajar a sério dá trabalho. Obriga a ler antes de partir, a perceber a história dos lugares, a prestar atenção ao que não está exposto para turista ver. É mais fácil circular pelas ruas, absorver um ambiente vago e regressar com a ilusão de ter conhecido um país.

Às vezes olho o céu riscado pelos jactos que passam continuamente sobre nós e pergunto-me que utilidade tira o mundo de tão incessante movimento. Meio mundo corre de férias para o outro meio, muitas vezes em busca de qualquer coisa que talvez existisse já ao pé da porta.

E, no entanto, suspeito que isto não seja apenas frivolidade. Há no homem uma inquietação antiga, quase peregrina, uma necessidade persistente de abandonar o lugar onde está, como se algures, sempre mais adiante, pudesse encontrar qualquer coisa que não sabe bem o que é.

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