Chega o Natal e a festa da empresa é pretexto para o reencontro com aqueles com quem partilhámos horas boas e más, em território neutro, distendido, onde o vinho cumpre a antiga função de dissolver reservas e encurtar distâncias. Só depois chegam a comida e a dança. Para mim, que já estou aposentado, a ordem é esta.
Gosto de rever os antigos companheiros de labuta, os amigos e até aqueles com quem tive desencontros. O tempo tudo alisa: os montes, as arestas, as mágoas. Quem não aprende a esquecer acaba prisioneiro do que foi e raramente alcança a serenidade.
Nem todos, porém, se reconhecem neste meu estar mais recolhido. São agora raros aqueles para quem a festa ainda guarda ecos dos tempos da escassez e se atiram à comida para além do limite da prudência. Para outros, a festa também é palco para exibir a juventude — ou o que dela sobrevive — ornada de lantejoulas e músculos disciplinados em ginásios, em coreografias que oscilam entre o vigor e a sensualidade estudada.
É sobretudo o feminino que aposta nessa vertente. Conversa, petisca, dança, deixando-me, observador discreto, fora daquele bando de estorninhos humanos, movendo-se em uníssono ao som das músicas da moda.
Aquela ali mexe-se bem! A outra já acusa alguma rigidez! Aquela anda fora do compasso, atrasada uns milissegundos! O melhor é aquele que parece comandar o grupo: gestos largos, precisos, sem perder o ritmo ao virar-se. Já vi danças mais exigentes no YouTube, mas essas pertencem a outro campeonato.
E a mente continua, imparável, a classificar, comparar, medir.
Quando me dou conta, é quase meia-noite. Saio para a noite fria a pensar na fisiologia do movimento.
Há no cérebro mecanismos silenciosos que explicam aquela harmonia. Os neurónios-espelho ligam percepção e acção: disparam quando fazemos um gesto e quando vemos esse mesmo gesto no corpo de outro. Permitem compreender o movimento alheio sem raciocínio consciente, como se o corpo pensasse antes das palavras.
É por eles que aprendemos observando, que afinamos gestos complexos — na dança, no desporto, na cirurgia. É também por eles que sentimos com o outro e compreendemos o outro, que nos coordenamos em grupo, que nos movemos juntos sem nos tocarmos.
Os bailarinos, mestres dessa gramática corporal, ativam intensamente este sistema. Não têm mais neurónios-espelho que os outros; têm-nos melhor ligados, mais eficientes, mais refinados. Um exemplo de neuroplasticidade dependente da prática.
Os Autistas têm uma disfunção dos neurónios-espelho.
Os estorninhos também dançam no ar em coreografias de espanto, mas seguem outra lógica. O seu ballet nasce da rapidez do olhar, do ajuste automático à distância e à velocidade dos vizinhos. Não há intenção compreendida, nem simulação interna do gesto alheio: apenas uma ordem que emerge do caos.
Nos peixes, reunidos em cardumes, entram em jogo os sensores de pressão e vibração da linha lateral. Perceção e ação estão acopladas, mas sem espelhos interiores.
Volto para casa com esta ideia simples: entre a dança dos homens e a dos estorninhos e cardumes, há uma diferença subtil, mas decisiva. Uns movem-se juntos porque se veem; os outros porque, de algum modo mais fundo, se reconhecem — sobretudo quando basta um copo a mais e uma música repetida para lhes criar a ilusão de que andamos todos no mesmo ritmo.
Nas redes sociais, quando encontro alguém da minha geração, o que mais me chama a atenção não é a exuberância das viagens nem o culto de afazeres emocionantes, mas um murmúrio quase permanente de tédio. É curioso, porque muitos desses mesmos que hoje confessam não saber como preencher os dias foram, durante anos, os que mais desejaram a reforma — exaustos da “canga” (como diria o meu avô paterno), persuadidos de que a simples libertação do trabalho seria suficiente para garantir o bem estar pleno.
Quando era adolescente, chegava regularmente a casa dos meus pais, a edição portuguesa das Selecções do Reader’s Digest. Detinha-me sobretudo nas pequenas histórias que encerravam cada artigo: episódios breves, muitas vezes anedóticos, que nada exigiam da mente mas que, unidos, ajudaram a formar o meu olhar sobre o mundo. Uma dessas histórias ficou-me para sempre. Narrava-se que um homem morrera e a sua alma fora acolhida no céu por um pajem de libré que, depois de se apresentar como “um seu criado”, lhe garantiu satisfazer qualquer seu capricho. O recém-chegado, surpreendido com tamanha disponibilidade, deu azo aos seus desejos mais íntimos e pediu, lascivo, uma jovem mulher num quarto sumptuoso, para os seus devaneios sensoriais. O criado estalou os dedos e, imediatamente, surgiu a loura perfeita, submissa às suas extravagâncias. Seguiram-se horas de cupidez, longas refeições, bebidas abundantes, despertares tardios. Nos dias seguintes repetiu o programa; mais tarde, extenuado da luxúria, exigiu viagens — Roma, Paris, Hong Kong, Nova Iorque ... — e tudo lhe foi concedido. Até que, vários meses depois, cansado de tantas "facilidades", chamou o criado e pediu-lhe "qualquer coisa onde pudesse sentir o gosto de superar uma dificuldade". O pajem, num gesto cortês, respondeu que isso era impossível: Podia conceder-lhe tudo, menos uma tarefa. O homem indignou-se — “Que Céu é este, onde não se pode fazer nada?” — ao que o criado devolveu, imperturbável: “O senhor não está no Céu! Está no Inferno!.”
Compreendi muito cedo que o não ter que fazer me corrói a alma e sempre me surpreendeu a serenidade com que alguns se declaram felizes vivendo dias sobrepostos, feitos de televisão, rotinas mecânicas, numa repetição litúrgica do nada. A reforma, imaginada como um território de liberdade, transformada num espaço onde o tempo se alarga além do suportável. A vida ativa com ritmos, responsabilidades e encontros, subitamente transmutada em horários irrelevantes, convivências escassas e a sensação de utilidade a extinguir-se. Quarenta anos de trabalho não deixam apenas experiência: deixam hábito, estrutura mental, uma forma de se estar no mundo. Quando essa estrutura cai e se instala essa vertigem silenciosa, o cérebro, privado de desafios, perde agilidade; a memória embacia-se; o humor achata-se; a motivação desfaz-se como um músculo não exercitado.
Nada disto é inevitável. Com imaginação, disciplina e uma certa coragem é possível encontrar atividades com propósito, aprendizagem contínua, exercício adaptado e relações sociais vivas. Não é fácil nesta sociedade que não desenvolveu uma cultura de "lifelong learning". Mas essas portas existem e, para quem as atravessa, a reforma deixa de ser esse deserto monótono que vejo plasmado em tantos lugares por onde passo.