sábado, 6 de junho de 2026

"In Memoriam" da minha mãe

Maria Antonieta, mãe, sogra, avó, bisavó e amiga, que nos deixou em 25/05/2026, merece que a recordemos.

Nasceu em 1926. Filha única de uma família de classe média. Estudou até aos 15 anos, quando uma tuberculose a obrigou a permanecer em casa. Era o tratamento da época: repouso e ar puro. Recuperou bem a saúde, mas apaixonou-se por aquele rapaz que via da janela, que viria a ser seu marido durante 75 anos, e nunca mais regressou à escola. Foi pena...

Saiu de casa para casar, aos 21 anos, com um homem cuja carreira profissional estava em ascensão e a  vida tornou-a esposa e mãe. Naquele tempo, era assim.

Como esposa, foi o suporte da carreira do marido, proporcionando a estabilidade necessária para que tudo girasse em torno do seu trabalho.

Como mãe, foi observadora discreta, sem se impor, mas a influenciar... muito mais do que percebíamos.

Tornou-se avó cedo e orgulhava-se de cada um dos netos, em quem via apenas qualidades. Foi para todos uma ajuda preciosa em inúmeras ocasiões.

Nos bisnetos revia, com alegria, todos os pormenores da sua própria vida dedicada a cuidar dos outros.

De cada neto e bisneto fui testemunha e confidente de todas as interações com ela. Sobretudo do prazer que sentia sempre que a visitavam, a abraçavam ou a beijavam. As palavras que lhe dirigiam ficavam gravadas na sua memória, e reproduzia-as vezes sem conta, com um prazer redobrado.

Nos anos em que ela e o avô passaram a viver mais limitados, reviviam cada momento de família que lhes era proporcionado. Cada Natal, cada aniversário, cada festa permanecia na sua memória e era revisitado vezes sem conta. Era um remédio que lhes fazia bem e que, talvez, tenha ajudado a explicar a sua longevidade.

Vamos recordá-la como uma mulher muito bonita e vaidosa, que gostava de se vestir bem, do cabeleireiro semanal, do seu batom, das unhas pintadas de vermelho, dos colares e dos anéis que nunca podiam faltar. Podia ter sido modelo ou estilista...

Vamos recordá-la também pelo seu espírito observador e pela sua fina capacidade de análise. Nenhum detalhe físico ou psicológico lhe escapava nas interações com os outros. Amplificava depois esse traço e guardava-o como a marca distintiva da pessoa. Inventava alcunhas que, por vezes, partilhava na intimidade e das quais retirava um prazer quase infantil. Podia ter sido humorista.

Podia ter sido muito mais. Acho que podia ter sido aquilo que quisesse. O tempo em que viveu não lho permitiu. Mas, no fim, fomos nós os beneficiados por termos tido nela um porto seguro.

Era comparável a uma águia capaz de voar alto, serenamente, observando tudo à sua volta. Algures no seu caminho, as suas asas ficaram presas ao destino que a vida lhe reservou. Que perdure em nós esse seu espírito de ambição, essa vontade de voar alto e de olhar mais longe.

E que nunca esqueçamos que o mais belo dos seus voos foi aquele que fez entre nós.

Lido no funeral: Elogio fúnebre da minha irmã Helena e Elogio da neta dileta


 

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