terça-feira, 11 de março de 2008

"Permanente" 2 - Diagnóstico Tardio


Trabalhei todo o dia no Hospital, depois em casa a arrumar os filhos e agora à noite estou no Permanente. Mal parei para as refeições. Ando de casa em casa desde as 21:00h. São 02:30h e este é o último domicílio que tenho marcado.

É uma casa de R/c e 1º andar, esverdeada no meio de uma série de todas iguais. Está uma noite fria e o nevoeiro irrita a garganta.
Toco á porta. Vem abrir um homem dos seus 35 anos.
-“É o médico? Suba por favor!”,
Vou atrás dele pelas escadas. Entro na penumbra do quarto do casal onde está deitada no centro da cama uma mulher que me parece uma rapariga nova, com uns longos cabelos em leque à volta da cabeça, como nas fotografias das Santinhas mortas, que se divulgam no meio das crentes.

Entro com discurso familiar a banalizar a minha ida àquelas horas tardias:
-“Então o que é que tu tens?”.
“- Não me trate por tu, que não me conhece de lado nenhum!”, responde seca.
Reparo então que é bastante mais velha do que inicialmente me pareceu, mas não me ocorre nada que possa minorar o deslize, sem ter que me vergar àquela falta de delicadeza.
-“Desculpe!. Porque é que me chamou? Que se passa?”
Mantém-se deitada na mesma posição enquanto debita um discurso agressivo:
-“Chamei o médico às 22:00h e só agora é que ele vem! Os médicos são …” e desata a incriminar os médicos de terem sido incapazes de diagnosticar a sua doença, que foi preciso ir sangue seu para a América para se saber que sofria de Escorbuto e mais … isto, aquilo e aqueloutro!
Interrompo:
-“Peço desculpa por me não ter sido possível vir mais cedo! Mas fora essa história antiga, porque é que me chamou agora à noite! De que é que se queixa?”
-“Acabou-se o Parentrovite Alta Potência que é o meu único sustento e sinto-me mal!”, responde ríspida.
-“Mais nada?” insisto.
-“Não!”

Faço a minha observação. Está sem febre e com os sinais vitais normais. Cuidadosamente afirmo:
-“Não vejo nada que justifique a chamada do médico à noite. A Sra. vai ter de consultar o seu médico amanhã, porque eu não lhe vou receitar nada agora!”
-“Não me receita o Parentrovite?” pergunta indignada, enquanto se senta na cama e me fuzila com o olhar.
-“Não! Esse tipo de medicação não é urgente e deve ser orientado pelo seu médico assistente!”.
Mede-me com os olhos e diz-me:
-“ Ao menos receite-me qualquer coisa para a dor de cabeça!"
-“ Ah! Se lhe dói a cabeça eu receito!” e passo uma receita de Aspirina.


Assim que recebe a receita, desata a berrar que não lhe doía a cabeça, que só queria a receita para saber o meu nome e fazer queixa no Jornal de Notícias, … que não tinha jeito um médico assim, e uma catadupa de impropérios enquanto o marido, sem grande motivação, a tentava acalmar.


Farto daquele despudor, arrumo rapidamente a pasta, e despeço-me –“Boa Noite!” enquanto ostensivamente desço as escadas, à frente do marido . A meio destas sinto passar por cima o candeeiro da mesinha de cabeceira, um sapato e mais qualquer coisa que não identifiquei.
O homem aflito empurra-me dizendo: -“Saia, saia, doutor!
Apresso-me, abro a porta e saímos e já cá fora, perante a minha estupefacção afirma, meio comprometido:
-“No outro dia já aconteceu igual com um seu colega!”
-“Ora porra! Ela é maluca e você não me diz nada!”
-“Eu pensei que o doutor trazia a ficha!”
-“Qual ficha! Qual …, você pensa que eu ando com o historial dos doentes do Porto às costas?”. “Boa Noite! e veja se a leva ao Psiquiatra!”

Vou para o carro, ainda com o coração aos saltos de indignação, a pensar se me devo queixar de uma maluca e do marido da maluca que abusa desta disponibilidade do sistema.
Tenho mais que fazer! Tomo nota da casa, aviso o telefonista para não mandar lá mais ninguém, preencho a ficha clínica e eles que se arrumem.
Depois digo para mim:
-“Devias ter feito o diagnóstico mais cedo! Estava tudo lá! A culpa foi tua!”

Sem comentários: