domingo, 28 de julho de 2013

Nicolau Tolentino (1740- 1811)

Poeta, boémio, professor e oficial na Secretaria de Estado dos Negócios do Reino (depois de muitas cunhas), fazia parte da minha “Selecta Literária” do 2º ciclo do Liceu. Chamávamos-lhes o Nicolino Tilintau
Deixou-me neste soneto um gosto por epitáfios, semelhante ao de Machado de Assis, que escreveu:  "Gosto dos epitáfios; eles são, entre a gente civilizada, uma expressão daquele pio e secreto egoísmo que induz o homem a arrancar à morte um farrapo ao menos da sombra que passou."

Vai, mísero cavalo lazarento,
Pastar longas campinas livremente;
Não percas tempo, enquanto to consente
De magros cães faminto ajuntamento.

Esta sela, teu único ornamento,

Para sinal da minha dor veemente,
De torto prego ficará pendente,
Despojo inútil do inconstante vento.

Morre em paz, que, em havendo algum dinheiro,
Hei-de mandar, em honra de teu nome,
Abrir em negra pedra este letreiro:

«Aqui piedoso entulho os ossos come
Do mais fiel, mais rápido sendeiro,
Que fora eterno, a não morrer de fome».

Neste soneto, Nicolau não eutanasia o seu fiel cavalo. Manda-o para o campo, na certeza de que ele, doente, acabará comido por cães vadios. Era assim nesse tempo, em Portugal, como atestaram vários estrangeiros que por aqui passaram, reportando matilhas deambulando pelas cidades, que não só comiam o lixo das populações, como se encarregavam de dar destino ao que morria e não era aproveitado para consumo humano.

Agora, são raros os elogios fúnebres e os epitáfios sobre as campas. Morremos e o que fica é um nome e duas datas por baixo dele. 
Há bichos com mais sorte!


2 comentários:

Alima das Cartas disse...

No outro dia terminei o livro A BRASILEIRA DE PRAZINS do Camilo Castelo Branco.

Tendo este livro cento e tal anos, o Camilo referenciou algo que achei interessante: ele fez referência aos estrangeiros considerarem os portugueses um tanto desumanos porque foram construídos cemitérios fora das igrejas (política do António Cabral que deu origem à revolta da Maria da Fonte, como provavelmente sabe) sem qualquer muro em volta.

A ausência desse muro fazia com que cães, gatos vadios e javalis invadissem o terreno do cemitério e desenterrassem os cadáveres em busca de alimento. Interessante, hein?

capitão disse...

Alima:
Nem só os cães profanam os cemitérios.
"Fazer tijolo" tem uma história.

Em linguagem comum quer dizer – “estar morto, sepultado”
"A sua origem vem, segundo se diz, do velho cemitério mouro que existiu para as bandas de Olarias, Bombarda e Forno do Tijolo em Lisboa. O almacáver, isto é, o cemitério mourisco, alastrava-se numa grande extensão por toda a encosta, lavado de ar e coberto de arvoredo.
Após o terramoto de 1755, quando começou a edificação da cidade, todo o barro era pouco para as construções e daí o aproveitar-se todo o que aparecesse. O cemitério árabe foi tão amplamente explorado que, de mistura com a excelente terra argilosa, iam também ossadas para fazer tijolo". in " A vida misteriosa da palavras" de Gomes Monteiro e Costa Leão

in http://abeiralethes.blogspot.pt/search?q=fazer+tijolo