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quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Gripe Masculina



Aos homens constipados

Pachos na testa, terço na mão,
Uma botija, chá de limão,
Zaragatoas, vinho com mel,
Três aspirinas, creme na pele
Grito de medo, chamo a mulher.
Ai Lurdes que vou morrer.
Mede-me a febre, olha-me a goela,
Cala os miúdos, fecha a janela,
Não quero canja, nem a salada,
Ai Lurdes, Lurdes, não vales nada.
Se tu sonhasses como me sinto,
Já vejo a morte nunca te minto,
Já vejo o inferno, chamas, diabos,
Anjos estranhos, cornos e rabos,
Vejo demónios nas suas danças
Tigres sem listras, bodes sem tranças
Choros de coruja, risos de grilo
Ai Lurdes, Lurdes fica comigo
Não é o pingo de uma torneira,
Põe-me a Santinha à cabeceira,
Compõe-me a colcha,
Fala ao prior,
Pousa o Jesus no cobertor.
Chama o Doutor, passa a chamada,
Ai Lurdes, Lurdes nem dás por nada.
Faz-me tisana e pão de ló,
Não te levantes que fico só,
Aqui sozinho a apodrecer,
Ai Lurdes, Lurdes que vou morrer.

Poema de António Lobo Antunes, In 'Sátira aos Homens quando estão com Gripe'

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

Natal


Natal, e não Dezembro
Entremos, apressados, friorentos,
numa gruta, no bojo de um navio,
num presépio, num prédio, num presídio,
no prédio que amanhã for demolido...
Entremos, inseguros, mas entremos.
Entremos, e depressa, em qualquer sítio,
porque esta noite chama-se Dezembro,
porque sofremos, porque temos frio.

Entremos, dois a dois: somos duzentos,
duzentos mil, doze milhões de nada.
Procuremos o rastro de uma casa,
a cave, a gruta, o sulco de uma nave...
Entremos, despojados, mas entremos.
Das mãos dadas talvez o fogo nasça,
talvez seja Natal e não Dezembro,
talvez universal a consoada.

David Mourão-Ferreira (
1927-1996), in 'Cancioneiro de Natal' 

sábado, 11 de março de 2017

segunda-feira, 9 de março de 2015

Xácara das 10 Meninas



"Era uma vez dez meninas
de uma aldeia muito probe.
Deu o trangolomângolo nelas
não ficaram senão nove.
Era uma vez nove meninas
que só comiam biscoito.
Deu o trangolomângolo nelas
não ficaram senão oito.
Era uma vez oito meninas
em terras de dom Esparguete.
Deu o trangolomângolo nelas
não ficaram senão sete.
Era uma vez sete meninas
lindas como outras não veis.
Deu o trangolomângolo nelas
não ficaram senão seis.
Era uma vez seis meninas
em landas de Charles Quinto.
Deu o trangolomângolo nelas
não ficaram senão cinco.
Era uma vez cinco meninas
em um triângulo equilátero.
Deu o trangolomângolo nelas
não ficaram senão quatro.
Era uma vez quatro meninas
qu'avondavam só ao mês.
Deu o trangolomângolo nelas
não ficaram senão três.
Era uma vez três meninas
em o paço de dom Fuas.
Deu o trangolomângolo nelas
não ficaram senão duas.
Era uma vez duas meninas
ante um home todo espuma.
Deu o trangolomângolo nelas
transformaram-se em só uma.
Era uma vez uma menina
terrada em coval mui fundo.
Deu o trangolomângolo nela
voltaram as dez ao mundo."
de Mário Cesariny de Vasconcelos, in Poemas de Bibe, por Mário Viegas

domingo, 28 de julho de 2013

Nicolau Tolentino (1740- 1811)

Poeta, boémio, professor e oficial na Secretaria de Estado dos Negócios do Reino (depois de muitas cunhas), fazia parte da minha “Selecta Literária” do 2º ciclo do Liceu. Chamávamos-lhes o Nicolino Tilintau
Deixou-me neste soneto um gosto por epitáfios, semelhante ao de Machado de Assis, que escreveu:  "Gosto dos epitáfios; eles são, entre a gente civilizada, uma expressão daquele pio e secreto egoísmo que induz o homem a arrancar à morte um farrapo ao menos da sombra que passou."

Vai, mísero cavalo lazarento,
Pastar longas campinas livremente;
Não percas tempo, enquanto to consente
De magros cães faminto ajuntamento.

Esta sela, teu único ornamento,

Para sinal da minha dor veemente,
De torto prego ficará pendente,
Despojo inútil do inconstante vento.

Morre em paz, que, em havendo algum dinheiro,
Hei-de mandar, em honra de teu nome,
Abrir em negra pedra este letreiro:

«Aqui piedoso entulho os ossos come
Do mais fiel, mais rápido sendeiro,
Que fora eterno, a não morrer de fome».

Neste soneto, Nicolau não eutanasia o seu fiel cavalo. Manda-o para o campo, na certeza de que ele, doente, acabará comido por cães vadios. Era assim nesse tempo, em Portugal, como atestaram vários estrangeiros que por aqui passaram, reportando matilhas deambulando pelas cidades, que não só comiam o lixo das populações, como se encarregavam de dar destino ao que morria e não era aproveitado para consumo humano.

Agora, são raros os elogios fúnebres e os epitáfios sobre as campas. Morremos e o que fica é um nome e duas datas por baixo dele. 
Há bichos com mais sorte!


quinta-feira, 26 de abril de 2012

Fala do homem nascido


Venho da terra assombrada,
do ventre de minha mãe;
não pretendo roubar nada
nem fazer mal a ninguém.

Só quero o que me é devido
por me trazerem aqui,
que eu nem sequer fui ouvido
no acto de que nasci.

Trago boca para comer
e olhos para desejar.
Com licença, quero passar,
tenho pressa de viver.

Com licença! Com licença!
Que a vida é água a correr.
Venho do fundo do tempo;
não tenho tempo a perder.

Minha barca aparelhada
solta o pano rumo ao norte;
meu desejo é passaporte
para a fronteira fechada.

Não há ventos que não prestem
nem marés que não convenham,
nem forças que me molestem,
correntes que me detenham.

Quero eu e a Natureza,
que a Natureza sou eu,
e as forças da Natureza
nunca ninguém as venceu.

Com licença! Com licença!
Que a barca se fez ao mar.
Não há poder que me vença.
Mesmo morto hei-de passar.

Com licença! Com licença!
Com rumo à estrela polar.

António Gedeão (1958)

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Bocage




Camões, grande Camões, quão semelhante
Acho teu fado ao meu, quando os cotejo!
Igual causa nos fez, perdendo o Tejo,
Arrostar co'o sacrílego gigante;

Como tu, junto ao Ganges sussurrante,
Da penúria cruel no horror me vejo;
Como tu, gostos vãos, que em vão desejo,
Também carpindo estou, saudoso amante.

Ludíbrio, como tu, da Sorte dura
Meu fim demando ao Céu, pela certeza
De que só terei paz na sepultura.

Modelo meu tu és, mas... oh, tristeza!...
Se te imito nos transes da Ventura,
Não te imito nos dons da Natureza.

terça-feira, 29 de março de 2011

domingo, 6 de fevereiro de 2011

O Fiel


de Guerra Junqueiro

Na luz do seu olhar tão lânguido e tão doce,
Havia o que quer que fosse
D'um íntimo desgosto:
Era um cão ordinário, um pobre cão vadio
Que não tinha coleira e não pagava imposto.
Acostumado ao vento e acostumado ao frio,
Percorria de noite os bairros da miséria
À busca dum jantar.
E ao ver surgir da lua a palidez etérea,
O velho cão uivava uma canção funérea,
Triste como a tristeza oceânica do mar.
Quando a chuva era grande e o frio inclemente,
Ele ia-se abrigar às vezes nos portais;
E mandando-o partir, partia humildemente,
Com a resignação nos olhos virginais.
Era tranquilo e bom como as pombinhas mansas;
Nunca ladrou dum pobre à capa esfarrapada:
E, como não mordia as tímidas crianças,
As crianças então corriam-no a pedrada.

Uma vez casualmente, um mísero pintor
Um boémio, um sonhador,
Encontrara na rua o solitário cão;
O artista era uma alma heróica e desgraçada,
Vivendo numa escura e pobre água furtada,
Onde sobrava o génio e onde faltava o pão.
Era desses que têm o rubro amor da glória,
O grande amor fatal,
Que umas vezes conduz às pompas da vitória,
E que outras vezes leva ao quarto do hospital.

E ao ver por sobre o lodo o magro cão plebeu,
Disse-lhe: - "O teu destino é quase igual ao meu :
Eu sou como tu és, um proletário roto,

Sem família, sem mãe, sem casa, sem abrigo ;
E quem sabe se em ti, ó velho cão de esgoto,
Eu não irei achar o meu primeiro amigo !..."
No céu azul brilhava a lua etérea e calma ;
E do rafeiro vil no misterioso olhar
Via-se o desespero e ânsia d'uma alma,
Que está encarcerada, e sem poder falar.
O artista soube ler naquele olhar em brasa

A eloquente mudez dum grande coração ;
E disse-lhe :
-
"Fiel, partamos para casa :
Tu és o meu amigo, e eu sou o teu irmão".
E viveram depois assim por longos anos,
Companheiros leais, heróicos puritanos,
Dividindo igualmente as privações e as dores.

Quando o artista infeliz, exausto e miserável,
Sentia esmorecer o génio inquebrantável
Dos fortes lutadores;
Quando até lhe acudia às vezes a lembrança
Partir com uma bala a derradeira esp'rança,
Pôr um ponto final no seu destino atroz ;
Nesse instante do cão os olhos bons, serenos,
Murmuravam-lhe:
- Eu sofro, e a gente sofre menos,
Quando se vê sofrer também alguém por nós.

Mas um dia a Fortuna, a deusa milionária,
Entrou-lhe pelo quarto, e disse alegremente:
"Um génio como tu, vivendo como um pária,
Agrilhoado da fome à lúgubre corrente!
E
u devia fazer-te há muito esta surpresa,
Eu devia ter vindo aqui p'ra te buscar;
Mas moravas tão alto!
E digo-o com franqueza
Custava-me subir até ao sexto andar.
Acompanha-me; a glória há de ajoelhar-te aos pés!..."
E foi; e ao outro dia as bocas das Frinés
Abriram para ele um riso encantador;

A glória deslumbrante iluminou-lhe a vida
Como bela alvorada esplêndida, nascida
A toques de clarim e a rufos de tambor!
Era feliz.
O cão Dormia na alcatifa à borda do seu leito,
E logo de manhã vinha beijar-lhe a mão,
Ganindo com um ar alegre e satisfeito.
Mas ai! O dono ingrato, o ingrato companheiro,
Mergulhado em paixões, em gozos, em delícias,
Já pouco tolerava as festivas carícias
Do seu leal rafeiro.

Passou-se mais um tempo; o cão, o desgraçado,
Já velho e no abandono,
Muitas vezes se viu batido e castigado
Pela simples razão de acompanhar seu dono.
Como andava nojento e lhe caíra o pelo,
Por fim o dono até sentia nojo ao vê-lo,
E mandava fechar-lhe a porta do salão.
Meteram-no depois num frio quarto escuro,
E davam-lhe a jantar um osso branco e duro,
Cuja carne servira aos dentes d'outro cão.·

E ele era como um roto, ignóbil assassino,
Condenado à enxovia, aos ferros, às galés :
Se se punha a ganir, chorando o seu destino,
Os criados brutais davam-lhe pontapés.
Corroera-lhe o corpo a negra lepra infame.
Quando exibia ao sol as podridões obscenas,
Poisava-lhe no dorso o causticante enxame
Das moscas das gangrenas.
Até que um dia, enfim, sentindo-se morrer,
Disse "Não morrerei ainda sem o ver ;
A seus pés quero dar meu último gemido..."
Meteu-se-lhe no quarto, assim como um bandido.
E o artista ao entrar viu o rafeiro imundo,
E bradou com violência:
"Ainda por aqui o sórdido animal !
É preciso acabar com tanta impertinência,
Que esta besta está podre, e vai cheirando mal !"
E, pousando-lhe a mão cariciosamente,
Disse-lhe com um ar de muito bom amigo :
"Ó meu pobre Fiel, tão velho e tão doente,
Ainda que te custe anda daí comigo."
E partiram os dois.

Tudo estava deserto.
A noite era sombria ; o cais ficava perto;
E o velho condenado, o pobre lazarento,
Cheio de imensas mágoas
Sentiu junto de si um pressentimento
O fundo soluçar monótono das águas.
Compreendeu enfim! Tinha chegado à beira
Da corrente. E o pintor,
Agarrando uma pedra atou-lh'a na coleira,
Friamente cantando uma canção d'amor.
E o rafeiro sublime, impassível, sereno,
Lançava o grande olhar às negras trevas mudas
Com aquela amargura ideal do Nazareno
Recebendo na face o ósculo de Judas.
Dizia para si : "É o mesmo, pouco importa.
Cumprir o seu desejo é esse o meu dever:
Foi ele que me abriu um dia a sua porta:
Morrerei, se lhe dou com isso algum prazer."
Depois, subitamente
O artista arremessou o cão na água fria.
E ao dar-lhe o pontapé caiu-lhe na corrente
O gorro que trazia
Era uma saudosa, adorada lembrança
Outrora concedida
Pela mais caprichosa e mais gentil criança,
Que amara, como se ama uma só vez na vida.
E ao recolher a casa ele exclamava irado: "
E por causa do cão perdi o meu tesouro!
Andava bem melhor se o tinha envenenado!
Maldito seja o cão!
Dava montanhas d'oiro,
Dava a riqueza, a glória, a existência, o futuro,
Para tornar a ver o precioso objecto,
Doce recordação daquele amor tão puro."

E deitou-se nervoso, alucinado, inquieto.
Não podia dormir.
Até nascer da manhã o vivido clarão,
Sentiu bater à porta!
Ergueu-se e foi abrir.
Recuou cheio de espanto: era o Fiel, o cão,
Que voltava arquejante, exânime, encharcado,
A tremer e a uivar no último estertor,
Caindo-lhe da boca, ao tombar fulminado,
O gorro do pintor!

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Florbela Espanca




Quem nos deu asas para andar de rastos?
Quem nos deu olhos para ver os astros
Sem nos dar braços para os alcançar?!...

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Muriel por Ruy Belo



















MURIEL
Às vezes se te lembras procurava-te
retinha-te esgotava-te e se te não perdia
era só por haver-te já perdido ao encontrar-te
Nada no fundo tinha que dizer-te
e para ver-te verdadeiramente
e na tua visão me comprazer
indispensável era evitar ter-te
Era tudo tão simples quando te esperava
tão disponível como então eu estava
Mas hoje há os papéis há as voltas para dar
há gente à minha volta há a gravata
Misturei muitas coisas com a tua imagem
Tu és a mesma mas nem imaginas
como mudou aquele que te esperava
Tu sabes como era se soubesses como é
Numa vida tão curta mudei tanto
que é com certo espanto que no espelho da manhã
distraído diviso a cara que me resta
depois de tudo quanto o tempo me levou
Eu tinha uma cidade tinha o nome de madrid
havia as ruas as pessoas o anonimato
os bares os cinemas os museus
um dia vi-te e desde então madrid
se porventura tem ainda para mim sentido
é ser solidão que te rodeia a ti
Mas o preço que pago por te ter
é ter-te apenas quanto poder ver-te
e ao ver-te saber que vou deixar de ver-te
Sou muito pobre tenho só por mim
no meio destas ruas e do pão e dos jornais
este sol de Janeiro e alguns amigos mais
Mesmo agora te vejo e mesmo ao ver-te não te vejo
pois sei que dentro em pouco deixarei de ver-te
Eu aprendi a ver a minha infância
vim a saber mais tarde a importância desse verbo para os gregos
e penso que se bach hoje nascesse
em vez de ter composto aquele prelúdio e fuga em ré maior
que esta mesma tarde num concerto ouvi
teria concebido aqueles sweet hunters
que esta noite vi no cinema rosales
Vejo-te agora vi-te ontem e anteontem
E penso que se nunca a bem dizer te vejo
se fosse além de ver-te sem remédio te perdia
Mas eu dizia que te via aqui e acolá
e quando te não via dependia
do momento marcado para ver-te
Eu chegava primeiro e tinha de esperar-te
e antes de chegares já lá estavas
naquele preciso sítio combinado
onde sempre chegavas sempre tarde
ainda que antes mesmo de chegares lá estivesses
se ausente mais presente pela expectativa
por isso mais te via do que ao ter-te à minha frente
Mas sabia e sei que um dia não virás
que até duvidarei se tu estiveste onde estiveste
ou até se exististe ou se eu mesmo existi
pois na dúvida tenho a única certeza
Terá mesmo existido o sítio onde estivemos?
Aquela hora certa aquele lugar?
À força de o pensar penso que não
Na melhor das hipóteses estou longe
qualquer de nós terá talvez morrido
No fundo quem nos visse àquela hora
à saída do metro de serrano
sensivelmente em frente daquele bar
poderia pensar que éramos reais
pontos materiais de referência
como as árvores ou os candeeiros
Talvez pensasse que naqueles encontros
em que talvez no fundo procurássemos
o encontro profundo com nós mesmos
haveria entre nós um verdadeiro encontro
como o que apenas temos nos encontros
que vemos entre os outros onde só afinal somos felizes
Isso era por exemplo o que me acontecia
quando há anos nas manhãs de roma
entre os pinheiros ainda indecisos
do meu perdido parque de villa borghese
eu via essa mulher e esse homem
que naqueles encontros pontuais
Decerto não seriam tão felizes como neles eu
pois a felicidade para nós possível
é sempre a que sonhamos que há nos outros
Até que certo dia não sei bem
Ou não passei por lá ou eles não foram
nunca mais foram nunca mais passei por lá
Passamos como tudo sem remédio passa
e um dia decerto mesmo duvidamos
dia não tão distante como nós pensamos
se estivemos ali se madrid existiu
Se portanto chegares tu primeiro porventura
alguma vez daqui a alguns anos
junto de califórnia vinte e um
que não te admires se olhares e me não vires
Estarei longe talvez tenha envelhecido
Terei até talvez mesmo morrido
Não te deixes ficar sequer à minha espera
não telefones não marques o número
ele terá mudado a casa será outra
Nada penses ou faças vai-te embora
tu serás nessa altura jovem como agora
tu serás sempre a mesma fresca jovem pura
que alaga de luz todos os olhos
que exibe o sossego dos antigos templos
e que resiste ao tempo como a pedra
que vê passar os dias um por um
que contempla a sucessão de escuridão e luz
e assiste ao assalto pelo sol
daquele poder que pertencia à lua
que transfigura em luxo o próprio lixo
que tão de leve vive que nem dão por ela
as parcas implacáveis para os outros
que embora tudo mude nunca muda
ou se mudar que se não lembre de morrer
ou que enfim morra mas que não me desiluda
Dizia que ao chegar se olhares e não me vires
nada penses ou faças vai-te embora
eu não te faço falta e não tem sentido
esperares por quem talvez tenha morrido
ou nem sequer talvez tenha existido

sexta-feira, 6 de março de 2009

Almada Negreiros













Quando eu nasci, as frases que hão-de salvar a humanidade já estavam todas escritas, só faltava uma coisa - salvar a humanidade.

José Sobral de Almada Negreiros - (1893 – 1970). Nasceu em São Tomé e Príncipe. Artista plástico e escritor multifacetado, arauto do futurismo e das vanguardas. Despertou ódios e paixões.
Um dos vultos portugueses que me deslumbrou e me deu referências.

Livros que dele lembro: Nome de Guerra ; Invenção do Dia Claro
Sobre a sua personalidade li: Conversas com Sarah Afonso

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Literatura de cordel



















Das origens insuspeitas de um famoso monumento.

Ai que caso comovente
É este que eu vou dizer.
Já fez chorar muita gente
Muita mais há-de fazer.
E digo sinceramente,
Como vós já ides ver,
Que quem for muito doente
Até nem o deve ler.

Estava um carro cinzento
No escuro de um pinhal,
E o que se passava dentro
Não era nada de mal.

Os cobardes delatores
Irão talvez sugerir
As indecências maiores
Intentando denegrir
A pureza dos amores
A que me estou a referir.

Mas insisto em repetir
E vincar a todo o momento
Que mal nenhum se passava
Entre o par que se encontrava
No veículo cinzento.

Na escuridão velada
Soavam juras de amor.
Ela modesta criada
Ele humilde vendedor.
Afeição meiga e singela
Unia os seus corações.
Ele nutria por ela
As mais puras intenções.

Aqui repito de novo
E em cada momento insisto
Pois deveras me comovo
Cada vez que penso nisto.
Nada de mal era feito
Dentro do carro em questão.
Amor com tanto respeito
Jamais houve até então!

Mas bem sabeis que não se ama
Logo após a refeição
De repente surge o drama,
Sobrevém a congestão!
Com os olhos revirados,
O triste cai de joelhos
Agonizando aos bocados
Sobre os estofos vermelhos.

E a ingénua Maria
Ao senti-lo a estremecer,
Julgou que o pobre atingia
O auge do seu prazer.
E simulando um gozo imenso
Murmurou-lhe num gemido
“Ai filho, dá-me o teu lenço,
Para não sujar o vestido!”

De uma fúnebre oração
Como esta não me lembro,
Arquejada com paixão
A dezoito de Setembro.

E assim morreu de amor
Um chamado Alípio Cunha.
-Agora aqui a depor
Fala uma testemunha,
O senhor Manuel Carneiro
Residente na Amadora
Que estava atrás de um pinheiro
Já há cerca de uma hora.

-“Eu quero aqui afirmar,
Antes de mais, realmente,
Que não estava a espreitar.
Passeava normalmente,
Apeteceu-me urinar,
E olhando casualmente,
Vi o carro a baloiçar
E pensei rapidamente
- Oh Manel vai ajudar,
Pode estar alguém doente
E ser preciso chamar
Um médico, urgentemente!
E pego, vou encontrar…”

Chega a altura de atalhar
O longo depoimento
E insisto em realçar
Nada haver a censurar
Dentro do carro cinzento

E já agora, também digo
Que esse jovem em questão
Era muito meu amigo
Era quase meu irmão;
E que é mesmo verdadeiro
Que mal nenhum existia
E parto a cara ao primeiro
Que pense mal da Maria!

A bela história de amor
Veio em todos os Jornais
De Francelos aos Urais
Não se viveu outra dor
E o modesto vendedor
Teve exéquias nacionais.

E em memória (ao que se diz)
Deste caso tão cruel,
Foi construída em Paris
A famosa Torre Eiffel!

Assinava - j.a.
Está na minha mão desde 1971


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

1971 - Balada do Acto Heróico - “Ele não pôde fugir (ao seu destino)”


A história que eu vou contar
É das mais tristes que sei
E vós haveis de chorar
Como na altura eu chorei.

Já registou Portugal
Muita coisa em sua História
Mas de um caso assim igual
Tão triste, não há memória.

Pois que fala de um rapaz
Combatente da Nação
Que na luta pela paz
Pereceu de arma na mão.

“Antes quebrar que torcer”
Era o moço que vos digo.
Sinto muita honra em dizer
Que era muito seu amigo.

Tem hoje na sua terra
Linda estátua de metal:
“Jaz aqui, morreu na guerra,
A defender Portugal”.

Mas a história verdadeira
Que não veio nos jornais
Difere sobremaneira
Das versões oficiais.

Há dois anos que ele estava
Na Guiné a combater
Quase nunca se queixava
Era um homem a valer.

Mas numa noite funesta
Os amigos do Francisco
Ofereceram-lhe uma festa
De cervejas e marisco!

Habituado ao tremoço
Do magríssimo ordenado
O desprevenido moço
Exagerou um bocado

E logo ao romper do dia
Parte a coluna, segura
Do alferes que dormia
Na primeira viatura

Algumas horas mais tarde
Ainda o Chico roncava
Deu-se um ataque cobarde
Quando menos se esperava

E na veloz retirada
Para melhores posições
Fugiu tudo da estrada
Esquecendo os camiões.

E o Chico adormecido
Deu um grito: “Mais cerveja!”
A calma do destemido
Era de meter inveja!

Esticou-se calmamente
Por três vezes arrotou
E nem ouviu certamente
O tiro que o liquidou.

Hoje tem a “Torre e Espada”
E um monumento altivo.
Tem a fama desejada
Que não teve enquanto vivo.

Sendo uma história de guerra
Teria que acabar mal,
Mas reparem que ela encerra
Grande lição de moral:

“Não façam como Francisco
Porque dá mau resultado
Se vos servirem marisco
Dai-o a guardar ao SALGADO.

Rua Antero de Quental, nº892, 2ºdto.




Era assim que riamos da morte, quando a Guerra Colonial ceifava alguns dos nossos conhecidos.

Nota: O Poema nunca deve ter sido editado. O autor (de quem perdi o rasto), era então um colega de Universidade, que animava as tertúlias com muito humor e uma guitarra.


domingo, 9 de novembro de 2008

Versos de Pé Quebrado




















“Não deixemos que a verdade estrague uma boa história”.
Esta contaram-me há mais de 20 anos, e à força de a repetir, foi-se afeiçoando às minhas necessidades.

O cenário é Odivelas/Alentejo em meados do Século XIX, no tempo em que as distâncias se mediam pelo passo dos muares.

Em eleições, o candidato junta o povo no largo da aldeia. São poucos e agrupam-se em círculos críticos para ouvir palavras em que descrêem, enquanto murmuram a dureza da vida e o desterro da aldeia.

Entendem-no a tracejado, e só a pergunta final atirada para o seu meio, os faz mudar de pé e levantar a cabeça. “O que é que vocês querem para a aldeia, que eu, se for eleito…?”

Depois, um intervalo, um engolir de saliva, e uma voz de mulher cansada de carregar água à bilha, a assomar a medo numa ponta: “Queremos uma fontiii!”

“Uma ponte?”, diz o candidato, a dar resposta à ideia que já levava. “É isso mesmo. Se eu for eleito, a Câmara faz aqui uma ponte!”, e no meio dos aplausos dos correligionários, assume-se a obra.

O Gaitinha ainda questionou para o lado: “Uma pontiii? mas p’ra qué ca gentii quer uma pontiii, sa gentiii, nem rio teim?”, mas o Chicharo, que já via as suas mulas a carregar pedra para a obra, sobrepôs-lhe: “Faça-se a pontiii, c'o rio logo aparéciii!”

A obra fez-se, e no dia da inauguração, após os foguetes e para memória futura, ouviram-se os versos:

Graças a Deus já tem
Odivelas sua pontiii
E uma estalagem defrontiii
P'ra quem de carrêra
Lá for pernoitari
Sem p’rigo de se afogari
Na “ribêra”

Marcada de quina a quina
Toda fêta de pedra fina
E “marmii

Sê mestre que a fez
Capitão d’engenharia
Do seu ofício porcebia
A valerii

E se houver algum penetrante
Que também quêra falari
É tempo de se achegari
E diga.
(inauguração da ponte, 1865)
A versão “mais oficial” pode ser lida aqui.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Saber ler
























Perceber o que se lê, não é fácil. Implica ser capaz de sintonizar o autor.
Somos feitos de experiências diversas e atribuímos significados às palavras que nem sempre são universais.
Depois há a pressa de ler em segundos um texto que demorou dias a ser publicável.
Quanto tempo terá demorado António Gedeão a dar forma e som a estes “Dez reis de esperança”?

Se não fosse esta certeza
que nem sei de onde me vem,
não comia, nem bebia,
nem falava com ninguém.
Acocorava-me a um canto,
no mais escuro que houvesse,
punha os joelhos á boca
e viesse o que viesse.
Não fossem os olhos grandes
do ingénuo adolescente,
a chuva das penas brancas
a cair impertinente,
aquele incógnito rosto,
pintado em tons de aguarela,
que sonha no frio encosto
da vidraça da janela,
não fosse a imensa piedade
dos homens que não cresceram,
que ouviram, viram, ouviram,
viram, e não perceberam,
essas máscaras selectas,
antologia do espanto,
flores sem caule, flutuando
no pranto do desencanto,
se não fosse a fome e a sede
dessa humanidade exangue,
roía as unhas e os dedos
até os fazer em sangue.

e ... lê-se em 30 segundos.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Receita de Mulher



AS MUITO FEIAS que me perdoem
Mas beleza é fundamental. É preciso
Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso
Qualquer coisa de dança, qualquer coisa de haute couture
(ou então,
Que a mulher se socialize elegantemente em azul como na República Popular Chinesa)
Não há meio termo possível. É preciso
Que tudo isso seja belo. É preciso que súbito
Se tenha a impressão de ver uma garça apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa cor só encontrável no terceiro minuto da aurora.
É preciso que tudo isso seja sem ser, mas que se reflicta e desabroche
No olhar dos homens. É preciso, é absolutamente preciso
Que seja tudo belo e inesperado. É preciso que umas pálpebras cerradas
Lembrem um verso de Eluard e que se acaricie nuns braços
Alguma coisa além da carne: que se os toque
Como ao âmbar de uma tarde. Ah, deixai-me dizer-vos
Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro
Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e
Seja leve como um rosto de nuvem: mas que seja uma nuvem
Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo. Olhos então
Nem se fala, que olhem com uma certa maldade inocente. Uma boca
Fresca (nunca húmida) é também de extrema pertinência.
É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos
Despontem, sobretudo a rótula no cruzar das pernas, e as pontas pélvicas
No enlaçar de uma cintura semovente.
Gravíssimo é porém o problema das saboneteiras: uma mulher sem saboneteiras
É como um rio sem pontes. Indispensável
Que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida
A mulher se alteie em cálice, e que os seus seios
Sejam uma expressão greco-romana, mais que gótica ou barroca
E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de cinco velas Sobremodo pertinaz é estarem a caveira e a coluna vertebral
Levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal.
Os membros que terminem como hastes, mas bem haja um certo volume de coxas
E que elas sejam lisas, lisas como a pétala e cobertas de suavíssima penugem
No entanto sensível à carícia em sentido contrário.
É aconselhável na axila uma doce relva com aroma próprio
Apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!)
Preferíveis sem dúvida os pescoços longos
De forma que a cabeça dê por vezes a impressão
De nada ter a ver com o corpo, e a mulher não lembre
Flores sem mistério. Pés e mãos devem conter elementos góticos
Discretos. A pele deve ser fresca nas mãos, nos braços, no dorso e na face
Mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma temperatura nunca inferior
A 37º centígrados, podendo eventualmente provocar queimaduras
Do 1º grau. Os olhos que sejam de preferência grandes
E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da terra; e
Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro de paixão
Que é preciso ultrapassar. Que a mulher seja em princípio alta
Ou caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros.
Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que se se fechar os olhos
Ao abri-los ela não mais estará presente
Com o seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber
O fel da dúvida. Oh, sobretudo
Que ela não perca nunca, não importa em que mundo
Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder a sua graça de ave; e que exale sempre
O impossível perfume; e destile sempre
O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto
Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina
Do efémero e eu sua incalculável imperfeição
Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável
Vinicius de Moraes - 1969

Foi ele quem me criou esta ilusão de mulher que usei durante metade da minha vida! Obrigado!

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Agostinho Moreira














Agostinho Moreira, escultor em Madeira e Mármore, nasceu na Cidade de Lagoa Formosa (Estado de Minas Gerais - Brasil) em 1960.

Sabia que dentro das pedras, estavam rostos de mulher e alguns pássaros e por isso veio para a terra do mármore, quando aos olhos lhe subia o sangue do coração.

Depois, farto de tanta fome, voltou ao berço e perdeu-se no matagal, deixando por aqui um pouco da sua memória.

Há 2 anos, a mão de um amigo levou-me ao seu atelier, de onde trouxe estas 3 meninas e deixei lá este pássaro abandonado.