domingo, 23 de fevereiro de 2014

Carta aberta a Deus - Nosso Senhor


Caro Deus - Nosso Senhor:

Há anos que planeio escrever-te para te dizer algumas das “verdades” que me rabeiam na caixa dos pirolitos, mas, como as tuas diferentes personalidades me põem indeciso a qual me dirigir, viro-me para outras prioridades, em vez de me atirar ao texto.
Já te vi pelos olhos fendidos dos asiáticos, pelos espantados dos negros subsaarianos, pelos sanguíneos dos árabes e pelos sibilinos dos judeus, e concluo que o que dizes a uns não joga com as promessas que fizestes aos outros para que todos te seguissem.
Coisas como aquela das 20 virgens para os mártires do Islão não lembram ao diabo, como também o não faz que tivesses escolhido Israel para teu povo e dares-lhes um livro com “toda a Verdade”, a fazer inveja a mais de 99% da população do Mundo.
Mas o que aqui me traz, não são as guerras que patrocinaste, onde até gente da mesma família se mata enquanto grita “Deus é Grande” ou “Allah Akbar”, ou o mesmo noutras formas.

Eu queria é perguntar-te qual o papel que te reservaste na sociedade global em que o mundo se tornou, pois parece que, depois de teres feito todas as coisas animadas e inanimadas, com um especial fascínio pelo Homem, descuraste a manutenção.

Já deves ter reparado nas mudanças das últimas décadas e na tendência para a normalização dos comportamentos e procedimentos em todo o planeta. O que começou com a ocidentalização do vestuário, já envolve a Lei e as tuas determinações celestiais. Lentamente vão-se movendo os cordelinhos dessa nova ordem, fazendo com que os regionalismos tenham uma crescente dificuldade em se mover.
Viste o que aconteceu ao Kadafi e à restante malta do Norte de África, e todos esperam um fim parecido ao Mugabe e ao Kim Jong-un. E não é por eles serem piores do que outros que por aí andam. O seu mal é quererem manter regras próprias num mundo em que todos anseiam por ir a todo o lado em suposta segurança.

No norte da Europa, onde a religião tem perdido fiéis, fala-se menos de “moral” e de “ética” e a tónica é posta na Lei e nos Tribunais, numa lógica muito diferente daquela que ainda prevalece nos países onde o Vaticano se implanta. Falar de uma “moral” que ninguém leva a sério (porque é no incumprimento que frequentemente está o sucesso económico), não faz sentido num mundo onde quem manda é o dinheiro. É como andar de carroça a ver passar os aviões.
Já há tecnologia para despistar a maior parte dos crimes, pelo que é mais útil que as pessoas os não cometam com medo das consequências civis do que de um qualquer poder supra-humano as venham condenar. Nem que seja eternamente. Esse esquema só dá em sociedades sem recursos com uma gritante falta de qualidade na luta contra o crime.
Tens de acordar. Faz-te um Deus moderno com gente que goste de viver e que cumpra regras e os ditames da natureza. Esquece os dramatismos terríficos de um Inferno cheio de supliciados e a paz de um Céu onde nada acontece.

Se fosse a ti, arranjava uma grande Roda da Sorte e garantia que era eu que a fazia parar nos números certos, que dizia aos guarda-redes o lado para que vai o penalty e coisas assim do género, pois essa malta, quando acerta, vira-se sempre para o céu a agradecer, e não há quem não se benza quando a sorte nos aperta.

Fica a ideia. Se resultar, dás-me 1% que eu dou metade para os pobres.

Desejo-te uma Boa tarde e um grande "Até à Eternidade", se ainda andares por aí.

Fica bem!

Fernando

2 comentários:

Alima das Cartas disse...

Este seu texto fez-me imenso recordar uma música bem antiguinha do Boss Ac: Que Deus...

Infelizmente graças à vantagem que cada vez temos em ter os olhos abertos e virados para o mundo , começamos a duvidar da existência Dele. No entanto, como ainda somos apegados às nossas raízes e a uma cultura fortemente religiosa, apegamos-nos também à ideia que Ele talvez exista e que esteja um pouco distraído apenas...

Um bem haja :)

capitão disse...

Alima:
É bom que no nosso trajecto de vida não nos percamos em distracções de um Deus “infinitamente tudo”.
Os objectivos das organizações têm de ser claros, para que se possam monitorizar, principalmente quando é o Estado a pagar ou a subsidiar e muitas das confissões religiosas adquiriram poder com dinheiros públicos, vivendo à sombra de um Deus que ora manda a população para a guerra, ora promove a resignação fazendo o elogia da pobreza.
É a esse Deus que a carta é dirigida.