segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Carta a Marcello Caetano


Caro Marcelo:
Decidi escrever esta carta para sinalizar os 35 anos da tua morte real, seis anos depois da tua morte política.
Lembro-me de ti nos telejornais em banhos de multidão e nas “Conversas em Família” para nos doutrinar, até ao dia em que, de repente, caíste, dizendo uma frase estrondosa: “Rendo-me, para que o poder não caia na rua!”
Nessa altura, eu não sabia o que era o poder “na rua”. Só depois do PREC e das guerras civis nas colónias da Europa em toda a África, é que o entendi e passei a olhar-te como um académico crente num regime que recusava a nova moda mundial que ditava a autodeterminação dos povos e a alternância do poder.
Atiraram-te para primeiro-ministro quando já não havia solução. Um General num beco, envolto em denso nevoeiro, à mercê de vozes que o confundem, a tentar espaço no apoio dos fracos, até eles se cansarem e lhe virarem as costas.

A realidade atraiçoa quem dá "o seu melhor" quando a máquina já resvala e não há tempo nem mãos para lhe alterar o rumo. O regime estava em vias de extinção. Tu cumpriste-lhe o destino, qual mamute lanoso do Holoceno.

Foi a Esperança que te substituiu. Uma Esperança esfarrapada, a tomar medicamentos estrangeiros, a braços com “mercados” e “investidores” internacionais, impossibilitada de decidir por si, mas, apesar disso, melhor que a água choca onde pretendias que nadássemos.

Estive a ler os teus anos no Brasil até a morte te apanhar, de surpresa, encurralado pela vida, amargurado, solitário e com dificuldades económicas.
Devias saber ser esse um destino possível dos primeiros-ministros dos países do terceiro mundo, quando os regimes se eternizam no poder. É dos livros. Há uma altura em que o Povo dá ouvidos aos que perderam a Esperança, e exige aos poderosos que se arrastem na lama em que se julgam atolados. Só Cincinatus o interiorizou.

Tens mausoléu no Cemitério de S. João Batista, no Rio de Janeiro, onde o mármore roxo te acalma as recordações das múltiplas traições, bem longe deste Portugal que semanas depois de publicamente te aclamar, quis sumariamente acabar com os teus dias.

É a vida!

Fica bem!

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

La vie de Adèle



Adèle Exarchopoulos é uma actriz rara, capaz de sugar uma vida com o olhar e, ... fala francês.
Abdellatif Kechiche, o tunisino que escreveu, produziu e dirigiu o filme "La Vie d'Adèle", fixou-lhe os olhos, os lábios e o sorriso e condenou-nos a admirá-la para todo e sempre, neste filme improvável.
Deus nos dê fôlego!

domingo, 18 de outubro de 2015

Futurologia em Medicina



É para aí que nos vão levando. Não tarda que os médicos estejam a preencher quadros à semelhança do que já fazem os enfermeiros.

A “coisa” terá semelhanças com o seguinte esquema:
Finda a observação, o médico deve dirigir-se ao computador e escrever, em locais próprios, os diagnósticos “prováveis”, os “definitivos” e os "indeterminados" de cada doente.
Após o “enter” irão aparecer no écran, as opções terapêuticas para os diagnósticos anotados, já com as doses ajustadas à idade, às alergias ou às insuficiências de órgão identificadas. 
Depois de escolher nas soluções disponíveis, o plano terapêutico será instituído, mas antes terá de justificar a preferência pelas que não estão nas primeiras linhas.

O “gestor”, semanalmente, irá analisar a "produção": o número e variedade de diagnósticos efectuados, os gastos, a iatrogenia e o cumprimento das NOCs, para depois dar uma nota de “eficiência”.

Esta será a época do “You are as good as your last performance”, em que qualquer gestor recém-formado num curso nocturno, porá em causa décadas de reconhecida vida profissional.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Mártires


Viana do Castelo, tem os seus mártires na fachada da Igreja dos Santos Mártires, popularmente chamada “Igreja das Ursulinas”. 
Tem S. Bartolomeu dos Mártires, por ter vindo aqui morrer na paz do Senhor, e que tinha Mártires no nome por ter nascido nessa antiga freguesia de Lisboa.
Não tem Rua dos Mártires da Pátria, nem dos Mártires da Liberdade, nem tão pouco dos Mártires da Arménia.

Os "seus" mártires - Teófilo, Saturnino e Revocata, não andam pelas suas freguesias. Aí pontuam mártires estrangeiros. Santa Luzia de Siracusa na Sicília, Santa Leocádia de Toledo, Santa Eulália de Mérida, São Lourenço de Valência e São Paio de Córdova, Santa Quitéria da Aquitânia e São Sebastião de Narbone em França, Santa Cristina da Toscana e São Martinho de Todi na Itália, São Pedro, São Bartolomeu e São Tiago da Palestina, São Romão de Antioquia e São Mamede da Cesareia na Turquia.

Alguns morreram muito jovens – Santa Quitéria aos 15 anos, Santa Cristina aos 12, Santa Eulália aos 14, Santa Luzia aos 21, Santa Leocádia (bela e muito jovem), São Mamede aos 15 anos e São Paio aos 13, todos eles nos primeiros 4 séculos da nossa Era. 

Os seus ícones lembram os que deram a vida para defender a “verdade”, uma verdade questionável à luz de outras fés, bem como o modo de a fazer valer. 

Com a tónica actual posta na "Inteligência emocional”, isto é, na capacidade de reconhecer a par dos próprios sentimentos, os sentimentos dos outros, e ter a capacidade de lidar com eles, orientamos a disponibilidade para o martírio para as consultas de Psiquiatria.
Recusamos entender os mártires no Islão, principalmente quando tomamos conhecimento de crianças atiradas para a morte a gritar Allahu Akbar (Deus é Grande) e vemos os mártires dos nossos dias, como vítimas das circunstâncias - os judeus no Holocausto, os Arménios de há 100 anos, os tutsis no Ruanda de 1994, os soldados no desembarque nas praias da Normandia ou os civis apanhados na guerra da Síria.

Quem radicaliza o gesto e se dispõe a morrer para não "apostasiar a sua fé", fica sem espaço.
Hoje, a um santo exige-se um currículo e o exemplo de compromissos com as outras Fés, para que, mantendo a sua, possa contribuir para a paz neste mundo globalizado.

Faltam ícones desses para o lembrar.


Nota:
A igreja dos Santos Mártires, popularmente chamada “Igreja das Ursulinas” é um pequeno templo do século XVIII, apenso a um grande edifício que serviu como convento sob a denominação de “Colégio do Senhor das Chagas”, regido por freiras devotas a Santa Úrsula.

domingo, 4 de outubro de 2015

Nossa Senhora da Cabeça


No distrito de Viana do Castelo, Nossa Senhora da Cabeça, tem romaria em Freixieiro de Soutelo -  V. Praia de Ancora, em Cortes – Monção e em Cristelo-Côvo – Valença.
Tem Santuário, capelas, um Parque Natural e uma Área de Lazer, com restaurante e centro náutico.

No Brasil, é venerada na Catedral do Rio de Janeiro e na cidade de Perdizes, depois de, em 1948, ter livrado de grave doença, o lojista Sr. Aristonides Afonso do Prado, e ele para ali ter levado uma sua imagem.
Nos dois países as orações diferem e a imagem também.

Em Portugal é representada com a mão na cabeça para protecção de quem tem dores de cabeça e para os filhos que não estão bem na escola, no Brasil com uma cabeça na mão, respeitando a sua História maravilhosa.


O pico da Cabeça é o mais alto da Serra Morena na Andaluzia, Espanha. Lá vivia um soldado das Cruzadas, Juan Alonso de Rivas, que ficara mutilado de um braço na guerra contra os infiéis. Por isso se tornou pastor.
Juan era devoto de Maria e, enquanto apascentava as ovelhas, rezava pedindo-lhe protecção.
Em 12 de Agosto de 1227, foi alertado por uma grande luz e por um sininho vindos do
cume do monte. Aproximou-se. N
uma gruta, viu uma imagem de Nossa Senhora, e uma voz vinda do Céu pediu-lhe  para ir ao povoado de Andujar falar da sua visão para que todos se convertessem e construíssem naquele lugar uma igreja.
Juan, com medo de que não acreditassem nele, pediu a Nossa Senhora que lhe desse um sinal e  viu o seu braço refeito.
O vigário de Andajur e todos correram para o pico da Serra da Cabeça para verem a imagem e venerar Nossa Senhora. Ela passou a ser chamada ali de Nossa Senhora da Cabeça. Trouxeram a imagem para o vilarejo, até que fosse construído um grande templo em sua honra e toda a região se converteu e passou a peregrinar à  Serra Morena.
Vários milagres começaram então a acontecer. Um condenado, que jurava inocência, pediu-lhe um milagre, e, na hora de sua execução, chegou um mensageiro do Rei trazendo o perdão, dizendo que haviam errado no seu julgamento. O homem mandou fazer uma cabeça de cera e depositou-a aos pés da imagem em agradecimento.
Por este motivo é representada segurando uma cabeça em suas mãos.


Notas históricas e culturais:
Nossa Senhora da Cabeça (Virgen de la Cabeza) é uma das mais antigas devoções marianas de Espanha, com origens no século XIII. A principal celebração realiza-se no último domingo de abril, na cidade de Andújar, província de Jaén.
A Reconquista cristã do sul de Espanha começou cedo, mas consolidou-se mais tardiamente: Sevilha: reconquistada por Fernando III de Castela em 1248; Córdova: em 1236, Jaén: em 1246; Granada: o último reino muçulmano, caiu apenas em 1492 pelas mãos dos Reis Católicos, Isabel e Fernando.
A seguir à reconquista, houve uma nova cristianização oficial: Construção de igrejas e catedrais sobre antigas mesquitas. Expulsão ou conversão forçada de muçulmanos e judeus (séculos XV–XVI). Criação de dioceses e reorganização eclesiástica da Andaluzia (ex: Arcebispado de Sevilha.

A Serra Morena é uma cordilheira do sul de Espanha. O santuário de Nuestra Señora de la Cabeza localiza-se no Parque Natural da Serra de Andújar, um importante centro de peregrinação mariana.

A romaria de Nossa Senhora da Cabeça em Freixieiro de Soutelo, no concelho de Caminha, realiza-se tradicionalmente na segunda e terça-feira de Páscoa. Durante essas datas, decorrem procissões, incluindo o tradicional “Lanço da Cruz”, e celebra-se a missa solene em honra da padroeira.
No Lanço da Cruz, uma cruz grande de madeira, enfeitada com flores, é erguida e “lançada” ao ar por um grupo de homens, em movimentos verticais, com força e ritmo, sem que esta toque no chão — como uma oferenda visual a Deus e à Virgem. O gesto é repetido em vários pontos do trajeto da procissão, especialmente em locais simbólicos como capelas, cruzamentos e junto ao santuário, sendo um momento de profunda emoção e devoção coletiva.

sábado, 3 de outubro de 2015

Rua da Judiaria

Primeiro era uma rua sem nome. Quando, a oligarquia cristã, na segunda metade do século XV, disputou os espaços nobres da cidade aos judeus, e os obrigou a viver em zonas circunscritas na periferia do agregado urbano, começou a ser denominada Rua da Judiaria - uma das "ruas do arejo" de Viana do Castelo, perpendiculares às ruas principais que iam "de monte a mar".

Assim se manteve até os anos a degradarem e começar a ser povoada por uma marginalidade dedicada à prostituição e passar a ser conhecida por Rua dos Sete Ais.
Em Janeiro de 2008 a  Câmara rebaptizou-a com o nome de Amália, por ela ter cantado a cidade, e muitos vianenses insurgiram-se contra este "upgrade", por lá respirarem casas dos judeus antigos, com os seus símbolos gravados nas ombreiras ou padieiras das portas.










































Desculpa Amália, mas essa rua é deles, mesmo que já lá não morem, e tu ... ali, não passas de uma intrusa.

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

O sono de Deus


Tinha já passado uma eternidade quando Deus se dispôs a uma nova etapa na sua já longa vida. Não que estivesse cansado de dar ordem ao Universo, mas por considerar ter já conseguido alguma estabilidade nos sistemas construídos, e que a contínua expansão do espaço teria como natural consequência um risco diminuto de colisões entre a matéria.

Há muito tempo que pretendia experimentar o sono, os sonhos e vivenciar um acordar como se tivesse estado noutra dimensão, por considerar que eles o poderiam ajudar a entender a loucura dos seres que concebera, e que persistiam em perseguir objectivos que não lembram ao Diabo, sabendo Ele, como ninguém, que o Diabo é capaz de tudo e mais alguma coisa, e até daquilo que ainda não foi feito.
A oportunidade chegara imperiosa, e, sem delongas, que um Deus, não necessita de ponderar as decisões, chamou o Acaso e a Esperança e comunicou-lhes:
- Chegou o tempo de experimentar o sono e o sonhar! Até agora, tenho-me ocupado de tudo o que tem acontecido neste Infinito que gerei. Vocês são novos e estão frescos, peço-vos, que é como quem diz - ordeno-vos, que tomem conta do Universo, até eu acordar!

E, como um imenso urso imaterial a responder a premência de um sono secular, arredou-se para um canto do Universo, embrulhou-se num punhado de galáxias e expandiu-se, desaparecendo numa imensa nuvem de antimatéria..

Esta vontade de Deus, surgindo assim do Nada e sem qualquer envolvência prévia, deixou-os perplexos. Sempre O tinham visto activo, um "Workaholic" circundado de estrelas, galáxias, átomos, partículas e buracos negros, constantemente a transmutar matéria em energia ou a comprimir ou a expandir o Tempo, e nunca lhes passou pela cabeça que alguma vez Ele se iria afastar do controle dos ventos, das marés e de todo o movimento das ondas com que tinha povoado o Cosmos.

Sabiam serem insondáveis os Seus desígnios, mas aquela responsabilidade dada assim de chofre, sem uma formação, sem normas, procedimentos ou paradigmas, que lhes servissem de Guião, e ainda por cima para um tempo de sono indefinido, pareceu-lhes uma insensatez divina. Mas manda quem pode e obedece quem deve, e Ordens de Deus não se discutem. Bem vistas as coisas, eles estariam na graça do Senhor, e com um pouco de espírito positivo tudo se havia de arranjar.

O Acaso, apesar de ter sido, até então, pouco determinante no evoluir dos factos, tinha mundo e muita prática. Poderia pensar-se que lhe seria difícil manter um rumo ou dar sequência a uma ideia, mas tal nem lhe assomou à cabeça, para orientar os seus planos. Faria o seu melhor, que é como quem diz, faria tudo ao acaso, com toda a seriedade, pois não era seu apanágio folgar em serviço. Também não sabia o que era dormir pelo que lhe era fácil estar presente em todos os fenómenos do Universo, o que era, só por si, uma inegável mais-valia. Quando Deus acordasse iria ver diferenças. Um desarranjo aqui, outro acolá, mas também havia de ver coisas a acrescentar à sua infinita obra. Por si, ficaria satisfeito se na balança do Deve e do Haver, após tudo somado, o fiel não pendesse para nenhum lado.

A Esperança, estava menos convicta em assumir aquela realidade. Nunca tinha trabalhado. Desde que fora criada, passara o tempo a embelezar-se com grinaldas e tiaras e a experimentar uns panos esvoaçantes a colar-se ao corpo quando se expunha aos ventos cósmicos e, de vez em quando, a riscar uns caminhos luminosos, uns corações entrelaçados, umas pombas esvoaçantes, uma luzes no escuro, algumas ao fundo de longos túneis, sem nunca os expor ou sequer tirado das gavetas onde, qual poeta, timidamente as guardava temerosa dos olhares mordazes.

Os seus passos titubeantes não pareciam adequados a tão ciclópica tarefa. Aparentava uma menina no primeiro dia de aulas, com o Livro do Destino nas mãos, mas quem estivesse atento, poderia vislumbrar-lhe um laivo de altivez, daquela que impregna os que se presumem predestinados, só por terem sido chamados a funções que julgam grandiosas.

De facto, a peça haveria de se afirmar melhor que a amostra, ao optar, logo de início, por ignorar o mundo inanimado e dedicar-se exclusivamente aos seres vivos, e dentro destes, de modo muito especial, ao Homem.

Digamos que o Acaso passou a ser omnipresente em toda a construção divina e que a Esperança só pontualmente aparecia a dar cor à ordem natural das coisas, sempre que um animal em aflição a invocava, na expectativa de que ela pudesse influenciar o Acaso, ou no mínimo, ajudá-lo a manter um rumo mesmo que pejado de escolhos e contrariedades.

O Acaso, mais activo, mostrou-se perito em pôr à prova os mais inteligentes, enquanto a Esperança, foi nos desfavorecidos que formou o coro de seguidores. Embora ricos e pobres a invocassem, foram estes últimos que mais beberam das suas irrealidades maviosas e dos prazeres perpétuos, de aquém e além-túmulo com que beatificamente os mimoseava.

O Acaso fez de tudo. Jogou com o Espaço, com o Tempo, com a Matéria e a Energia, interpenetrando uns nos outros para que nenhuma lei fosse universal, e criou tempestades capazes de eriçarem os cabelos dos Einsteins enquanto o comum dos mortais o ignorava, como a um cheiro que, por persistir, se deixa de identificar. Deleitava-se com o ser capaz de, com o bater de asas de uma borboleta no Iucatão provocar uma tempestade no mar da China, ou em provocar um “el niño” de pasmaceira numa galáxia ou num buraco negro com um punhado de neutrões atirados para cima de um horizonte de eventos.

A Esperança, queria uma vida menos complicada. Cedo compreendeu que o tempo estava do seu lado e que não teria prazo para dar respostas loucas, à multitude de solicitações que a toda a hora lhe apareciam vindas do Cosmos, com uma especial predilecção por um pequeníssimo ponto da Via Láctea a que chamavam Terra. As que dali saíam eram tantas e tão variadas, que a teriam rapidamente saturado, não fora a sua pronta decisão em montar naquele planeta duas secções para gerir a população de uns seres erectos chamados Homens, que arengavam ter sido feitos à imagem e semelhança de Deus. Idealizou uma para a gestão das coisas terrenas e outra para as confabulações sobre uma vida para além daquela que estava a ser vivida.
Os seus longos períodos de ausência no espaço interestelar, não lhe permitiam meter “as botas no terreno” e implementá-la, para que se evitassem abusos e, quase de imediato, para além das naturais disfunções associadas ao início de uma qualquer actividade, surgiram os oportunistas que acumularam os dois pelouros.

Uma meia dúzia, mas os suficientes para lhe dar um mau começo. Ao aperceberem-se que o sucesso lhes poderia advir só do facto de distrair os aflitos das suas aflições, passaram a bombardeá-los com um imaginário de irrealidades até lhes aturdir os frágeis espíritos para que passassem a quase desejar que uma morte libertadora lhes desse acesso a uma vida infinita de luz suave e prazeres comedidos, a troco de uma Fé cega e do cumprimento das suas regras, enquanto identificavam todo a restante humanidade como Infiel e merecedora de uma morte eterna de dor e sadismo inimagináveis.

Mas nem todos aproveitaram a pouca vigilância da Esperança para desgraçar os seus conterrâneos. Felizmente que alguns, a par da atenção às súplicas dos seus fiéis, mantiveram um olho no que o Acaso lhes punha no caminho, conseguindo assim abrir as pistas da evolução humana e o conforto dos infelizes. Têm nome na Ciência, na Religião, na Política, nas Artes e em todas as actividades humanas, mas há que procurá-los com atenção, porque raramente ocupam os pedestais, por não lhes terem dado acesso aos papéis onde se escreve a História.

...

Muito tempo passara e Deus ainda dormia, num sono feliz, povoado de sons, imagens e sensações divinas a que os mortais nem pela imaginação têm acesso, quando o Acaso, no meio das suas elucubrações, lhe fez passar uma estrela cadente pelo interior de um sonho, como se um mosquito zunisse à orelha de um mortal.
Instintivamente, Deus afastou suavemente a Via Láctea e, enquanto se ajeitava, teve um vislumbre do planeta Terra, mais precisamente num pedaço de terra em forma de bota no meio de um pequeno mar.
Ainda ensonado reparou que num minúsculo ponto, sensivelmente a meio, numa cidade a que chamavam Vaticano, havia um mar de gente, que ele não conhecia de lado nenhum, a falar dele como se o conhecessem há milhares de anos.
Ainda se tentou a aconchegar na galáxia Andrómeda e retomar aquele sono reparador, mas, como se uma pulga lhe tivesse picado atrás da orelha, prestou atenção ao que ali se dizia.
De um lado uma cúria gorda discutia o sexo aos anjos e pouco mais, do outro, um punhado de gente tentava falar dos deserdados deste mundo.

Sentou-se, coçou os longos cabelos, chamou a Esperança e rouquejou: - Que é que tu andaste a fazer? Será que também estiveste a dormir? Depois reconsiderou. Fora Ele que fizera frágeis os seres vivos, como se quisesse testar se a teoria de Darwin levaria algum dia o Homem até si, e também a Esperança, que sem nenhum poder, nada poderia fazer para alterar o rumo à ordem natural das coisas.

Esticou o manto de estrelas onde se estirara, chamou o Acaso e ordenou: -Põe ali uma meia dúzia de oportunidades, só para ver no que dá!
E dito isto, arrancou do fundo da alma um enorme bocejo, e desapareceu pelo canto mais longínquo de uma Singularidade.

Era 13 de Março de 2013.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

GPS


O meu GPS, de há 35 anos, para fazer domicílios no Porto em associação a este pequeno mapa.

domingo, 27 de setembro de 2015

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Futurologia.


Era eu pequenino quando um "Almanaque", do início do século XX, que estava na arrecadação da casa da minha avó, me caiu nas mãos. Dele, ficaram-me dois desenhos. Um com a "casa do presente" com a sua cocheira, o outro com a "casa do futuro" com um hangar para um "dirigível", como lhe chamavam. As habitações eram semelhantes e lembravam as casas antigas da avenida do Brasil, na foz do Douro.

Há uns dias, deu-me para futurar que as casas do final deste século teriam uma plataforma para um drone de transporte, guiado por GPS, a que se acoplaria uma cabine. Teriam um programa que imitaria o comportamento dos peixes num cardume ou o dos estorninhos nos bandos, para não colidirem, e não exigiriam aprendizagem para serem manobrados, para além da programação dos destinos.
Teriam autonomia para 50 Km e funcionariam como Táxis aéreos.


domingo, 13 de setembro de 2015

O Cerne e o Alburno



Sou absolutamente contra a AUSTERIDADE  e desesperadamente a favor do RIGOR.
E dito isto, passemos ao cerne.

O fundamental para qualquer animal é a alimentação que lhe permita crescer e manter-se saudável, um abrigo onde possa descansar em segurança e a possibilidade de se poder reproduzir, para se  perpetuar depois da morte.
Estas três condições constituem o ambiente favorável que qualquer progenitor deve garantir.

Numa sociedade humana moderna, a maioria da população, conta também com o Estado para lhe assegurar estas condições e centra-se essencialmente na sua valorização dentro do grupo, e olha para a fome e para insegurança como perigos longínquos. Quanto à reprodução ... "temos tempo!".

Para conseguir lugar de destaque e obter índices que lhe permitam o reconhecimento dos outros, há que se meter por um dos caminhos já existentes ou arriscar abrir outros não trilhados e ser o primeiro, nem que seja a dar a volta ao mundo em cima de um skate. São opções individuais com toda a legitimidade, desde que não interfira com o bem-estar do próximo, pois o que fizer só irá  "animar a economia".

Outra coisa é quando se gasta o dinheiro dos outros, seja ele dos contribuintes, depositado em Bancos Privados ou de um patrão desatento. Aí não pode haver desperdício e as contas têm de estar certas com o acordado. Os luxos, se os houver, devem estar previamente estabelecidos, porque a norma é a eficácia e não a vaidade.
No Estado, viaturas oficiais "topo de gama" e luxo nos gabinetes oficiais, só para a Presidência da República e Primeiro Ministro, mas com despesas de representação muito bem justificadas. Ponto Final.

Por isso pasmo quando ouço falar de Austeridade na Administração Pública, onde eu esperava ouvir Rigor e responsabilização de todos os que, por incompetência ou desleixo, malbaratam os recursos que lhes estão disponíveis.
Por exemplo: gostava de ver auditorias sobre a ADSE, ADMG e outros subsistemas de Saúde que, actualmente, sustentam as múltiplas clínicas que proliferaram a empolar tratamentos e exames auxiliares de diagnóstico para compensar (e não só) o fraco preço da consulta.
Isso seria Rigor e não Austeridade.

Gostava de sentir um Rigoroso controle dos gastos dos Ministérios, Autarquias e Empresas Públicas, que as impedissem de fazer obras desnecessárias ou impossíveis de manter.
Mas acima de tudo gostava que se tivesse aprendido alguma coisa com o nosso passado e se tivesse identificado quem nos propôs e facilitou os desmandos que nos levaram a ficar reféns de uma dívida impagável, para poder decidir um caminho mais saudável.

Não é com austeridade que nos resolvemos. É com Rigor e Responsabilização.
É esse o cerne! A Austeridade é ... o carnaz!

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Eleições


Um número significativo dos nossos governantes não são pessoas do povo, ou académicos a puxar pela nação, mas políticos profissionais determinados em ganhar eleições e a ensinar a emputescer (corrigido) cordeiramente.

sábado, 29 de agosto de 2015

Música ao Entardecer


Sexta-feira, 28 de Agosto de 2015 / 19 horas
Auditório "Dois mares" / Afife

Luís Pipa 
Melancolia
Franz Schubert 
Marcha Militar op.51, nº1 para piano a 4 mãos
João Araújo / Vera Fonte
Winton Guess
If you were here
Vera Fonte
Maurice Ravel
Alborade del Gracioso
João Araújo
Ludwig van Beethoven
Variações sobre um tema do conde de Waldstein para pianao a 4 mãos
Luís Pipa / Vera Fonte

E encontrou-se quem, há tempo, se não via. 
Obrigado Luís

domingo, 23 de agosto de 2015

Troféus dos Pobres


Música de Mário Rocha, arranjo meu.