segunda-feira, 8 de novembro de 2010

A madeira


-“Dona Catarina, então qual foi o medicamento que o seu médico de família lhe receitou para a hipertensão?”, pergunto, quase no final da consulta.
- “Não sei o nome. Mas a bula está na minha carteira!”, e aponta-a ao marido que a acompanha, enquanto lhe pede: “Oh Carlos, procura aí nessa bolsa do lado, que deve estar por aí!”
O Sr. Carlos tem setenta e cinco anos, cansados de muita vida e dos muitos anos naquele matrimónio, em que progressivamente deixou de achar graça à loucura da companheira. Aceita-a como um destino. Têm-se um ao outro. Não tiveram filhos, e voltaram a Portugal, depois de uma vida inteira de emigração.

Ele mete a mão na saca e tateia demoradamente o interior, espreitando sempre que os dedos tocam qualquer coisa que lhe pareçam papel. Ela impacienta-se. Estica-se na cadeira de rodas, para lha tirar da mão, dizendo: -“Eu vejo mais sem os óculos, que tu com eles postos!”, e depois virada para mim: -“Dr!, quando eu não encontro o que quero, viro a saca do avesso, e ponho tudo fora!”, e desata a tirar da carteira os mais variados objectos, explicando sempre que um mais esquisito lhe salta à mão.
-“Esta linha, é para o caso de eu ter de atar um saco de plástico!”, e sacode-a, para cima da secretária. –“Este bocadinho de madeira, é para o caso de se dizer qualquer coisa que nos possa prejudicar, bater com os nós dos dedos três vezes, depois de dizer: Cruz, Credo, Pé de Pato, Mangalô! Três vezes!”, e olha para mim para justificar, e completa: -“Sabe, nem sempre a gente está num sítio em que tem madeira para bater!”
-“Oh dona Catarina, não acredito que a senhora ande com esse bocadinho de madeira para esse fim!”, pergunto incrédulo, enquanto o marido deita a mão à testa e olha para o lado embaraçado.
-“É Dr! E tem de bater três vezes. Se bater quatro, tem de bater mais duas, para fazer seis, senão não resulta! O Dr. quer? Eu tenho outro lá em casa!”
-“E a Sra. não tem medo de ficar sem ele?”
-“Não! Eu vou já para casa. Moro perto!”
-“Obrigado!”
Ao sexto objecto encontrou a bula.

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