segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Smartphone


Está junto ao filhito de três anos que dorme sossegado. O mundo entra-lhe pelo telemóvel. Do outro lado, um desconhecido, atordoa-a com perguntas a que se furta. Uma amizade do Facebook, sem porquê, a aguçar-lhe a curiosidade, com factos de uma realidade próxima.
Há sete anos que está naquela casa com os sogros, velhos e doentes. O marido só chegará ao fim do dia, cansado, para assistir à sua corrida do jantar, da louça e do filho, até que a telenovela os faça encostar.  
Dias que se repetem. De manhã, a casa, à tarde o Café do sogro a empatar-lhe o tempo, a ver os carros na estrada pelo grande vidro. Às sextas as compras, ao domingo os pais e as poucas amigas que consegue manter a 30 Km, na terra onde nasceu.
Os quase trinta anos, levaram-lhe muitas das ilusões. O seu maior amigo de agora é o telemóvel, onde estão todos os que não lhe podem entrar porta adentro. Gente desfocada por textos e imagens copiadas para uma qualquer  rede social,.
Não fora o filho e o telemóvel e tudo seria um pesadelo. Umas vezes, ri-se sozinha, outras pára para pensar no pouco tempo para estar com quem se dava.
Sente o marido chegar. Apressa-se. Mete o telemóvel na carteira. Não quer ter que dar respostas. Há mundos que não se partilham. São jogos individuais.

1 comentário:

Catia Penalva disse...

Uma bela crítica à sociedade atual.