domingo, 31 de janeiro de 2016
O Ocaso dosDeuses (10)
Hipólito, pensava: -“É por baixo das grandes pedras que se escondem as maiores cobras!”. Estava ele ali a tomá-los por bem intencionados e, de um momento para o outro, via-os a planear oportunidades para cataclismos, com a maior desfaçatez.
Morava a menos de 1Km do mar, a uma cota de 36 metros. Será que não o poupariam e que todo o recomeço teria por base a gente do interior ou com um HLA favorável a uma resposta imunológica rápida àquelas infecções, quando seria expectável que fossem os mais inteligentes os favorecidos?
Nem sequer decidiam. Punham tudo na mão do Destino.
Vindo do oriente, o carro dos corcéis negros, aproximava-se em alta velocidade. Hades de cabelo ao vento e Tártaro de asas coladas ao corpo semelhavam um meteorito. Pararam no terreiro levantando uma imensa nuvem de pó.
Hera e Zeus, que entretanto chegara, saíram a recebê-los.
- Oi! Galera! Que tal a viagem! Valeu a pena?, perguntou Zeus, afastando a poeira com um gesto.
- Deu para a despesa, Mano!! Estávamos à espera de um atentado num casamento. Coisa para 300 de uma só vez, mas acabámos num naufrágio no mar Egeu. Tivemos de nos mover rápido. A marinha grega ainda salvou alguns. Morreram duzentos e cinquenta. A maioria católicos e muçulmanos. Para nós só vêm trinta. São de crianças e de quatro adultos com défice cognitivo.
Hipólito, chegou-se à frente e atreveu-se a perguntar.
- Então há mais deuses, por lá, à cata de almas?
Hades respondeu: - Eles mandam para lá os anjos para as recolherem. Quem está a levar o maior quinhão são os católicos, porque muitas almas acreditam que, se no último minuto, se arrependerem, lhes vai acontecer como ao “bom ladrão” do Evangelho de Lucas.
Nós falamos-lhes na reincarnação. Se eles estiverem de acordo, o Hermes encaminha-os para o Radamanto. Só depois é que são preparados para a viagem. Você sabia que uma bigorna de bronze a cair do céu demora nove dias a alcançar a terra e outros nove até ao Tártaro?
O médico estranhou. – Então o Hades não é todo igual?
- Não! Para os Campos Elíseos vão os heróis, os santos, os sacerdotes e os poetas. A maioria fica no Hades e os maus vão para o Tártaro para serem atormentados. O Tártaro está coberto por três camadas de noites a que se segue um muro de bronze, sem nenhuma abertura. É húmido p’ra chuchu. Péssimo para o reumatismo!
- Então é um Inferno!!, concluiu Hipólito. – Vocês sabiam que o Papa João Paulo II fechou o dele em 1999, e que substituiu o fogo e o enxofre por uma “percepção consciente de rejeição” onde se passa a eternidade separado de Deus?
Tártaro, que até aí se mantivera calado, abriu as asas, deu dois passos em frente e, ignorando Hipólito, dirigiu-se a Zeus:
- O que é que este cromo anda aqui a fazer? Já é a segunda vez que o encontro dentro de casa. Se ele volta a questionar o que quer que seja, sobre a minha actividade ou a estabelecer conceitos morais, frito-o lá em baixo no primeiro caldeirão que encontrar. Em vez de o ouvires, melhor era que viesses comigo arranjar o poço do Tântalo que está entupido. Qualquer dia chega à água e mata a sede!
O clínico, encolheu-se atrás de Hera, esperou que ele desaparecesse pelo chão e agradeceu.
- Dona Hera. Vi o caso mal parado! O tipo tem mau feitio!. Eu não o quis ofender. Só perguntei porque, actualmente, as religiões estão a abandonar o paradigma do castigo eterno e a adoptar soluções menos drásticas, como a reencarnação num ser mixuruca, para o obrigar a voltar atrás na evolução e ter de se esforçar vida a vida até ao Nirvana.
- Eu percebi a sua perplexidade. Mas neste momento é isto que temos. Há projectos mais ecológicos para implementar no Inferno, mas obrigam a outras infra-estruturas e a uma organização significativamente diferente.
Entretanto Zeus, que ouvira o diálogo, quis completá-la.
- Se ficarmos por cá, o projecto é o da reencarnação para todos, na hora e no ser que foi mais prejudicado pela alma em questão. Por exemplo, aqueles que maltrataram os animais, irão encarnar na maior vítima das suas sevícias. Os banqueiros corruptos irão trabalhar arduamente ao preço de um salário mínimo. O pessoal de saúde displicente irá sofrer de doença prolongada que obrigue a múltiplas consultas e tratamentos. As dondocas vão ver-se uns “escronhos” sem solução pela cirurgia plástica, e por aí afora.
Como não podemos meter gente de fora, vamos ter de dar formação aos deuses do submundo. É esse o problema. São deuses à moda antiga, que gostam de dar uns cachaços e, nestas coisas, há que ter subtilezas. Tem de parecer tudo natural. Manter a expectativa e quando eles pensam que a coisa vai melhorar – Bumba! Mete-se-lhe o testículo na ilharga! Mas adiante, que ainda há-de passar muita água por debaixo das pontes, até esse dossier estar concluído.
Dr. Hipólito, vamos a coisas práticas. Quer vir connosco jantar umas favas com chouriço a Viana do Castelo, à “Porta 93” ?
sexta-feira, 29 de janeiro de 2016
segunda-feira, 25 de janeiro de 2016
O Ocaso dos Deuses (9)
Parecia-lhe inacreditável, que tendo os deuses tanto poder,
não interferissem com as guerras, mesmo quando solicitados por quem lutava “em
seu nome”, pelo que arriscou perguntar:
- Dona Hera! É de tempos imemoriais que antes das grandes
batalhas se faça uma missa campal ou qualquer coisa do género, para vos pedir
ajuda e até consta que, em algumas, houve aparições decisivas para as vitórias.
Vocês não estão nessa?
- Não! Definitivamente! Nós não interferimos a esse nível.
Está a ver a quantidade de vezes que a humanidade nos reclama para problemas
menores. Até nos pede auxílio para a marcação de um penalty ou na escolha dos
números do Euromilhões! Quem trata disso é o Destino. Ele é que distribui as oportunidades.
Põe umas à frente dos olhos dos humanos e outras esconde-as onde só os mais
espertos conseguem dar com elas. O nosso trabalho tem sido definir quais são as
“oportunidades”. O modo como elas são distribuídas é com o Destino.
Para além disso, temos os mortos. O rei Hades, que há pouco
viu partir para o Médio Oriente, tem um contrato-programa para cumprir.
Tem obrigação de apresentar um número X de mortes por ano.
Tantos destes e tantos daqueles. Uns de doença e outros de morte violenta. Uns
mais novos e outros mais velhos. E isso é um grande problema porque os tempos
mudam e todos os anos se morre de modo diferente. A tecnologia fez com que, no
Ocidente, a longevidade aumentasse e que o número de mortes em jovens esteja
abaixo do contratado. A solução encontrada foi criar maiores oportunidades para
acidentes rodoviários e em desportos “radicais”, a par de um aumento da
resistência aos antibióticos nas doenças infecciosas. Mas não se estão a
mostrar suficientes. Se isto fracassar, teremos de criar mais oportunidades
para uma guerra. Para já, África e o Médio Oriente, estão a dar um grande
contributo com mortes jovens, mas se o seu número reduzir, vai ter de se de ir
para uma epidemia ou para uma guerra global.
Os números do contrato têm a ver com a taxa de ocupação do
planeta pelo homem.
- Então os reis Hades e Tanatos, foram para lá por causa
dos números?
- Claro! Apesar de todo o aparato, exigem-se mais mortos. A
estrutura que temos montada não subsiste com estes números. Mesmo que
requalifiquemos alguns, há deuses com ameaça de desemprego. Assim como está,
não pode continuar. O homem tem de abandonar alguns territórios e o seu número
tem de baixar.
Longe vai o tempo em que não havia preocupação com a função
social do emprego. Temos de ter empresas eficientes e rentáveis.
- Mas isso é pior que a lei da selva!, exclamou o médico. –
O que será de nós humanos!.
- Nós estamos a trabalhar para que vocês
tenham uma morte mais precoce. Principalmente nos países industrializados.
Não vai haver emprego para todos.
Temos na manga a possibilidade de uma catástrofe natural. O
Hefesto já se disponibilizou para provocar uma grande explosão num dos
supervulcões. Yellowstone é uma grande hipótese. E o Posídon já falou num
megatsunami de proporções apocalípticas provocado por enormes deslizamentos de
terras no flanco oeste da ilha La Palma, nas Canárias, com uma onda inicial de quase 2 km, a viajar, como se fosse um avião a jacto, a cerca de
1000 KM /hora. Inundaria o litoral da África Ocidental em cerca de uma hora, o
litoral sul do Reino Unido em 3,5 horas, e chegava à costa leste da América do Norte
em seis horas, altura em que a onda se teria transformado numa sucessão de
pequenas ondas, cada uma com cerca de 30 a 60 metros de altura. É capaz de
calcular os estragos?
- Com mil de demónios! Espantou-se Hipólito. -Isso arrasaria
a costa leste dos EUA e muitas das principais cidades da Europa. Vocês não
tinham coragem para tanto!
- Foi Posídon que falou nisso, mas os textos não foram ainda
a concílio. Para já demos ao Destino conflitos menores dispersos e umas pequenas
epidemias, que vocês controlaram com alguma eficácia. A SIDA, o Ébola, a Gripe A
e agora o vírus Zika, foram coisas para vos testar. Mas estamos a trabalhar numa
epidemia em grande, transmitida por via oral, com um tempo de incubação longo
como o VIH, para quando vocês derem por ela, já haver mais de metade da
população infectada. Mas não se preocupe, que isso são soluções extremas, que só
serão entregues ao Destino, se todas as outras se mostrarem ineficazes.
O médico estava siderado. Não queria acreditar que a pressão
dos números pudesse levar aqueles deuses a atitudes tão malignas. Voltou-se
para Hera e questionou-a.
- Então é isso que nos espera, caso persistamos em ocupar
todo o planeta, desrespeitando as outras formas de vida?
- É verdade, meu querido Hipólito! Vocês ainda não perceberam o que se passou com os dinossauros?
- Mas não é para já! Pois não?
- Talvez não seja no seu tempo. Se quiser saber,
terá que falar com Zeus. Ele tem ido a reuniões onde estão os deuses mais
importantes e já há planos de contingência para entregar ao Destino. Talvez o rei Hades saiba alguma coisa, porque ele
tem de arranjar espaço, para que não haja filas intermináveis nas margens do
Aqueronte. Se esperar um pouco, pode ser que ele passe por aqui no regresso.
Ele sabe que eu gosto de romãs e as da Síria são espectaculares.
domingo, 24 de janeiro de 2016
Ocaso dosDeuses (8)
Entretanto Hera sentara-se à sua frente. Vendo que mantinha o olhar naquela direcção, perguntou: - Reconheceu-os?
- Pareceram-me os deuses do submundo. Hades e Tanatos. Aconteceu qualquer coisa para eles andarem cá fora, cheios de pressa?
- É verdade! Estranho é eles terem saído por aqui, com o Vesúvio mais perto. Estão a aproveitar o facto das Erínias se terem estabelecido no Médio Oriente a tempo inteiro, quando ouviram falar da operação “Tempestade no Deserto”. Foram para lá com a ideia de vingar, punir e perseguir os pecadores, mas estes, em vez de diminuírem, têm aumentado todos os dias.
Estes só lá vão uma vez por semana, porque o Hermes trata de quase tudo. Sorte tiveram os que estão no Tártaro. Agora só são incomodados pelas Harpias, pelas Górgonas e pelos Cyclopes!
- Dona Hera! Não sabia que vocês também andavam por lá! Será que aquela catástrofe tem fim à vista?
- Caro Hipólito! Nós estamos lá desde Alexandre! Temos sede em Jerusalém, mas dispomos de delegações da Líbia ao Paquistão. Jerusalém é um “must” para todas as religiões monoteístas sejam eles Arménios, Coptas, Ortodoxos, Católicos, Judeus, Dominicanos, Franciscanos, Etíopes, Russos, Americanos, Israelitas, Sírios, Assírios, Evangélicos, Carismáticos, Nazarenos, Samaritanos, Hassídicos, Caldeus, Conservadores, Reformistas, Congregacionistas, Pentecostais, Liberais, Jihadistas, Pacifistas, Sionistas, Sefarditas, Maronistas, Zelotas, Fariseus e por aí fora. Nós, somos os únicos politeístas a marcar presença.
- Mas vocês, o que é que lá andam a fazer, especificamente?
- Nós, só retiramos as almas e damos apoio às Erínias. Aqueles longos cabelos de serpentes, grossas lágrimas de sangue e asas de morcego apavoram. Quando aquela gente as vê, passa-se e desata a disparar e a gritar o “Valha-nos Deus!” ou o “Allahu Akbar!” e nem pensa. Em menos de um fósforo desaparecem umas dezenas do número dos vivos.
Não nos metemos em conversações, nem em nada do género. Não temos solução para aquele conflito. Talvez o António Guterres tenha, quando assumir a pasta de secretário-geral das Nações Unidas.
Só um investimento maciço em educação é que pode resolver aquilo. Mas para isso vão ser necessárias várias gerações. O problema da Terra Prometida é o da família depois da morte do patriarca. A conhecida questão das partilhas.
O médico anuiu. - São demasiadas interpretações para a mesma coisa e ainda por cima com templos de uns em cima dos templos dos outros. Não é com guerras que aquilo se resolve. Mesmo que alguém reclame vitória, é uma questão de tempo para que o conflito se reacenda.
Vocês já pensaram em mandar para lá o Morfeu e pôr aquela gente com sonhos bons, e tirar de lá o Ícelo?
- Não se meta nisso, Dr. Hipólito!, exclamou Hera. – Espere até ver as consequências da 4ª revolução industrial que ainda agora se inicia. Talvez ela vos dê uma melhor distribuição da cultura e ajude os desfavorecidos a não optar por populistas, mas por programas bem estruturados. A globalização pode levar a benefícios, mas há muito trabalho a fazer. Já leu a conclusão do estudo da Oxfam, baseado em dados do banco Credit Suisse relativos a Outubro de 2015? Eles afirmam que, pela primeira vez, a riqueza acumulada pelo 1% mais abastado da população mundial, equivale à riqueza dos 99% restantes? Claro que assim é fácil haver lobbies que se sobreponham aos interesses públicos.
Mas adiante, que ainda lhe quero mostrar um foto do Ares a libertar Tanatos das mãos do rei Sísifo. Está linda. Até já pensei em fazer com ela um baixo-relevo para pôr no hall de entrada. A ignorância dos humanos, leva-os a ser atrevidos.
E nós que, de há 2600 anos, andamos a apostar no Homem como construtor de beleza, vemos a meia dúzia de paranóicos pôr de rastos as suas virtudes, Inteligência e sabedoria.
E Zeus ainda a querer voltar! Nem morta!
Entraram no templo, com Hipólito a ruminar aquela ideia.
quarta-feira, 20 de janeiro de 2016
sábado, 16 de janeiro de 2016
O Ocaso dos Deuses (7)
Hércules tinha ido para as cavalariças.
Hera chamou-o: - Hércules! Sei que estás aí! Fazes o favor de vir aqui, que o médico queria ter uma conversa contigo. Não te vão fazer exames, está descansado. É só para ele te conhecer!
Hércules demorou e Hera insistiu: - Anda lá! Não temos todo o tempo do mundo. Despacha-te! Já te disse que é só para falar!
Hércules apareceu caminhando até eles de olhos baixos. Quando chegou, Hera continuou com a reprimenda: - Parece que és burro! Senta-te e fica sossegado. E vê se respondes direito. OK!
Hércules levantou os olhos e disse: -Está bem! Mas a conversa tem de ser curta que tenho de tratar dos cavalos que, hoje, ainda não saíram e estão impacientes. Diga dona Hera o que quer!
Sentaram-se numa mesa de jardim. Hera fitou o médico e depois Hércules e disse:
- Queria apresentar-te o Dr. Hipólito que vem substituir o Dr. Euclides. Não sei se já te tinha dito que morreu a semana passada. Mas adiante. Eu vou deixar-vos sós, mas queria que lhe contasses as tuas preocupações e anseios. Já sabemos que estás melhor, mas como, de vez em quando, tens recaídas e fazes asneiras de que depois te arrependes, o melhor é que ele te conheça!
E dito isto, transformou-se numa brisa e desapareceu por entre as folhas do jasmim que forrava a pergola onde estavam.
Hércules, ainda pensou em ficar calado, mas lembrou-se do que já sofrera em situações semelhantes e disponibilizou-se:
- Olhe Dr.! Quer que seja honesto consigo? Eu já não estou aqui a fazer nada! Gostava era de ir para o Hades, mas ele não me deixam! Querem-me para a manutenção desta casa. Aqui faço tudo. Corto relva, trato dos animais, arranjo os muros, faço os tratamentos às plantas. Se rebenta um cano é logo: - Oh Hércules! Anda cá! Eles são deuses, mas não querem calos nas mãos, nem dores nas costas. Eu, como semi-deus, deveria ser mortal! Ao Aquiles, deram uma morte rápida. A mim, deram a imortalidade como paga dos sucessos nos doze trabalhos a que me obrigaram. Sou o único semi-deus vivo! Até Jesus, que nasceu muito depois de mim, já se foi!
Trabalho para eles a tempo inteiro sem quaisquer direitos laborais. Andam para aí a falar que os humanos já deviam ter horários de 30 horas/semana e, no outro dia, até os ouvi discutir um aumento significativo dos vencimentos e pôr as horas extra pagas em valor decrescente. Um ordenado mais que suficiente para incentivar o consumo em tempos livres e criar ai novos empregos. Está a ver um paisano com um vencimento correspondente a um preço/hora de 30 Euros a fazer horas extra a 5? A ideia nem era má! Mas não se iluda! Aquilo é conversa de políticos a ver se a malta os elege e depois, é o que sabe. A mim deram-me a imortalidade. Boa merda! Não me deixam sair daqui! Se eu fosse para o Hades, algum tempo depois voltava noutro corpo, esquecido de tudo por ter passado pelo Lethes!
Percebe porque é que eu me chateio! Depois dizem que sou agressivo. Sabe aquela frase do Brecht “Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem”.... Dr.! Eu tenho os cavalos para tratar. Vou ter que ir. Continuamos a conversa noutro dia. Está bem??!!
Hipólito levantou-se, para se despedir, enquanto o questionava:
- Se a realidade é como diz, dou-lhe toda a razão. Mas a versão deles não é essa. Nela, você cria problemas onde não os há e não é “fiável”.
- Dr.! É o problema das “narrativas”! Por mim, aconselho-o a ter cuidado. Eles estão a pensar abandonar o planeta. Deixe-os ir. Talvez assim me dêem a mortalidade. Até lhe dava uns chouriços de javali que guardo há séculos. O bicho era de Erimanto. Deu enchidos para dar e vender e eu já não como como dantes. Prefiro carnes brancas.
Despediram-se. Hipólito ficou agarrado à mão direita e voltou a sentar-se. Esperou até que ele saísse com os cavalos, negros e fogosos e acenou-lhe um adeus. Hércules montava em pelo. Eram mais de cem e a nuvem de pó era tal, que os encobriu.
sexta-feira, 15 de janeiro de 2016
quarta-feira, 13 de janeiro de 2016
O Ocaso dos Deuses(6)
Afrodite caminhava descalça, como a suster o tempo. Uma corda doirada a cingir-lhe a túnica de linho branco era todo o seu adorno e nem uma pintura realçava um traço da sua fisionomia.
Hipólito redimensionava-a no seu sistema límbico, quando lhe assomou à boca o início do poema de Lucrécio “De rerum natura”.
Dos Enéades progenitora, prazer dos homens e dos deuses,
Alma Vénus, tu que sob os deslizantes astros dos céus
Enches de vida o mar portador de navios,
Enches de vida as terras de searas produtoras,
Porque graças a ti é concebido todo o género de seres vivos
E contempla, quando nasce a luz do sol,
Diante de ti ó deusa, fogem os ventos,
À tua chegada afastam-se as luzes do céu,
para ti a terra operosa faz despontar suaves flores,
Para ti sorriem as extensões do mar
E o céu pacificado brilha com luz radiosa.
Hera, foi ao seu encontro, deixando-o dez passos atrás. Saudaram-se e, depois de umas curtas palavras, caminharam na sua direcção, sorrindo.
Hipólito baixou os olhos, quis deitar as mãos ao peito, ajoelhar e até prostrar-se de braços abertos, mas conteve-se e aguardou. Traído pelo rubor da face e com um ligeiro trémulo na voz cumprimentou-a dizendo Kaliméra!
Afrodite decidira impressiona-lo, não por qualquer particular interesse naquele cinquentão, mas para lhe mostrar o poder que uma imagem pode ter sobre os humanos. Depois, também lhe queria falar do seu desencanto, para que ele, saído dali, qual arauto, o desse a conhecer a toda a Humanidade.
Estendeu a mão. Hipólito sentiu-lhe os frágeis dedos e, quando levantou os olhos, ela estava de jeans, sapatilhas e T-shirt branca com a palavra Ágape impressa, a abrir espaço para uma conversa sem constrangimentos.
Entraram no Templo. Na sua ala reinava a harmonia. As colunas encimadas por capitéis e lintéis com baixos-relevos alusivos à criação do Mundo e os frescos nas paredes invocando o encontro entre as mais variadas espécies, de minúsculos invertebrados a árvores de grande porte, lembravam a sua responsabilidade por toda a vida sexuada do planeta.
Sentaram-se. Hera, serviu "cyceon" e pão de cevada e Hipólito atreveu-se a iniciar a conversa.
-Afrodite! Desculpe a curiosidade mas, já que se dispôs a chegar à fala comigo, gostava de ouvir da sua boca esse “desânimo” com os humanos. Custa-me a crer que tenha desistido de todos nós?
A deusa reclinou-se, apanhou os cabelos e amarrou-os num gracioso rabo-de-cavalo, cruzou a perna, levou o copo aos lábios e, depois de um pequeno gole, respondeu-lhe:
- Dr. Hipólito, quando há uma semana o vi aqui entrar, engracei consigo. Parecia o Woody Allen e, como vai ficar entre nós uns tempos, achei por bem disponibilizar-me para esta conversa.
Como já deve saber, deixei de interferir na vida dos humanos. Aguentei muito, mas depois de ler umas coisas sobre ADN, genes e cromossomas, concluí que vocês não têm matriz para as alterações comportamentais que eu idealizara, e não tenho paciência para esperar que o Acaso altere o vosso património genético, para surgir um fenótipo favorável que vos enquadre na vida do planeta. Vós evoluístes no sentido inverso.
- Quer então dizer que não apoia mais a humanidade?
- É um facto. Só estou à espera do dia de sair daqui. Há mais vida para além deste planeta. Hera anda com a ideia de um outro para os lados da Andrómena e, se ela for, vou também!
Hipólito entristeceu na eminência de perder aquele convívio e, como a tentar pôr água na fervura, contrapôs:
- Afrodite, há-de convir que há muita gente boa, disposta a ver no amor uma saída.
A deusa endireitou-se, pôs um ar sério e explicou:
- Dr. Hipólito! Quando Zeus me pediu ajuda para dar um caminho ao Homem que o levasse à perfeição, eles eram uma meia dúzia que conhecia pelo nome. Quando se reproduziram, apoiei-os com gosto nas migrações, eles na caça e elas a tratar dos abrigos e dos filhos. O problema surgiu com a invenção da agricultura. Quando o seu número aumentou, apareceram uns tipos a armar-se em donos disto tudo e acabou a solidariedade entre eles. Desde então tem sido sempre “ò p’ra trás” com o faz-de-conta a dominar as suas relações.
Agora dizem que uma imagem vale mais que mil palavras, como se fossem possíveis imagens com significância sem uns milhares de palavras que as suportem. Preocupam-se com o “embrulho” sem cuidarem nem do corpo nem da alma.
Trabalham para se parecerem com "modelos". Elas usam tacões para chegar aos 173 cm e passam fome ou apertam-se para ter cintura de 61 e anca e peito de 86. O exercício que fazem não tem intenção de serem fortes. Os mais desesperados enchem-se de adornos. É um verniz de fraca qualidade que os trai ao primeiro movimento. Com eles a coisa é semelhante: carros, futebol e fanfarronices. Na sua linguagem corporal transparece uma fraca saúde mental.
Hipólito concordou. Lembrou-se que toda a movimentação voluntária, tem a modulação do sistema extrapiramidal. Por incrível que pareça, ele é influenciado pela “cultura”. É ele que nos dá individualidade.
Afrodite levantou-se e convidou-o:
-Terminemos o assunto, Dr.!. Venha comigo que eu quero-lhe mostrar uma coisa surpreendente!
Saíram para o terreiro onde um formigueiro ajudava Psique a separar uma massa confusa de sementes de trigo, de papoilas e milho-miúdo, arrumando-as conforme a sua qualidade.
- Vê! Eu tinha-lhe dado esta tarefa de castigo, mas veja a bondade das formigas! A bicharada com menos cabeça que os humanos coopera muito melhor e sem reclamar!
Depois, despediu-se e desapareceu no meio das flores.
Hera, tomou-lhe o braço e perguntou: Ainda tem tempo para uma consulta ao nosso amigo Hércules?
domingo, 10 de janeiro de 2016
quarta-feira, 6 de janeiro de 2016
O Ocaso dos Deuses (5)
Hércules, incomodado com aquela intimidade, olhou-os de soslaio. O estatuto de semi-deus, não lhe permitia entrar naquela casa. Vagueava pelas imediações e dormia na estrebaria junto aos cavalos de Diómedes, numa esteira, com o retrato do filho à cabeceira.
- Ele anda perturbado!, confidenciou Hera. - Trabalhou demais. Chegou a estar mais de vinte e quatro horas sem ir à cama. Quando veio do Hades, depois de ter capturado o Cerbero, deu-lhe o "burnout". Parece um gazeado! Vai ter de o ver mais tarde, mas por agora, passemos ao largo, não vá ele ver em si um demónio. Dr.! Você não tem destes, lá no Hospital onde trabalha?
Hipólito concordou com um gesto de cabeça. Tinha por essa gente um certo carinho. Reconhecia-lhes o passado e diferenciava-os claramente dos displicentes que se escudavam nos postos a que se tinham alcandorado - cirurgiões arrogantes, ortopedistas que assustavam doentes desprotegidos com vernáculo abastardado, neurologistas incompetentes e outros, que os responsáveis bem conheciam e que, por comodidade, fingiam ignorar.
Hipólito, acelerou o passo e, para não abrir essa chaga onde diariamente tropeçava, mudou de assunto:
- Afrodite veio para estes lados?, perguntou.
Hera percebeu o constrangimento e aceitou a deriva.
- É natural que ande por aqui. Umas vezes passeia-se no seu carro puxado por cisnes, outras vezes transforma-se na estrela d’alva e ateia desejos ardentes nas entranhas de todas as criaturas. Também gosta de se vestir de branco e aparecer em cima das oliveiras. Já foi tomada por Nossa Senhora.
Ultimamente está desiludida depois de tantos anos a lutar para que a beleza e o amor fossem o fermento para que os genes se misturassem nas devidas proporções e o Homem evoluísse. Até meteu o filho Eros no empreendimento, mesmo sabendo que aquilo era trabalho infantil.
Há uns anos afastou-se e, desde então, os jovens não saem dos écrans dos computadores, obcecados com o faz de conta. Já viu como têm diminuído as pontes entre as pessoas?!.
O meu marido quer que ela volte ao activo, como uma verdadeira deusa da fertilidade, do prazer e da alegria, a louvar a mulher-companheira que põe a tónica na jornada e não em objectivos mensuráveis em Euros, nem em carreiras profissionais obsessivas, que culminam em amargura e solidão.
Mas eu não o vou permitir! O Homem é um caso perdido! Gosta de se vestir de puritanismo bacoco quando dentro da sua cabeça borbulham carinhos e amores que não consegue resolver.
- Está a insinuar que a sociedade actual é mais puritana que a que existia na vossa Grécia antiga?
- Com certeza! Vocês passam demasiado tempo a trabalhar. Com a tecnologia que possuem, já deviam ter reduzido a semana de trabalho para as 30 horas. Havia emprego para todos e estimulavam-se as actividades dos tempos livres. Devia ser obrigatório pertencer a um coro, dançar, praticar actividade física regular, tratar de um jardim, ler romances ou qualquer outra coisa fora do âmbito profissional. Vocês quase só trabalham e ganham dinheiro e, quando já o têm, trabalham mais para comprar coisas cada vez mais caras que pouco usam. A vossa saúde mental é um desastre!
Hipólito, sentindo-se atingido, replicou: - Sabe Hera. Estamos na sociedade de consumo onde tudo tem preço e quem manda são os “mercados”. Os políticos não sabem História e são facilmente tomados pelos grandes grupos económicos.
Mas creio que estamos no fim de um ciclo. Talvez, quando as mulheres chegarem ao poder, seja possível dar um novo rumo às sociedades humanas.
Entraram pelo olival. Hera pegou numa rosa e, enquanto constatava a fragilidade das suas pétalas, acedeu: - Talvez! Os lugares de comando ainda são pertença dos homens! Mas não esqueça que não está no genoma masculino aceitar a autoridade das mulheres e que elas odeiam a solidão que o poder acarreta.
Afrodite apareceu ao longe, envolta num halo de luz radiosa. A túnica cingida ao corpo realçava-lhe os seios pequenos. Uma brisa suave afastava os ramos das árvores à sua passagem e as flores brotavam da terra que pisava.
Hipólito parou. Deu a mão a Hera e comentou: -Ela não brinca em serviço! Pode estar desmotivada, mas vem em grande estilo! Por favor, cuide mim! Ajude-me a não gaguejar!
domingo, 27 de dezembro de 2015
O Ocaso dos Deuses (4)
Finalmente chegara sábado. O dia estava quente. Hipólito vestiu-se desportivamente e deu-se um leve aroma a pó de talco, por saber que ele enternece as mulheres maduras. Naquele encontro sobrenatural não queria decepcionar. Sorriu na antevisão de uma conversa agradável com uma das deusas que mais admirava. Ela, que só aparecia aos mortais apenas como um par de olhos, deixara que ele a visse inteira e até tocasse a sua carne.
A viagem foi rápida. Parou o automóvel e, de imediato, surgiu uma vestal que o levou até uma porta lateral do templo. Hera aguardava-o. Vestia um quíton de linho branco bordejado por uma faixa de amarelos, violetas e vermelhos, representando pássaros. Na sala duas mulheres com túnicas rosadas teciam um tapete.
- Bom dia, Dr. Hipólito. Bons olhos o vejam!, disse. - Vai ter o privilégio de ser recebido no gineceu, onde só os homens da casa podem entrar! E, ao dizê-lo, as presentes, levantaram-se e fizeram-lhe uma vénia.
Hipólito agradeceu pondo as mãos junto ao peito, e ofereceu a Hera uma romã, símbolo da fertilidade, do sangue e da morte.
Enquanto se dirigia a um canto da sala, onde duas poltronas LC3 de Le Corbusier os esperavam, Afrodite, de uma porta lateral, lançou-lhe um sorriso sedutor, que quase o fez tropeçar. Hera deu-lhe o braço e sentaram-se. Na mesa em frente havia taças com azeitonas, figos e amêndoas e uma garrafa de hidromel. Hipólito sentiu-se tomado por um encantamento e, quando veio de novo a si, a deusa iniciara a conversa.
- Dr.! Chamei-o para lhe dizer o que penso sobre os planos do meu marido. Ele deve-lhe ter falado numa prospecção de mercado com vista a um eventual regresso e num projecto a que chamou “Multidão Solitária”. Não acredite! Ele falou consigo e com mais um ou dois. É da velha guarda. Só ouve quem quer e, mulheres … nunca. Para ele as mulheres são para estar em casa a cuidar dos filhos. Ainda não percebeu que a pílula nos possibilitou entrar em força no mundo do trabalho e de nos tornarmos decisoras sobre o que ele pensa ser o “mundo dos homens”. Na idade de entrarem para a universidade elas são muito mais responsáveis e levam vantagem sobre eles. Já quase não há daquelas que estão à espera de quem as cuide, disponíveis até para as infidelidades. Quando era nova aturei-lhe todas as traições. Agora, se ele voltar ao mesmo, associo-me aos filhos e não o deixamos entrar aqui. Ele que vá dormir onde quiser.
Também lhe quero dizer que, depois de ter inventado o deus único e universal, já não acredito que o Homem queira voltar para nós. Substituíram a diversidade e imaginação que lhe proporcionávamos, pelas histórias rocambolescas dos santos e pouco ficaram a perder.
Para mais, e em termos gerais, o Homem está convencido que é o ser mais inteligente do Universo, por ter dominado parte dos seres vivos da Terra. Se ele pensasse bem, iria ver que em grupo é muito irracional. Há-de morrer no meio do lixo que fizer, a queixar-se de um qualquer fenómeno natural.
- Eu sei, dona Hera!, retorquiu o Dr. Hipólito. – Estou nessa onda! Mas tem de admitir que só agora a globalização pôs a nú as grandes assimetrias entre os países ricos e os países pobres. Vocês, deuses, é que podiam dar uma ajuda, para evitar uma catástrofe planetária. Caso contrário só se safarão aqueles que conseguirem sair da Terra e colonizar um planeta fora do sistema solar.
- Não conte com isso!, respondeu Hera. – O Homem está condenado. Andam para aí uns ficcionistas a dizer que em vez de ir um humano já formado, enviam-se ovos masculinos e femininos congelados, ligados a uma placenta electrónica, que se pode manter inactiva séculos e só se reactivar quando chegar a um destino favorável. E que a sua educação seria garantida por um programa informático. Nem pensar!
- Eu sei, dona Hera!, retorquiu o Dr. Hipólito. – Estou nessa onda! Mas tem de admitir que só agora a globalização pôs a nú as grandes assimetrias entre os países ricos e os países pobres. Vocês, deuses, é que podiam dar uma ajuda, para evitar uma catástrofe planetária. Caso contrário só se safarão aqueles que conseguirem sair da Terra e colonizar um planeta fora do sistema solar.
- Não conte com isso!, respondeu Hera. – O Homem está condenado. Andam para aí uns ficcionistas a dizer que em vez de ir um humano já formado, enviam-se ovos masculinos e femininos congelados, ligados a uma placenta electrónica, que se pode manter inactiva séculos e só se reactivar quando chegar a um destino favorável. E que a sua educação seria garantida por um programa informático. Nem pensar!
Daqui a 4.500 milhões de anos, quando se acabar o hidrogénio do sol e ele se transformar numa supernova, todos os planetas serão atraídos para lá e … acabou-se. Já viu a quantos anos-luz está a próxima estrela? E ainda por cima com o Universo em expansão! As distâncias de hoje não serão as de amanhã! Para o impedir, nem uma chuva de milagres seria suficiente.
- É por isso, caro Dr., que eu ando a convencê-lo a sair daqui e estabelecermos-nos numa outra galáxia mais estável. Já pesquisei e, na Andrómeda, que fica a dois milhões de anos-luz da Terra, há um planeta que me pareceu cinco estrelas. Tem uns seres vivos engraçadíssimos, inteligentes e amorosos. São de uma originalidade a toda a prova e não têm nenhum deus que os ouça quando estão recolhidos em pensamentos. Tenho-os observado e sempre os vi colaborantes, mesmo nas dificuldades. Pode não acreditar, mas lá não há chicos-espertos! O único senão é o cheiro. A química orgânica deles não é à base do carbono é à base do silício. Eles não notam, mas quem chega …! São vermelhos e voam. Que me diz?
O Dr. Hipólito, rodou o copo nas mãos, levantou os olhos e atreveu-se a perguntar.
- Dona Hera! Já ouviu falar do Big-Bang? Se aquilo que o Stephan Hawking anda para aí a dizer for verdade, então o universo pulsa e, quando ele se comprimir, vai tudo à vida e os deuses também. Estejam eles onde estiverem.
Hera desconhecia aquelas projecções. Incomodada por ser um humano a levantar-lhe o véu desse futuro, foi para a janela e, como se falasse para alguém no exterior, disse: -Dr. Hipólito! Ouviu o que eu lhe tinha a dizer. Sei que o meu marido vai tomar uma decisão para breve. Espero que ela não vá contra os meus desejos, pois uma turbulência nesta casa, ultrapassa as suas paredes. Nós ainda temos muito poder sobre as forças naturais e … quando o mar bate na rocha, quem se lixa é o mexilhão. É assim que vocês dizem, ou não é!
-Agora venha! Vamos visitar Afrodite que ela parece ter engraçado consigo. Sabe! Zeus pensa que ela é filha dele e da ninfa Dione, mas não é! Ela nasceu da espuma que surgiu, quando Cronos, que era o pai dele, cortou os genitais a Urano e os arremessou ao mar. É por isso que ela é tão leve. Não se preocupe com o Hefesto. Há séculos que estão divorciados.
E saíram para a ágora onde, junto a uma fonte, Hércules se sentava pensativo.
- É por isso, caro Dr., que eu ando a convencê-lo a sair daqui e estabelecermos-nos numa outra galáxia mais estável. Já pesquisei e, na Andrómeda, que fica a dois milhões de anos-luz da Terra, há um planeta que me pareceu cinco estrelas. Tem uns seres vivos engraçadíssimos, inteligentes e amorosos. São de uma originalidade a toda a prova e não têm nenhum deus que os ouça quando estão recolhidos em pensamentos. Tenho-os observado e sempre os vi colaborantes, mesmo nas dificuldades. Pode não acreditar, mas lá não há chicos-espertos! O único senão é o cheiro. A química orgânica deles não é à base do carbono é à base do silício. Eles não notam, mas quem chega …! São vermelhos e voam. Que me diz?
O Dr. Hipólito, rodou o copo nas mãos, levantou os olhos e atreveu-se a perguntar.
- Dona Hera! Já ouviu falar do Big-Bang? Se aquilo que o Stephan Hawking anda para aí a dizer for verdade, então o universo pulsa e, quando ele se comprimir, vai tudo à vida e os deuses também. Estejam eles onde estiverem.
Hera desconhecia aquelas projecções. Incomodada por ser um humano a levantar-lhe o véu desse futuro, foi para a janela e, como se falasse para alguém no exterior, disse: -Dr. Hipólito! Ouviu o que eu lhe tinha a dizer. Sei que o meu marido vai tomar uma decisão para breve. Espero que ela não vá contra os meus desejos, pois uma turbulência nesta casa, ultrapassa as suas paredes. Nós ainda temos muito poder sobre as forças naturais e … quando o mar bate na rocha, quem se lixa é o mexilhão. É assim que vocês dizem, ou não é!
-Agora venha! Vamos visitar Afrodite que ela parece ter engraçado consigo. Sabe! Zeus pensa que ela é filha dele e da ninfa Dione, mas não é! Ela nasceu da espuma que surgiu, quando Cronos, que era o pai dele, cortou os genitais a Urano e os arremessou ao mar. É por isso que ela é tão leve. Não se preocupe com o Hefesto. Há séculos que estão divorciados.
E saíram para a ágora onde, junto a uma fonte, Hércules se sentava pensativo.
quarta-feira, 23 de dezembro de 2015
O Ocaso dos Deuses (3)
Os dias depois de um evento extraordinário são difíceis para qualquer mortal. Mas quando um deus, mesmo que aposentado, nos dá a honra do seu convívio, os mistérios da vida mudam de significância e o futuro ganha outra dimensão.
Ainda atordoado pelos eventos desse dia, Hipólito, regressara a casa, decidido a só voltar àquele Lar no fim-de-semana seguinte, para se dar tempo para ler umas coisas sobre Organização Política e Administrativa do Estado, Mitologia Grega, parafilias e ciúme patológico. Zeus manifestara-lhe vontade de voltar ao activo e Hera mostrara-lhe temer o regresso das suas infidelidades. A perspectiva era ter de viver no meio de um litígio conjugal de dimensões cósmicas.
A semana não lhe rendera como habitual. Dormira mal e um estranho sentimento de comiseração por aqueles deuses derrotados assomava-lhe frequentemente ao estômago. Evitara as tertúlias com medo de se descair com os colegas e mesmo em casa nunca aflorara o assunto.
Dois dias antes da planeada visita, depois de um árduo dia de trabalho, sentara-se no escritório a ler, quando um trovão seguido por um estranho vento lhe abriu a janela. Levantou-se perplexo, e reparou que no sofá da frente Zeus se sentara, de perna traçada e raio na mão.
- Que é feito de si, meu amigo? Eu sei que em época de férias há muito que fazer, mas podia-nos ter avisado que alterara o esquema das visitas. O Dr. Euclides ia ao Lar duas vezes por semana.
Apanhado de surpresa, Hipólito, quase deixava cair o livro que tinha na mão, mas ao reconhecer a bonomia do visitante, levantou-se, cumprimentou-o com uma larga vénia e foi fechar a porta do escritório. Então justificou-se:
- Peço perdão, mas não me lembro de me ter sido dita essa regularidade. Fiquei com a ideia de só lá ir quando chamado. De qualquer modo, estava a planear uma visita no próximo sábado, com tempo para conhecer os utentes e as vossas especificidades. Há-de convir que não é fácil a um mortal prestar assistência aos sofrimentos divinos, para além de, ao que parece, querer falar comigo sobre assuntos fora da minha arte.
- Esteja descansado, Dr. Hipólito, que não quero fazer de si o Oráculo de Delfos. Quero unicamente a sua opinião. Estou a fazer uma sondagem de mercado, e o Dr. foi um dos seleccionados por ser "opinion leader" na área das ciências da saúde!. E, mudando de assunto, como se quisesse amenizar o ambiente, continuou: - Quando entrei, vi-o a ler um livro de contos do Mia Couto. Eu também gosto muito de contos. São uma arte. Um conto é tão difícil de escrever como um poema. É preciso dar-lhe ritmo da primeira à última linha. São muito eficazes para passar mensagens. Todas as religiões os usam. A Bíblia está cheia deles e a nossa Ilíada também.
A conversa informal reposicionara-os. Hipólito olhou Zeus ali sentado, quase humano, e retorquiu-lhe: - Não é todos os dias que um deus nos aparece. Confesso que, apesar da sua benevolência, temo que a minha ignorância vos possa causar incómodos. Houve algum inconveniente em não ter lá ido mais cedo?
- De modo nenhum!. Estão todos na mesma!, respondeu Zeus. – Eu é que, como tinha tempo, decidi dar um salto até aqui para ouvir a sua opinião sobre umas coisas que ando a congeminar!
Hipólito, pousou o livro, virou-lhe as palmas das mãos e respondeu:
- Faça favor. Sou todo ouvidos!
- Ora ainda bem que nos entendemos!, disse Zeus, e, abrindo a túnica, retirou de lá um cartapácio que colocou em cima da secretária. Hipólito leu na capa - “MULTIDÃO SOLITÁRIA – Projecto a implementar na Terra durante o Ano 2016”. Ao fundo tinha o seu nome romano - JÚPITER.
E Zeus continuou: - O meu público-alvo são as pessoas que vivem solitárias nas grandes cidades industrializadas, vítimas da desagregação social causada pela sociedade de consumo.
- Como assim?, perguntou o clínico.
- Dr. Hipólito, pense comigo. A actual família restrita – pai, mãe e 1 filho, cujo ícone é o presépio, só responde às necessidades dos adultos jovens, com saúde, emprego e dinheiro. Já nada tem a ver com aquelas famílias de outras épocas, onde debaixo do mesmo tecto era possível encontrar avós, parentes próximos solteiros e com frequência os filhos casados, netos e outras pessoas agregadas como os criados.
Perdeu-se a natural convivência das aldeias, provocada pela exigência de trabalho gratuito recíproco e quando se chega à idade de procurar emprego, o mais certo é ele estar longe da família e dos amigos. Como resultado o cuidado das crianças, dos anciãos e dos enfermos, tem passado para a responsabilidade do Estado ou para instituições autónomas, como creches, hospitais, Lares ou residências.
Ora é para a multidão que vive fora da tal família restrita, que eu me quero dirigir, organizando-as em grupos comunais onde o lema seja: ajuda, hospitalidade e amizade, integrando pessoas de diferente condição e sexo, debaixo de uma regra, à semelhança do que acontece ainda nos conventos, mas que, em vez de se dedicarem só a actividades pouco rentáveis, se possam dedicar a qualquer profissão.
O Dr. Hipólito, já lera algumas coisas sobre as comunas utópicas da Alemanha e Estados Unidos nos idos anos 60. Nunca as levara a sério e até admirava que se tivessem aguentado alguns anos, sem estarem sustentadas numa forte base material.
Considerava impossível que houvesse gente disponível a abdicar permanentemente de bens pessoais, pois, mais tarde ou mais cedo, os naturais conflitos entre os indivíduos iriam despertar reacções de poder que interfeririam com esses princípios. Para ele eram utopias de intelectuais entusiastas que viam no primitivo comunismo aldeão a possibilidade de alterar as bases das novas sociedades. O que Zeus tinha em mente parecia-lhe coisa semelhante e por isso respondeu que isso já fora testado e que dera sempre mau resultado.
- Sabe Zeus! O que agora se fizer tem de dar lucro em pouco tempo, e esse projecto não me parece rentável por se centrar nos desafortunados. Em minha opinião, deveria envolver em primeiro lugar os ricos, oferecendo-lhes vantagens que despertassem a curiosidade dos pobres. Se começar ao contrário, vão ser necessários uns milhares de mártires para quebrar a natural resistência à mudança. Não se esqueça que o Deus cristão enveredou por esse caminho e que, as circunstâncias acabaram por o levar a fazer vista grossa ao liberalismo selvagem.
- Caro Hipólito. O meu plano de negócio tem um braço na construção civil e um outro na ecologia. Se os acordos de Paris forem para a frente, pode facilmente candidatar-se a fundos da CEE. Ele cumpre os objectivos de redução de emissões de CO2 e prevê a recuperação dos centros históricos das cidades. Não vejo porque é que os financiadores não o hão-de apoiar. E engana-se ao pensar que a multidão solitária só é constituída por pobres. Há muitos ricos disponíveis, se houver garantias de qualidade.
Basicamente o conceito é criar múltiplos “conventos abertos” ao exterior, em que os seus membros possam circular, de acordo com os seus desejos, desde que cumpram a tal “regra”, que mais não é que um padrão civilizacional.
Não se pretende interferir com as famílias actuais, proponho só implementar uma filosofia de convivência naqueles que o acaso e as políticas que estimulam o individualismo, a massificação e a concorrência despiedada atiraram para a solidão.
Nesta altura Zeus entusiasmado, deambulava entre a estante e a janela. Depois parou, abriu o projecto num centro histórico de uma grande cidade de Portugal e chamou o médico para junto de si.
- Está a ver aqui. Nesta zona há imensas casas senhoriais degradadas que urge recuperar. São casas que não têm utilidade para as famílias nucleares e que cumprem plenamente as nossas exigências. Até dão para ter uma horta comunitária.
- Que diz?
Hipólito queria dissuadi-lo. Pareceu-lhe que Zeus parara no tempo e que não tinha conhecimento do que se passara na revolução bolchevique e, para o não ofender, disse:
- Eu só poderia investir nesse projecto se perdesse toda a minha família. Mas ia-me ser muito difícil viver em comunidade com gente adulta que ganhou hábitos muito diferentes dos meus.
Zeus olhou para o tecto, como se pensasse, e respondeu: -É para isso que eu cá estou!. Há que desenvolver a tolerância desde o berço para superar as diferenças culturais. Numa primeira fase terei de disponibilizar uma maior quantidade de milagres. Obrigado!
De seguida, pegou no projecto, despediu-se e desfez-se numa ondulante luz azul que atravessou o tecto ao som do ribombar longínquo de um trovão.
sábado, 19 de dezembro de 2015
O Ocaso dos Deuses (2)
Dirigiram-se então à câmara de Hera. Zeus afastou um pouco as cortinas, e anunciou-os: - Querida! Chegou o Dr.! Podemos?
A cortina abriu e entraram num imenso quarto com portas laterais a dar acesso a outros aposentos, por onde circulavam jovens serviçais.
Passou por três estátuas representando as três graças - Thalia (juventude e beleza), Euphrosyne (alegria) e Aglaia (elegância) e dirigiu-se à janela onde Hera o aguardava, sentada numa cadeira de ébano com os pés imitando as patas de um leão.
- Boa noite!, cumprimentou o médico. -"Kalispera", respondeu Hera, convidando-o a sentar na cadeira da frente. Zeus afastou-se, dizendo: - Estejam à vontade. Eu tenho que preparar uma disputa com o Destino e não vos quero interromper. Dr.! ela fala pelos cotovelos. Se não tem cuidado, nem amanhã sai daqui.
Hera sorriu, puxou os cabelos para trás, confirmou a saída do marido e iniciou a conversa:
- Dr.! Antes de falarmos da doença, queria fazer-lhe um pedido, que deverá ficar só entre nós. Estive aqui a ver-vos passear lá fora, e pareceu-me que o meu marido simpatizou consigo.
O médico endireitou-se na cadeira, e para melhor garantir intimidade à conversa, inclinou-se, para a incentivar: - Diga dona Hera. Sou todo ouvidos!
- Dr. Hipólito! Há muito que Zeus quer voltar ao activo, não para dar um melhor rumo à humanidade, mas para voltar à gandulice e ir para o meio das jovens fazer-lhes filhos, sejam elas casadas ou solteiras. É isso que ele quer. Embora já não tenha as hormonas no vermelho, como antigamente, mantém-se lascivo e, se eu não tivesse mão nele, teria mais filhos que o padre de Trancoso. Agradeço-lhe que não o incentive. A nossa vida actual não é das melhores, mas viajamos e entretemo-nos, sem aqueles conflitos de outros tempos. Mas como está com pressa. Fiquemos por aqui. Veja o que pode fazer.
E passando ao assunto de saúde, quero dizer-lhe que esta minha tosse, começou há-de haver quinze dias, quando fomos a Marrocos visitar os nossos primos do Egipto - Osiris, Iris e Órus, que também se retiraram e compraram lá uma mansão. São uma gente muito antiga que parou no tempo. Vivem como há cinco mil anos. Nós que éramos para estar lá uma semana, não aguentámos dois dias. Arranjámos uma desculpa esfarrapada e fomos à Lapónia visitar o Odin. Ele tem casa na mesma rua do Pai Natal. Ora, eu não levava roupa para aquelas latitudes. Está a ver! Vir de um calor de assar e entrar naquele gelo … . Sorte foi não adoecermos os dois. Mas ele é feito da pele do diabo e nada lhe pega.
O médico sorriu e, enquanto abria a pasta para tirar o estetoscópio, respondeu:
- Dona Hera! Quanto ao primeiro ponto, quero dizer-lhe que é meu lema não me meter entre os assuntos do casal, para mais sabendo do que o seu marido é capaz! Por favor, ponha-me de fora. Eu vim aqui, por causa da sua tosse, não para resolver conflitos matrimoniais.
- Eu sei!, respondeu Hera. - Mas note que eu só lhe pedi para não o incentivar, não vá o Dr. descair-se e dizer o que não deve. Agora vamos à doença. Quer que eu tire a túnica ou ausculta-me à pescador, pelo decote?
O Dr. Hipólito mediu tensões, viu a orofaringe, auscultou, procurou sinais de disfunção de órgão e concluiu pela benignidade do quadro clínico. Prescreveu-lhe um antitússico e, quando arrumava o bloco de receitas, Hera segurou-lhe no braço e disse-lhe:
-Dr.! Eu sei que hoje está com pressa, mas, para a próxima, quando aqui voltar, quero que venha com mais tempo. Precisamos de falar.
- Está bem, dona Hera! Para a próxima venho com mais tempo, até porque vou ter de vos conhecer a todos e a funcionalidade desta casa. Respondeu o dr. Hipólito. Mas agora é tarde e a minha mulher deve estar a pensar que me aconteceu qualquer coisa para eu chegar tarde sem lhe ter dito nada. Posso telefonar daqui?
Telefonou. Depois despediu-se e a mesma menina que o trouxe, disponibilizou-se para o acompanhar até à saída dos aposentos, onde Zeus já o esperava. – Então? Perguntou. – Vamos ter outra noite sem dormir ou é coisa de pouca monta?
- Nada de especial. No entanto, caso os sintomas persistam deverá fazer uma radiografia. E dito isto entregou-lhe a receita e dirigiu-se à porta.
A cortina abriu e entraram num imenso quarto com portas laterais a dar acesso a outros aposentos, por onde circulavam jovens serviçais.
Passou por três estátuas representando as três graças - Thalia (juventude e beleza), Euphrosyne (alegria) e Aglaia (elegância) e dirigiu-se à janela onde Hera o aguardava, sentada numa cadeira de ébano com os pés imitando as patas de um leão.
- Boa noite!, cumprimentou o médico. -"Kalispera", respondeu Hera, convidando-o a sentar na cadeira da frente. Zeus afastou-se, dizendo: - Estejam à vontade. Eu tenho que preparar uma disputa com o Destino e não vos quero interromper. Dr.! ela fala pelos cotovelos. Se não tem cuidado, nem amanhã sai daqui.
Hera sorriu, puxou os cabelos para trás, confirmou a saída do marido e iniciou a conversa:
- Dr.! Antes de falarmos da doença, queria fazer-lhe um pedido, que deverá ficar só entre nós. Estive aqui a ver-vos passear lá fora, e pareceu-me que o meu marido simpatizou consigo.
O médico endireitou-se na cadeira, e para melhor garantir intimidade à conversa, inclinou-se, para a incentivar: - Diga dona Hera. Sou todo ouvidos!
- Dr. Hipólito! Há muito que Zeus quer voltar ao activo, não para dar um melhor rumo à humanidade, mas para voltar à gandulice e ir para o meio das jovens fazer-lhes filhos, sejam elas casadas ou solteiras. É isso que ele quer. Embora já não tenha as hormonas no vermelho, como antigamente, mantém-se lascivo e, se eu não tivesse mão nele, teria mais filhos que o padre de Trancoso. Agradeço-lhe que não o incentive. A nossa vida actual não é das melhores, mas viajamos e entretemo-nos, sem aqueles conflitos de outros tempos. Mas como está com pressa. Fiquemos por aqui. Veja o que pode fazer.
E passando ao assunto de saúde, quero dizer-lhe que esta minha tosse, começou há-de haver quinze dias, quando fomos a Marrocos visitar os nossos primos do Egipto - Osiris, Iris e Órus, que também se retiraram e compraram lá uma mansão. São uma gente muito antiga que parou no tempo. Vivem como há cinco mil anos. Nós que éramos para estar lá uma semana, não aguentámos dois dias. Arranjámos uma desculpa esfarrapada e fomos à Lapónia visitar o Odin. Ele tem casa na mesma rua do Pai Natal. Ora, eu não levava roupa para aquelas latitudes. Está a ver! Vir de um calor de assar e entrar naquele gelo … . Sorte foi não adoecermos os dois. Mas ele é feito da pele do diabo e nada lhe pega.
O médico sorriu e, enquanto abria a pasta para tirar o estetoscópio, respondeu:
- Dona Hera! Quanto ao primeiro ponto, quero dizer-lhe que é meu lema não me meter entre os assuntos do casal, para mais sabendo do que o seu marido é capaz! Por favor, ponha-me de fora. Eu vim aqui, por causa da sua tosse, não para resolver conflitos matrimoniais.
- Eu sei!, respondeu Hera. - Mas note que eu só lhe pedi para não o incentivar, não vá o Dr. descair-se e dizer o que não deve. Agora vamos à doença. Quer que eu tire a túnica ou ausculta-me à pescador, pelo decote?
O Dr. Hipólito mediu tensões, viu a orofaringe, auscultou, procurou sinais de disfunção de órgão e concluiu pela benignidade do quadro clínico. Prescreveu-lhe um antitússico e, quando arrumava o bloco de receitas, Hera segurou-lhe no braço e disse-lhe:
-Dr.! Eu sei que hoje está com pressa, mas, para a próxima, quando aqui voltar, quero que venha com mais tempo. Precisamos de falar.
- Está bem, dona Hera! Para a próxima venho com mais tempo, até porque vou ter de vos conhecer a todos e a funcionalidade desta casa. Respondeu o dr. Hipólito. Mas agora é tarde e a minha mulher deve estar a pensar que me aconteceu qualquer coisa para eu chegar tarde sem lhe ter dito nada. Posso telefonar daqui?
Telefonou. Depois despediu-se e a mesma menina que o trouxe, disponibilizou-se para o acompanhar até à saída dos aposentos, onde Zeus já o esperava. – Então? Perguntou. – Vamos ter outra noite sem dormir ou é coisa de pouca monta?
- Nada de especial. No entanto, caso os sintomas persistam deverá fazer uma radiografia. E dito isto entregou-lhe a receita e dirigiu-se à porta.
A meio caminho reconheceu Hefesto, que coxeava na sua direcção com o avental de ferreiro e o martelo na mão. Era bem mais feio que alguma vez poderia imaginar, mas transparecia bondade no olhar. Pousou o martelo e questionou-o: - Dr.! A minha mãe vai melhorar rápido? É que eu tenho de sair hoje para provocar uma erupção no Etna. Vai para um ano que me pediram umas cinzas para fortalecer os vinhedos e eu tinha isso marcado para a semana passada.
- Não vai haver problema! Ela amanhã está boa. Pode trabalhar com calma e por favor, não provoque grandes explosões, como aquelas do Eyjafjallajökull em 2010, que o meu filho regressa de férias e viaja de avião. Boa noite!
- Não vai haver problema! Ela amanhã está boa. Pode trabalhar com calma e por favor, não provoque grandes explosões, como aquelas do Eyjafjallajökull em 2010, que o meu filho regressa de férias e viaja de avião. Boa noite!
Zeus levou-o até ao automóvel e ficou até ver as luzes desaparecerem. Depois, deu um enorme salto e duas voltas ao planeta para se certificar de que Hélio conduzia o carro do Sol na devida órbita em volta da Terra, e voltou ao templo para descansar. Tinha uma ideia para regressar ao activo.
domingo, 13 de dezembro de 2015
O Ocaso dos Deuses (1)
Então, exige-se a quem fica, não só um maior esforço, mas também que seja rápido a ler e a decidir as coisas que o acaso lhe põe à frente, se não quer ser surpreendido com o que já não tem solução. Para uns é uma oportunidade. Para outros um sufoco. São estas as regras do jogo nos tempos que vão correndo a que os médicos também não conseguem escapar.
Nesse dia, o Dr. Hipólito, internista de renome, recebera um telefonema de um grande amigo, a pedir-lhe para assumir a assistência a um Lar de Terceira Idade, com o sugestivo nome de Lembranças do Olimpo.
Apontara a morada e a hora 18:30h e, depois de uma jornada em que mal tivera tempo para almoçar, levara-se àquele extremo da cidade. Parou o automóvel onde o GPS dissera “chegou ao seu destino” e olhou em redor. O amplo parque dava acesso a uma alameda de grandes ciprestes, onde estacionava um SUV preto de vidros fumados, que lhe fez lembrar os do filme Matrix. Riu-se para dentro, enquanto pensava: - Devem ser idosos "muito p'rá frentex, os que por aqui param!". Confirmou a morada no mapa do Smartphone e apressou o passo em direcção ao edifício, que mais parecia lhe um Palácio da Justiça que um Lar de Terceira Idade.
As cidades actuais, minoram as grandes construções de outros séculos levantadas à força de suor e músculo, e o corre-corre a que nos obrigamos, só nos lembra que vivemos em cidades milenares, quando alguém nos chama a atenção para um muro em vias de sofrer as "delícias" do camartelo.
Ao Dr. Hipólito, as rápidas passadas dificultavam o entendimento da majestade daquelas paredes, rodeadas por um peristilo de mármore creme. Viera em modo automático, rebobinando os sucessos do dia e só levantara os olhos ao esbarrar com as imponentes portas de bronze, glorificando os triunfos dos deuses do Olimpo.
Identificava, num dos seus retábulos, Deméter semeando uma seara de trigo, quando uma jovem o abordou, solícita, indicando-lhe o interior. Vinha descalça, envolta numa túnica branca esvoaçante e exalava em ténue perfume a relva recém-cortada. Os cabelos compridos balouçavam-lhe no amplo vão de um decote. Seguiu-a.
Passaram uma segunda porta de sólido castanho, também ela ricamente ornada com o que entendeu serem referências aos quatro elementos – água, terra, fogo e ar, e entraram numa nave imensa, ladeada de seis grandes dosséis, e dominada ao fundo por um trono de ouro e marfim, com múltiplas incrustações de pedras cintilantes, onde um velho o aguardava envolto num manto vermelho, que lhe deixava a nu mais de metade do tórax. Tinha a mão esquerda apoiada num ceptro encimado por uma águia e na direita um raio azul. Fez um gesto de cabeça sugerindo que se aproximasse.
O Dr. Hipólito subiu um degrau e estendeu-lhe a mão, como a querer cumprimentá-lo, mas conteve-se e dobrou-se numa vénia. Aquele corpo, não escondia a força. A testa enrugada de muitas contrariedades, terminava numa coroa de ramos de oliveira e prolongava-se por um manto de cabelos e barba brancos até ao cavername do peito.
O ancião levantou-se e desceu, sorrindo, até ao médico e, como se uma familiaridade os unisse há séculos, com voz suave, onde transparecia determinação, informou-o:
-Desculpe não o termos avisado do que iria aqui encontrar. Foi uma situação imprevista. O Dr. Euclides, que nos prestava assistência, faleceu há dois dias, e a minha mulher Hera, anda com uma tosse de não deixar ninguém descansar e, embora ela seja imortal, sofre e faz-nos sofrer.
E continuou: -Já vi que está a estranhar o lugar e, antes que dê azo a cogitações, quero que saiba que este templo é o refúgio que escolhemos depois de termos sido selvaticamente derrotados pelos cristãos, vai para uns mil e quinhentos anos. Temos aqui todas as comodidades, mas falta-nos a adoração dos homens. É esse o nosso maior problema. Estarmos inactivos. Só somos lembrados por meia dúzia de eruditos, nas suas palestras e, de vez em quando, damos orientações em filmes de guerra ou aos desenhos animados, mas já ninguém nos leva a sério e muitos até fazem chacota das nossas aventuras.
O Dr. Hipólito conhecia bem a vida dos deuses eternos. Quando vencidos pelos novos deuses, afastam-se e ficam à espera que o mundo complete um dos seus ciclos e possa reclamar de novo os seus serviços.
Reconhecera Zeus. Conhecia dos livros os seus defeitos e virtudes e tinha-o como um bom deus grego, que tentara jogar com o acaso para estimular o Homem na procura de soluções que lhe permitissem viver em comunidade mas que, como muitos outros, não se apercebera da evolução social e descurara a actualização.
Sentiu o seu braço encaminhando-o para as traseiras da nave, onde verdejava um imenso olival, e entraram num caminho de terra batida que se estendia até ao topo do monte, onde uma pérgula esperava os peripatéticos.
Um deus, nem sempre tem interlocutores humanos à sua medida. Zeus tivera o cuidado de recolher informações sobre ele e, concluindo que seria um bom conversador, aguardara-o, mais para saber a sua percepção da actualidade, que pela doença de Hera.
Enquanto esticavam as pernas pelo trilho e apanhavam os últimos raios daquele sol poente, Zeus reiniciou a conversa. Explicou-lhe as lutas e as cedências que os tinham arrastado para aquela situação. Falou da conquista da Grécia pelos Romanos e de eles lhes terem proposto a alteração dos seus nomes, coisa que a princípio até os lisonjeou, por verem crescer a sua cota no mercado da humanidade, mas que, quando se viram nas mãos dos maus senadores e generais romanos e quiseram lutar, já ninguém os conhecia pelos seus nomes antigos. Atena bem o avisou e nunca aceitou que lhe chamassem Minerva, mas os outros foram-se habituando e só se arrependeram quando se viram cair às mãos da cristandade.
-Sabe Dr. Hipólito, esta relação dos deuses com os homens nunca foi estável. Nós, deuses, temos de estar muito atentos, pois uma pequena ocorrência pode ter consequências dramáticas. Eu devia ter fortalecido a equipe e pôr no banco alguns dos meus deuses mais dados a extremismos. O Dionísio já não era bem visto na Grécia e quando virou Baco, em Roma, e o deixei organizar os bacanais, ele fez aquilo da pior maneira. Era “tudo ao monte e fé em deus” e a malta do poder começou a olhar para nós “al revés”, como se fossemos todos farinha do mesmo saco, e a coisa foi de mal a pior, até o Imperador Constantino em 321, começar a proteger os cristãos. Aí tivemos de fugir, porque logo que sentiram as costas quentes, desataram a inventar mentiras sobre nós e a profanar os nossos templos. Foram tempos terríveis. Nas aldeias e nos locais mais remotos ainda nos conseguimos aguentar uns séculos, a planear um regresso, mas quando chegou a Inquisição, ficaram todos aterrorizados e deixaram de querer saber de nós. Nem o deus dos Cátaros, que era feito da mesma massa, resistiu. Sabe! Pode-lhe parecer conversa de velho, mas só quando, em 1624, o Papa Urbano VII mandou fundir as placas de bronze que forravam o Pantéon em Roma, que era a casa de todos nós, para construir o baldaquino na Basílica de S. Pedro, é que perdemos a esperança de um dia voltar a ter quem se nos dirigisse nas aflições.
Chegaram à pérgula onde crescia um jasmim de cheiro tão aveludado, que Eros o teria usado nas suas setas para enfeitiçar os amantes, e sentaram-se, recebendo a aragem fresca do fim da tarde.
E Zeus continuou: -Naqueles dosséis, que viu no templo, dormem os meus familiares: a minha mulher Hera, os meus irmãos Poseidon, Deméter, Atena e Apolo, e os meus filhos Ares, Artemísia, Hefesto, Afrodite, Hermes e Dioniso.
A minha mulher, passa o dia sozinha. Já nem tem ciúmes de mim. Está chata e ressona. Então agora que constipou, incomoda toda a gente com a gosma. O meu filho Dionísio, que gerei na minha própria coxa, está com cirrose e mais amarelo que um canário. O que lhe vale é ser eterno. Não lê nada para se actualizar com as novas tecnologias da produção e comercialização do vinho. Se um dia nos chamarem de novo, vou ter de arranjar alguém fora da família para lidar com o assunto. O meu irmão Poseidon está cheio de reumatismo. Eu bem o avisei para se afastar da humidade dos oceanos, mas ele gostava das tempestades, o que é que eu ia fazer. Agora é aguentar e cara alegre. Cortou o dente do meio do tridente e usa-o como muleta. Assim, mantém alguma memória do passado, mas quando está chateado ainda sai e faz uma asneira, como aquela do tsunami no Japão.
-Mas voltemos antes que o sol se ponha, que eu quero que observe a minha mulher. Se a convencer a ir à Ítaca umas semanas era óptimo. Ela gostou da ilha quando lá fomos dar uma mãozinha ao Ulisses. Há lá cinco hotéis. Se for convincente, ela vai aceder.
O Dr. Hipólito ouvia e tentava enquadrar o discurso de Zeus naquilo que conhecia dos livros, sabendo ele que os livros são um reflexo da realidade filtrada pelos olhos do narrador, semelhante a uma árvore espelhada na superfície de um lago, que não é exactamente igual à própria árvore, e quando surgiu a oportunidade, questionou-o:
- É curioso que ainda tenha vontade de voltar ao activo. Deve ter observado que o mundo nos últimos cinquenta anos sofreu modificações difíceis de integrar em qualquer das antigas religiões e que se exigem deuses com outras atitudes. O vosso historial belicista é um problema e a tipologia do vosso bucólico não se enquadra bem no turismo rural. Falta-vos know how em smarphones, na política de inclusão de minorias, em globalização, e isto para não falar de problemas mais específicos como política de emprego nas sociedades competitivas, onde a robótica tende a substituir o trabalho manual.
Zeus ouvia interessado, anuindo com a cabeça, enquanto segurava na mão a fralda da túnica para a não pisar ao subir os três degraus que davam acesso ao vestíbulo do templo.
-Concordo consigo, mas não se esqueça que somos deuses e que aquilo que fazemos pode ser interpretado pelo Homem de modos muito diversos. É uma questão de falarmos com os exegetas de serviço e tomarmos conta dos meios de comunicação social. Isso para nós é mais fácil que para um partido político, e o Dr. Hipólito há-de convir que a população actual pouco exige aos poderosos. O nosso grande problema está nos outros deuses.
- Mas a quais se refere especificamente?
- Aos dois que actualmente mandam em meio mundo. Ao Deus cristão e a Alá. O cristão tem a maior multinacional do planeta e o muçulmano tem uma franchising sem padrão de qualidade, que alicia quem precisa de um livro único para resolver todos os problemas.
- E não tem medo dos deuses que andam pela China e pela India? Olhe que eles influenciam muita gente.
- Não! Esses deuses são inclusivos, não exclusivos como estes. Temos tido vários contactos com eles, não oficiais, e até já tivemos um plano para uma parceria. Eu dava uns mitos e eles, outros. Coisas a chamar a atenção para a pobreza e para o cuidado com o planeta, mas não andámos para a frente, porque eles queriam que eu afastasse definitivamente os meus deuses mais controversos, como o Ares, a que os romanos chamavam Marte, e o Dionísio. Mas também o Poseidon, por causa das monções. Dizem que ele tem tendência para o exagero e não confiam. Aquela malta do oriente é mais dada às contemplações e querem deuses mais zen.
Sentaram-se nas escadas que dava acesso ao trono. O Dr. Hipólito percorria com o olhar os dosséis de grosso veludo grená, quando Zeus lhe perguntou: -Acha que a crise de valores que actualmente assola a humanidade poderá constituir uma oportunidade para nós, ou será que vamos ter de esperar mais?
-Não sei! Respondeu o médico. – A vossa imagem não é das melhores. Há histórias que lutam contra vós. Eu, por exemplo, sou discípulo de Esculápio, e mantenho vivo, como símbolo da minha profissão, o seu bastão, e nunca irei esquecer que fostes vós que o mataste por ele ter ressuscitado um paisano com o meu nome, só porque achaste que ele tinha pensamentos demasiado grandiosos para um homem. Mas há outros que se queixam de outras coisas. Se vocês aparecerem de novo, ou vêm apoiados num marketing agressivo, ou estais feitos. Para além disso, pelo que disseste e vejo, muitos de vós perderam a Esperança e a força para arrastar multidões.
Zeus, coçou os cabelos enquanto pensava na resposta seguinte. De facto Atena ficara muito perturbada com as derrotas. Perdera o escudo e passava o dia a fazer crochet. Ares, a quem os romanos chamavam de Marte, se já não era bom da cabeça quando estava activo, não melhorara com aquele repouso. De vez em quando, punha-se a gritar para as paredes a dizer que elas não sabiam quem ele era, e era ele que o tinha de acalmar com o raio. Hefesto, ainda dominava o ferro, mas nada sabia das novas ligas e de plásticos. Nem com Afrodite podia contar. Ela que fora a deusa do amor, vestia-se unissexo e raramente usava saias. Só poderia contar com o Hermes que, por ser patrono dos ladrões e guia dos mortos, se mantivera sempre ocupado. Para mais aquelas asas nos pés tornavam-no extremamente ecológico.
Levantou-se das escadas, atirou a túnica para cima do ombro esquerdo, e enquanto dava a mão ao Dr. Hipólito para o ajudar a levantar, olhou-o nos olhos e disse: - Acho que tem razão. Vou ter de dar uma volta no staff. Com este não me safo. A solução está nas Parcerias!.
E dito isto avançou até ao bar onde Dionísio experimentava cocktails. Zeus pediu um daikiri e o médico, depois das apresentações e de um longo aperto de mão, pediu um guaraná.
De seguida, encaminharam-se para o exterior para apreciar o ocaso. Zeus ia contar a história de Faetonte, mas o Dr. Hipólito, pôs-lhe a mão no braço como a dizer-lhe que já a conhecia e que o momento deveria ser aproveitado para uma reflexão sobre o que tinham acabado de falar, e assim ficaram até o sol desaparecer no horizonte. Então o médico levantou-se e disse: -É tarde! Eu tenho a minha família à espera e fiquei sem carga no telemóvel. Hei-de vir cá mais vezes e com mais tempo. Agora vamos lá auscultar a sua esposa a ver se consigo dar com o remédio sem ter de recorrer a meios auxiliares de diagnóstico.
E dirigiram-se ao dossel nº2.
-Desculpe não o termos avisado do que iria aqui encontrar. Foi uma situação imprevista. O Dr. Euclides, que nos prestava assistência, faleceu há dois dias, e a minha mulher Hera, anda com uma tosse de não deixar ninguém descansar e, embora ela seja imortal, sofre e faz-nos sofrer.
E continuou: -Já vi que está a estranhar o lugar e, antes que dê azo a cogitações, quero que saiba que este templo é o refúgio que escolhemos depois de termos sido selvaticamente derrotados pelos cristãos, vai para uns mil e quinhentos anos. Temos aqui todas as comodidades, mas falta-nos a adoração dos homens. É esse o nosso maior problema. Estarmos inactivos. Só somos lembrados por meia dúzia de eruditos, nas suas palestras e, de vez em quando, damos orientações em filmes de guerra ou aos desenhos animados, mas já ninguém nos leva a sério e muitos até fazem chacota das nossas aventuras.
O Dr. Hipólito conhecia bem a vida dos deuses eternos. Quando vencidos pelos novos deuses, afastam-se e ficam à espera que o mundo complete um dos seus ciclos e possa reclamar de novo os seus serviços.
Reconhecera Zeus. Conhecia dos livros os seus defeitos e virtudes e tinha-o como um bom deus grego, que tentara jogar com o acaso para estimular o Homem na procura de soluções que lhe permitissem viver em comunidade mas que, como muitos outros, não se apercebera da evolução social e descurara a actualização.
Sentiu o seu braço encaminhando-o para as traseiras da nave, onde verdejava um imenso olival, e entraram num caminho de terra batida que se estendia até ao topo do monte, onde uma pérgula esperava os peripatéticos.
Um deus, nem sempre tem interlocutores humanos à sua medida. Zeus tivera o cuidado de recolher informações sobre ele e, concluindo que seria um bom conversador, aguardara-o, mais para saber a sua percepção da actualidade, que pela doença de Hera.
Enquanto esticavam as pernas pelo trilho e apanhavam os últimos raios daquele sol poente, Zeus reiniciou a conversa. Explicou-lhe as lutas e as cedências que os tinham arrastado para aquela situação. Falou da conquista da Grécia pelos Romanos e de eles lhes terem proposto a alteração dos seus nomes, coisa que a princípio até os lisonjeou, por verem crescer a sua cota no mercado da humanidade, mas que, quando se viram nas mãos dos maus senadores e generais romanos e quiseram lutar, já ninguém os conhecia pelos seus nomes antigos. Atena bem o avisou e nunca aceitou que lhe chamassem Minerva, mas os outros foram-se habituando e só se arrependeram quando se viram cair às mãos da cristandade.
-Sabe Dr. Hipólito, esta relação dos deuses com os homens nunca foi estável. Nós, deuses, temos de estar muito atentos, pois uma pequena ocorrência pode ter consequências dramáticas. Eu devia ter fortalecido a equipe e pôr no banco alguns dos meus deuses mais dados a extremismos. O Dionísio já não era bem visto na Grécia e quando virou Baco, em Roma, e o deixei organizar os bacanais, ele fez aquilo da pior maneira. Era “tudo ao monte e fé em deus” e a malta do poder começou a olhar para nós “al revés”, como se fossemos todos farinha do mesmo saco, e a coisa foi de mal a pior, até o Imperador Constantino em 321, começar a proteger os cristãos. Aí tivemos de fugir, porque logo que sentiram as costas quentes, desataram a inventar mentiras sobre nós e a profanar os nossos templos. Foram tempos terríveis. Nas aldeias e nos locais mais remotos ainda nos conseguimos aguentar uns séculos, a planear um regresso, mas quando chegou a Inquisição, ficaram todos aterrorizados e deixaram de querer saber de nós. Nem o deus dos Cátaros, que era feito da mesma massa, resistiu. Sabe! Pode-lhe parecer conversa de velho, mas só quando, em 1624, o Papa Urbano VII mandou fundir as placas de bronze que forravam o Pantéon em Roma, que era a casa de todos nós, para construir o baldaquino na Basílica de S. Pedro, é que perdemos a esperança de um dia voltar a ter quem se nos dirigisse nas aflições.
Chegaram à pérgula onde crescia um jasmim de cheiro tão aveludado, que Eros o teria usado nas suas setas para enfeitiçar os amantes, e sentaram-se, recebendo a aragem fresca do fim da tarde.
E Zeus continuou: -Naqueles dosséis, que viu no templo, dormem os meus familiares: a minha mulher Hera, os meus irmãos Poseidon, Deméter, Atena e Apolo, e os meus filhos Ares, Artemísia, Hefesto, Afrodite, Hermes e Dioniso.
A minha mulher, passa o dia sozinha. Já nem tem ciúmes de mim. Está chata e ressona. Então agora que constipou, incomoda toda a gente com a gosma. O meu filho Dionísio, que gerei na minha própria coxa, está com cirrose e mais amarelo que um canário. O que lhe vale é ser eterno. Não lê nada para se actualizar com as novas tecnologias da produção e comercialização do vinho. Se um dia nos chamarem de novo, vou ter de arranjar alguém fora da família para lidar com o assunto. O meu irmão Poseidon está cheio de reumatismo. Eu bem o avisei para se afastar da humidade dos oceanos, mas ele gostava das tempestades, o que é que eu ia fazer. Agora é aguentar e cara alegre. Cortou o dente do meio do tridente e usa-o como muleta. Assim, mantém alguma memória do passado, mas quando está chateado ainda sai e faz uma asneira, como aquela do tsunami no Japão.
-Mas voltemos antes que o sol se ponha, que eu quero que observe a minha mulher. Se a convencer a ir à Ítaca umas semanas era óptimo. Ela gostou da ilha quando lá fomos dar uma mãozinha ao Ulisses. Há lá cinco hotéis. Se for convincente, ela vai aceder.
O Dr. Hipólito ouvia e tentava enquadrar o discurso de Zeus naquilo que conhecia dos livros, sabendo ele que os livros são um reflexo da realidade filtrada pelos olhos do narrador, semelhante a uma árvore espelhada na superfície de um lago, que não é exactamente igual à própria árvore, e quando surgiu a oportunidade, questionou-o:
- É curioso que ainda tenha vontade de voltar ao activo. Deve ter observado que o mundo nos últimos cinquenta anos sofreu modificações difíceis de integrar em qualquer das antigas religiões e que se exigem deuses com outras atitudes. O vosso historial belicista é um problema e a tipologia do vosso bucólico não se enquadra bem no turismo rural. Falta-vos know how em smarphones, na política de inclusão de minorias, em globalização, e isto para não falar de problemas mais específicos como política de emprego nas sociedades competitivas, onde a robótica tende a substituir o trabalho manual.
Zeus ouvia interessado, anuindo com a cabeça, enquanto segurava na mão a fralda da túnica para a não pisar ao subir os três degraus que davam acesso ao vestíbulo do templo.
-Concordo consigo, mas não se esqueça que somos deuses e que aquilo que fazemos pode ser interpretado pelo Homem de modos muito diversos. É uma questão de falarmos com os exegetas de serviço e tomarmos conta dos meios de comunicação social. Isso para nós é mais fácil que para um partido político, e o Dr. Hipólito há-de convir que a população actual pouco exige aos poderosos. O nosso grande problema está nos outros deuses.
- Mas a quais se refere especificamente?
- Aos dois que actualmente mandam em meio mundo. Ao Deus cristão e a Alá. O cristão tem a maior multinacional do planeta e o muçulmano tem uma franchising sem padrão de qualidade, que alicia quem precisa de um livro único para resolver todos os problemas.
- E não tem medo dos deuses que andam pela China e pela India? Olhe que eles influenciam muita gente.
- Não! Esses deuses são inclusivos, não exclusivos como estes. Temos tido vários contactos com eles, não oficiais, e até já tivemos um plano para uma parceria. Eu dava uns mitos e eles, outros. Coisas a chamar a atenção para a pobreza e para o cuidado com o planeta, mas não andámos para a frente, porque eles queriam que eu afastasse definitivamente os meus deuses mais controversos, como o Ares, a que os romanos chamavam Marte, e o Dionísio. Mas também o Poseidon, por causa das monções. Dizem que ele tem tendência para o exagero e não confiam. Aquela malta do oriente é mais dada às contemplações e querem deuses mais zen.
Sentaram-se nas escadas que dava acesso ao trono. O Dr. Hipólito percorria com o olhar os dosséis de grosso veludo grená, quando Zeus lhe perguntou: -Acha que a crise de valores que actualmente assola a humanidade poderá constituir uma oportunidade para nós, ou será que vamos ter de esperar mais?
-Não sei! Respondeu o médico. – A vossa imagem não é das melhores. Há histórias que lutam contra vós. Eu, por exemplo, sou discípulo de Esculápio, e mantenho vivo, como símbolo da minha profissão, o seu bastão, e nunca irei esquecer que fostes vós que o mataste por ele ter ressuscitado um paisano com o meu nome, só porque achaste que ele tinha pensamentos demasiado grandiosos para um homem. Mas há outros que se queixam de outras coisas. Se vocês aparecerem de novo, ou vêm apoiados num marketing agressivo, ou estais feitos. Para além disso, pelo que disseste e vejo, muitos de vós perderam a Esperança e a força para arrastar multidões.
Zeus, coçou os cabelos enquanto pensava na resposta seguinte. De facto Atena ficara muito perturbada com as derrotas. Perdera o escudo e passava o dia a fazer crochet. Ares, a quem os romanos chamavam de Marte, se já não era bom da cabeça quando estava activo, não melhorara com aquele repouso. De vez em quando, punha-se a gritar para as paredes a dizer que elas não sabiam quem ele era, e era ele que o tinha de acalmar com o raio. Hefesto, ainda dominava o ferro, mas nada sabia das novas ligas e de plásticos. Nem com Afrodite podia contar. Ela que fora a deusa do amor, vestia-se unissexo e raramente usava saias. Só poderia contar com o Hermes que, por ser patrono dos ladrões e guia dos mortos, se mantivera sempre ocupado. Para mais aquelas asas nos pés tornavam-no extremamente ecológico.
Levantou-se das escadas, atirou a túnica para cima do ombro esquerdo, e enquanto dava a mão ao Dr. Hipólito para o ajudar a levantar, olhou-o nos olhos e disse: - Acho que tem razão. Vou ter de dar uma volta no staff. Com este não me safo. A solução está nas Parcerias!.
E dito isto avançou até ao bar onde Dionísio experimentava cocktails. Zeus pediu um daikiri e o médico, depois das apresentações e de um longo aperto de mão, pediu um guaraná.
De seguida, encaminharam-se para o exterior para apreciar o ocaso. Zeus ia contar a história de Faetonte, mas o Dr. Hipólito, pôs-lhe a mão no braço como a dizer-lhe que já a conhecia e que o momento deveria ser aproveitado para uma reflexão sobre o que tinham acabado de falar, e assim ficaram até o sol desaparecer no horizonte. Então o médico levantou-se e disse: -É tarde! Eu tenho a minha família à espera e fiquei sem carga no telemóvel. Hei-de vir cá mais vezes e com mais tempo. Agora vamos lá auscultar a sua esposa a ver se consigo dar com o remédio sem ter de recorrer a meios auxiliares de diagnóstico.
E dirigiram-se ao dossel nº2.
domingo, 6 de dezembro de 2015
Pós-operatório
Quando se juntam cirurgiões apressados a doentes surdos, é mais que provável surgirem cenas pouco aconselháveis a ouvidos sensíveis. A história tem décadas e foi passada numa enfermaria de cirurgia de um hospital central do Porto, onde o vernáculo tinha honras de erudição.
Uma idosa, meio surda, recuperava de uma cirurgia abdominal. O cirurgião (Dr. C.G.) aproxima-se, seguido do seu séquito, e pergunta-lhe: - “A Sra. tem tido gases?”, e a doente, responde: - Não! Sr. Dr.! Eu cozinho a carvão!
Espantado com a réplica, o Dr. C. G., para não lhe deixar dúvidas, questiona-a, então, em sonora voz: - “A SENHORA PEIDA-SE?”, ao que esta lhe responde no mesmo registo: - “Oh Sr. Dr.!!!! ... Como um cu aberto!”
...
E tudo está bem, quando acaba em bem!
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