segunda-feira, 19 de maio de 2025
segunda-feira, 21 de abril de 2025
A avó demora?
Fim de semana de Páscoa. Pais, médicos, escalados para o Serviço de Urgência. Netos em casa dos avós.
21:30h:
Avó: Meninas são horas de ir para a cama. Vamos lavar os dentes que depois a avó lê uma história! Está bem?
Meninas: Siiiim!!! Pode ser a do “Corre, corre cabacinha!”????
21:45h
Avó: Hoje vão dormir cada uma em sua cama, que o avô está muito cansado e quer deitar-se cedo, que amanhã tem de trabalhar! Está bem!??
Meninas: Estáááá!!!
Avó: Eu leio o texto que está a preto e a Sara lê o texto que está a branco!
Sara: Sim!
Meia hora para ler o livro, mais as explicações para a Luísa.
Avó: Pronto! Agora, vou apagar a luz e é para dormir!
Meninas: Está bem!
Quinze minutos depois de estar a convencê-las a fechar os olhos e a estar quietas e caladas, a avó atreve-se: - Agora, ficam aqui quietinhas, que eu vou lá abaixo estender a roupa e venho já. Está bem?
Meninas: Está!
……
Ruídos variados mais risadas e correrias no corredor durante mais de 15 minutos, após o que descem ao estendal, onde a avó lida com a roupa.
Avó: Então não estão a dormir?
Sara: Avó! Tenho fome!
Luísa: Eu só vim para dar um abracinho!
Fim da refeição e do abracinho, a avó propõe:
- Voltem lá para cima e deitem-se na cama com o avô, sem fazer barulho, para ele não acordar, que eu não demoro!
23:00h
Entram caladas e deitam-se na cama. Empurram-se, riem e sussurram.
Avô: shiuuuuu! Agora não são horas de brincar. Toca a dormir. Fechem os olhinhos e estejam caladas!
Sara: E não posso tossir?
Avô: Não! Não podes tossir!
Sara: Nem fazer qhemmm!
Avô: Não! Nem fazer qhemmm! Está calada e fecha os olhos.
Sara: Então fico com o catarro!?
Avô: Sim! Ficas com o catarro!!
….
Luísa: Eu vou dormir para a minha cama, avô!
Avô: Está bem! Eu vou lá levar-te!
Luísa: Não é preciso, que eu não sou nenhum bebé!
Sai da cama e vai ter com a avó que ainda anda à volta com a roupa.
Luísa: Avó! Estou sozinha na cama, quando subires podes ficar um bocadinho comigo?
…
23:45h, na cama do avô:
Sara: Avôôôô!?
Avô: Diz???
Sara: A avó demora?
...
sexta-feira, 18 de abril de 2025
Sessão de Desenho de 15/04/2025
É às terças-feiras, de quinze em quinze dias, que me obrigo a pôr
o cérebro a trabalhar na sua capacidade máxima. Sento-me num banco, abro o meu Diário
Gráfico de Esboço disponho à minha frente vários lápis, de 4B a 9B, uma
borracha e, durante quase duas horas, desenho o que me põem à frente dos olhos.
Na sala, embora dos mais regulares, sou dos mais fracos. O Manuel
é o nº1, o John
Chien Lee é o nº2, mas todos os que lá passam para acertar a mão (a
maioria ligada às artes), fazem-me lembrar um poema de Vinicius de Moraes: “ E
tu vens cheirando a lilás e com saltos, meu Deus tão altos, que eu fico lá em
baixo com ar avacalhado!”
Mas a vida é o que é! Não tenho pretensão a “artista”. Desenho
para fazer ginástica ao cérebro e asseguro-vos que saio dali mais cansado que depois
de 15km nos passadiços junto à praia.
São poses de 3, 5 e 10 minutos. Raramente desisto de uma
delas. Não foi o caso desta sessão.
Em casa avivei os contornos.
![]() |
domingo, 13 de abril de 2025
O Ocaso dos Deuses - 44

Hipólito subia para o quarto, quando sentiu Nossa Senhora a bater no vidro da porta. Correu a abri-la. A mãe de Cristo, sorrindo, afirmou: - Já ia no Monte Farinha, quando me lembrei de ter deixado aqui uma vela! e, à guisa de quem confessa um pecadilho: - Eu tenho um fraquinho por velas de cera de abelha com perfume, como esta. As que me costumam oferecer são de parafina e sem qualquer fragrância. Esta tem um suave aroma a alfazema que me agrada imenso. São difíceis de arranjar. Nem em Fátima há! Lá é ao peso! Quanto maior, mais caro! O povo, em geral, acha que o muito é qualidade e as velas votivas que atira para o fogo são prova disso, quando o sentir é mais importante que a coisa.
Hipólito aproveitou a deixa para lembrar as grandes ofertas que já se fizeram à Santa da Ladeira, à Amelinha de Vilar Chão e a muitos outros locais onde se fez crer existir um posto de contacto com os Céus.
Nossa Senhora respondeu: - Isso são resquícios do paganismo greco-romano, que os cristãos optaram por integrar, para os manter sob controle. O mesmo se passa com alguns dos santos ditos “populares”, como o São Roque.
Quanto à Santa da Ladeira o descabelamento foi tal, que tive de intervir e fazer com que fosse presa. Verdade seja dita que de Torres Novas a Fátima são uns meros 24Km, o que constituía uma ameaça se se viesse a criar aí um novo santuário. Quanto à Amelinha de Vilar Chão não foram precisas medidas tão drásticas. Resolveu-se o problema com “subtilezas”, como em muitos outros lugares onde apareceram videntes. Fátima é um caso especial, mas hoje não dá para falar dele, senão nunca mais saio daqui! E dirigiu-se para a porta dizendo: -Adeus que se faz tarde! Esta noite tenho de dar uma volta pelos meus principais santuários em Portugal. Daqui vou a Santa Luzia, passo pela Senhora da Graça em Mondim de Basto, pela Senhora da Peneda no Gerez e depois, é ir por aí abaixo. Pela madrugada tenho de ter tudo terminado, que amanhã e depois, vou andar por Espanha e França. Adeus! E dito isto, ascendeu ao céu esfumando-se na noite.
Hipólito fechou a porta sentindo-se honrado com a visita de Nossa Senhora e ainda por cima com inversão dos papéis, pois não era ele a “rogar por nós pecadores”, era a mãe de Deus a pedir-lhe uma intervenção, junto de outros humanos, para que a “marca” Nossa Senhora não fosse usada abusivamente. Pegou no Smartphone e pesquizou “aparições marianas”. Havia registo de mais de duas mil desde o ano 40 da E.C., embora a Santa Sé só reconhecesse 16 a 28. A maioria tinha acontecido em Portugal, Espanha e França nos últimos 200 anos, a crianças pobres. Mesmo que Nossa Senhora se desse ao trabalho de uma aparição por ano, ele fora um dos contemplados, no meio de 2,4 biliões de cristãos que hoje há no mundo. Não iria aladroar como fizeram outros videntes, guardaria o segredo para si, também para poder ser mais eficaz em cumprir a vontade da Mãe de Deus, caso fosse necessária qualquer intervenção sua. Como os “Secularistas” não têm liderança, o melhor era manter-se atento ao que se passava na Califórnia e em Shenzhen (o “Silicon Valley” chinês), por ser aí que andam a borbulhar as forças passíveis de definir os novos comportamentos. Mas não só. Iria estar também atento aos “fenómenos populares” não dependentes de qualquer racionalidade, que são frequentemente o núcleo de grandes alterações sociais catalisadas por oportunistas de toda a espécie.
terça-feira, 1 de abril de 2025
O Ocaso dos Deuses - 43

Hipólito organizou o pensamento em voz alta, para que Nossa Senhora ouvisse.
Maria era judia e vivia em Nazaré que, na altura, teria entre 200 e 400 habitantes e onde todos se conheciam.
Tinha cerca de 14 anos quando ficou grávida de pai incógnito.
Na lei judaica, o adultério é punível com a pena de morte, conforme indica o livro de Levítico. A Torá prevê que tanto o homem como a mulher que cometerem adultério sejam apedrejados até a morte.
Maria se identificasse o pai seriam os dois lapidados.
José compadeceu-se de Maria.
José era um velho para a época. Teria cerca de 40 anos, era carpinteiro, viúvo e pai de vários filhos. Ser carpinteiro era pertencer à “elite” da aldeia.
As afirmações de José quanto à paternidade, não foram tomadas a sério na sinagoga e a dúvida persistiu.
Quando Maria estava perto do parto, José fugiu com ela de burro, sem levar nenhuma mulher da família para ajudar, quando a mortalidade associada ao parto, à época, era muito grande.
José era um homem avisado, o que faz pensar que a família devia ter cortado relações com Maria ou a premência da fuga.
Ficaram numa caverna nas imediações de Belém, por terem chegado à noite ao caravançarai e este já estar fechado.
De Nazaré a Belém são 14km a pé, cerca de 3 horas com passo estugado.
José ajudou o parto e Jesus nasceu saudável e sem complicações, o que é obra sendo Maria primípara.
Nos dias seguintes, uns amigos de José foram a essa caverna, levar-lhe uns “precisos”, talvez por já saberem desse esconderijo. O leite deve-lhes ter parecido ouro, uns panos, mirra e algo que comer o incenso.
Depois, Jesus foi educado por José que, como bom judeu, o ensinou a ler. Desde a diáspora que o pai tinha obrigação de ensinar os filhos (não às filhas) a ler, para manter o culto vivo.
Nossa Senhora ouviu com atenção o raciocínio de Hipólito, sem que no seu rosto assomasse qualquer ruga de agrado ou contrariedade e, no fim, comentou: - A realidade é demasiado complexa para se resumir numa página! Diferentes observadores narram os mesmos factos de modo diverso, limitados que estão pelas suas capacidades e experiência de vida. Para mais, quando a oralidade é o principal meio de comunicação, as deturpações são inevitáveis. Mas lembre-se que cada história que se conta tem intenção de influenciar o ouvinte/leitor e, se os conceitos que se querem passar são importantes, há que realçá-los.
Como sabe, quando alguém se benze, diz: Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. O feminino está ausente. O culto Mariano foi o tributo mínimo à mulher, numa religião onde o homem é o centro de tudo.
É uma boa regra não deixar que a verdade estrague uma boa história! Guarde essa para si e para os seus amigos e, por favor, faça o que lhe pedi.
Hipólito beijou-lhe de novo as mãos, prometendo tudo fazer para que os Secularistas não se apoderassem da sua imagem com qualquer intenção política, enquanto a conduzia à porta da casa. Aí Nossa Senhora elevou-se e iniciou nova ascensão ao céu, esfumando-se numa nuvem que entretanto passava.
segunda-feira, 31 de março de 2025
O Ocaso dos Deuses - 42

Nessa noite Hipólito custou a adormecer a pensar no evoluir da guerra na Ucrânia. Estava claro que os Estados Unidos da América, sob a liderança de Donald Trump, queriam manter o poder hegemónico sobre o mundo e qualquer fortalecimento da União Europeia era entendido como uma ameaça, pelo que o melhor era pôr um travão à entrada da Ucrânia no espaço europeu e deixá-la cair nas mãos de Putin que, mesmo que saísse vitorioso daquela guerra, saía coxo e com dívidas, o que o iria afastar de qualquer outra cavalgada na próxima década.
Eram três horas da manhã quando um pequeno ruído no jardim fronteiro à casa o fez acordar sobressaltado. Levantou-se, vestiu o roupão e espreitou por entre as frinchas da persiana. Uma pequena luz tremeluzia por cima de um arbusto. Desceu as escadas temendo por um início de incêndio, abriu a porta da sala e viu um vulto sentado na borda do muro. Aproximou-se e rapidamente identificou Nossa Senhora da Graça, com veste branca e manto azul celeste com uma pequena vela na mão esquerda, que protegia do vento com a direita. Parecia cansada, como se estivesse há muitas horas sem dormir. Hipólito ajudou-a a descer e encaminhou-a para a sala de estar, junto à lareira, onde umas brasas ainda emitiam algum calor.
-Sente-se aqui neste sofá, que eu vou atiçar um pouco o lume!, convidou o médico, enquanto lhe oferecia um pequeno castiçal para ela pousar a vela.
Depois sentou-se numa banqueta aos seus pés e questionou-a: – O que é que a trás aqui, em finais de Março quando as suas festas são em Agosto? Agora não há emigrantes para movimentarem a aldeia. E ainda por cima à noite, com este frio!
Nossa Senhora que mantinha os olhos baixos, levantou-os, fixando a lareira, onde já passeavam pequenas labaredas, e respondeu calmamente: A quem o diz! Isto de ser humano e ter de viver eternamente não é fácil. Eu devia ter morrido como qualquer mortal, mas foi vontade de Deus que entrasse num estado de dormição e ascendesse em corpo e alma aos Céus. Era melhor que fosse só a alma que ascendesse, porque ter que andar com o corpo pelo céu, é pior que viajar pelo mundo com cinco malas grandes, que essas podem dar-se à guarda de alguém e, por um tempo, esquecê-las. Há dois mil anos não havia grandes problemas. Evitava as tempestades e os Invernos, mudando de hemisfério, ajeita-me em cima de uma nuvem mais fofa e dormia profundamente horas seguidas, mas desde a década de 20 do século passado, com o aumento exponencial de aviões no ar, é uma sorte dormir três horas seguidas. Ainda por cima tenho de ter cuidado para não cair no buraco do ozono!
- Acredito! Disse Hipólito. – Então agora com as Low Cost e a publicidade ao Turismo, não há gato pingado que resista a uma fugida de fim de semana para gastar o que não tem a centenas de quilómetros de distância. Para quem tem residência no Céu deve ser grande incómodo.
Nossa Senhora confirmou. – É como diz! Pudesse eu sair da atmosfera e ir para um lugar sossegado mas, como sou mortal, mesmo neste estado de dormição, preciso de respirar e por isso tenho de me manter próximo da Terra. O manto é polar e mantem-me quente, mesmo quando subo aos quatro mil metros, mas aí o ar já é muito rarefeito e eu dou-me mal nesse ambiente.
Hipólito anuiu salientando que por cada mil metros a temperatura ambiente desce 6,4ºC e, sem Oxigénio suplementar, o mínimo a esperar é uma dor de cabeça "das antigas". Depois, fitou-a nos olhos e relembrou a questão daquela "aparição”.
Nossa Senhora levantou-se para dar volume à voz e ser mais clara na sua determinação.
- Sabe, eu também fui ao Congresso onde o sr. esteve. Podia-me ter visto do outro lado do anfiteatro, bem em frente a si. Fui à sessão sobre “Secularismo” por me terem dito que iria estar na berlinda, o que se veio a verificar, quando a Inteligência Artificial falou. Ora eu vim aqui pedir-lhe ajuda na divulgação da minha total indisponibilidade para encabeçar qualquer movimento por mais pacifista que seja. Conheço os meandros da política e sei muito bem que a falta de consistência é geral. Por isso estive, estou e ficarei sempre de fora. Não gosto de carne assada, odeio gritos e bastam-me as confusões por que já passei!
Hipólito, surpreendido, comentou: - Mas quem sou eu, para divulgar essa missiva?
- Não é ninguém especial, mas está bem relacionado, e isso conta quando há necessidade de pôr coisas a andar. Fale com Zeus, com o Buda, com Mohamed, com quem quiser, mas tire-me desse filme. Não quero ver jornalistas a perscrutar a minha vida e concluírem que há incongruências, como acontece agora com o Montenegro.
Hipólito, aproveitou a deixa e retrucou: - Concordo consigo. O risco não é de desprezar. Até eu estranho como a sua história persiste pouco questionada. É demasiado a “preto e branco” para os conceitos actuais. Há uns anos, surpreendi-me com uma versão da Sua vida que me pareceu mais lógica. Quer ouvi-la?
Nossa Senhora sorriu e respondeu: - A história da minha vida já está escrita. Já houve quem a tentasse reescrever e saiu-se mal. O melhor é deixar tudo como está.
O médico concordou, lembrando o Primeiro Concílio de Niceia presidido pelo Imperador Constantino, em 325, onde se discutiu acerrimamente a questão da natureza divina de Jesus, por ser filho de uma mortal, até o Credo Niceno fixar a “consubstancialidade” do Filho com o Pai e, quem não o aceitou sofreu as consequências de ser considerado herético. Isto nos primórdios da Religião Cristã, porque o que se seguiu, até ao estabelecimento do “cânone”, foi mais do mesmo, até o domínio total das outras religiões do Império Romano.
Hipólito aceitou a incumbência beijando-lhe as mãos. Nossa Senhora agradeceu e dirigia-se para a porta quando parou, se voltou para trás e lhe ciciou: - As mulheres não resistem a saber do que se fala sobre si. Conte lá essa versão que diz ter lido sobre a “realidade” da minha vida. Talvez eu já a conheça!, sorriu condescendente e voltou a sentar-se.
terça-feira, 25 de março de 2025
Os abelhões
Uma das músicas que me ficou dos anos 70, foi a "Rose Garden" cantada por Lynn Anderson.
Fazer a manutenção de um jardim seja ele de rosas ou de árvores e mantê-lo saudável não é fácil. Há as ervas daninhas, as doenças e a bicharada que volta e meia ataca por onde não se prevê e, se não se está atento, há perdas que podem ser irremediáveis.
Eu via uma ou outra a cirandar por aqui e nunca lhes liguei, mesmo depois de ter visto uma cair sobre uma abelha e a ter devorado em minutos. Só no dia em que tropecei na árvore onde tinham o ninho e uma me ferrou é que levei o assunto a sério, mas nessa data, há muito que as abelhas tinham saído daqui.
Agora namoro os abelhões, criando-lhes tocas para nidificarem. Como é o lá vem um à procura de um buraco jeitoso, com uns tijolos sobrantes e meia dúzia de canas fiz-lhes um abrigo.
Ao que parece também eles estão a sofrer declínio no
hemisfério norte, fruto dos químicos usados na agricultura, ao ponto de já
haver países a criar abelhões para dispersar por zonas agrícolas na época das polinizações. Como há diferentes variedades em diferentes
regiões, há o risco de esses “abelhões de cultura” darem cabo dos nativos, pelo
que o melhor é dar condições a estes para não se vir a necessitar daqueles.
Segundo o Sr. Google, são da família das abelhas. São grandes e solitários e trabalham em condições climatéricas adversas. Nidificam escavando galerias em troncos de árvores mortas ou qualquer tecido vegetal, de preferência madeira mole. As fêmeas podem ter quatro a cinco gerações por ano. São bons polinizadores e raramente picam. Produzem mel em pequena quantidade que armazenam em pequenos potes de cera “para consumo próprio”.
sexta-feira, 14 de março de 2025
Frase do Dia
in "Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra" de Mia Couto
domingo, 9 de março de 2025
O Ocaso dos Deuses - 41
Hipólito chegou a casa já o sol se punha. Zeus, antes de se despedir sugeriu: - Vi que estás muito impressionado com o Donald Trump e, por isso, gostava que esperasses aqui um pouco, que eu vou ao Inferno trazer de lá um arrependido para tu conheceres que é cinco estrelas, e, num ápice, atravessou o chão para mergulhar nas profundezas da terra em direção ao Tártaro. Minutos depois estava de volta trazendo um patrício romano pela mão.
- Oh, meu amigo! Ia trazer-te o Nero, mas achei melhor o Júlio César, pois foi ele que deu cabo da República!, disse, enquanto empurrava ligeiramente o César para a frente. – É que Trump está a tentar imitá-lo como ditador. Mas preferia que o ouvisses!
Júlio César, com as vestes senatoriais ensanguentadas, pediu autorização para se sentar e iniciou a sua narrativa sobre os factos passados, com a humildade de um escravo.
- A República tinha demasiados “Checks and balances”, como agora se diz, que dificultavam a implementação das reformas sociais e políticas que eu preconizava. Foi por isso que impus a Roma a minha vontade. Centralizei o poder e a burocracia, nomeei-me imperador e até aceitei honras divinas. Nos primeiros tempos a coisa até que nem correu mal, mas a oposição política cresceu e, nos Idos de Março de 44 a.C., num dia tido como prazo para quitação de dívidas, um grupo de senadores aristocratas liderados por Marco Júnio Bruto (que até era um dos meus mais protegidos), assassinou-me, precipitando uma nova guerra civil e, como consequência, o governo constitucional republicano nunca mais foi restaurado.
Fui morto aos 56 anos. Tivesse eu sido mais inteligente e não tinha transformado a República num Império. Os benefícios de curto prazo não compensaram o que veio depois. Mais de metade dos Imperadores que me sucederam, morreram como eu, assassinados pelas forças que supostamente lhes eram leais. O poder absoluto não só corrompe como dá um “bode expiatório” fácil de identificar.
Hipólito interrompeu-o. - Não está a sugerir que seja esse o fim mais provável para Donald Trump, pois não?!
- Não deixa de ser uma possibilidade!, respondeu Júlio César. - Foi assim no Império Romano e é-o agora.
Zeus, que até aí se mantivera calado, atalhou: - Nunca faltaram indivíduos cheios de razões, nem razões para o que quer que seja. Trump viu demasiados filmes de Cowboys, onde o herói resolve tudo sozinho e tenta imitar o Lone Ranger acompanhado por um Tonto que, no caso, é o Elon Musk.
Hipólito, sorriu e acrescentou: - Eu já tinha feito uma analogia entre o Elon Musk e o Rasputin. Um a fazer a cabeça do Trump e o outro a fazer a da czarina Alexandra Feodorovna, esposa do czar Nicolau II, da Rússia, mas a sua imagem é melhor. De facto, o filme que passa na cabeça dele é um velho filme do oeste americano, em que o artista entra no bar armado com duas pistolas e depois de matar os maus, volta a montar o cavalo em direcção ao sol poente, com toda a população feliz no “backstage” e o som de uma guitarra a trinar em decrescendo, sobreposta ao trote do corcel.
Estavam todos de acordo, mas Zeus não quis sair dali sem pôr todos os pontos nos iis e lembrou. - No caso presente, quem levou a Ucrânia àquela guerra, foram os USA quando achavam que a Rússia era a sua maior ameaça, mas quando se aperceberam das fragilidades do seu exército nesta guerra e do salto que a China deu, querem virar-se para o Indo-Pacífico e deixar os europeus cuidar da sua Defesa. Enganam-se se pensam que vão manter os mesmos privilégios económicos. O mais provável é que a Nova Rota da Seda venha a ser uma realidade, pois Trump mostrou à saciedade que os USA não são mais fiáveis que os chineses.
Despediram-se. Hipólito subiu as escadas em direcção ao quarto de dormir, quando encontrou a mulher, incomodada por não ter tido notícias dele.
- Deixaste o telemóvel em casa e eu não encontrei, nesse Congresso, um número para te contactar.! Podias ter telefonado!
O médico justificou-se: - Neste Congresso … andei à vontade dos deuses!
- Andamos todos!, replicou a mulher. Hipólito retrucou, para amenizar o ambiente: - Mas olha que nem todos! Muitos maridos andam ao mando das esposas, dando razão ao provérbio galego: “Se a tua mulher te pedir para te atirares da janela abaixo, reza para morares no rés-do-chão!”.
sexta-feira, 7 de março de 2025
Frase do Dia
Ser inimigo dos USA é perigoso.
Ser amigo ... é fatal!Henry Kissinger Secretário de Estado e Conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos nos governos dos presidentes Richard Nixon e Gerald Ford.
sábado, 1 de março de 2025
O Ocaso dos Deuses - 40
Sobre o Mediterrâneo, Hipólito olhou para baixo, à procura
de barcos com emigrantes em risco de naufrágio e poucos viu. Pediu então a Zeus que passasse sobre o canal da Mancha para ver se havia gente a passar clandestinamente, quando ele lhe chamou a
atenção para um avião que passava em sentido contrário e à mesma altitude a que
voavam.
- Sabe quem vai ali!?! É o Volodymyr Zelenskyy, o presidente
da Ucrânia, a regressar dos USA em direcção a Londres onde se vai encontrar com os principais líderes europeus. Vem descoroçoado depois daquela vergonhosa
audiência na Sala Oval. Não quer ir lá dar-lhe uma palavra?, perguntou.
Hipólito não tinha assistido em directo, mas Zeus contou-lhe
em segundos, com todo o pormenor, tudo o que se tinha passado e o médico anuiu
ao convite e, no mesmo instante, estavam os dois sentados ao lado de Zelenskyy e
da sua comitiva.
Hipólito, segurou-lhe nas mãos e disse-lhe: - Estou em crer
que a grande maioria de quem assistiu àquela audiência está consigo. Aquilo foi
uma armadilha que lhe foi montada por um psicopata – narcisista, mas o modo
como o sr. presidente se comportou fez com que Trump levasse o tiro no pé.
Parabéns!
Zelenskyy surpreso olhou para os dois, como a perguntar como
é que eles surgiram do nada. Zeus acalmou-o, dizendo: - Eu sou Zeus, o rei dos
deuses do Monte Olimpo e, este aqui, é um médico amigo, que fui buscar a Israel.
Íamos para Portugal quando o topei neste avião e, como o dr. Hipólito se
interessa pelo que hoje está a acontecer no mundo, aproveitei para lho
apresentar, pois creio que ele gostava de lhe dizer algumas coisas no que
respeita à saúde mental de Trump.
Zelenskyy concordou. Zeus elevou o médico um pouco no ar, depois sentou- o numa cadeira alta para que ele pudesse falar de “cátedra” e o clínico assumiu ar professoral para afirmar: - Trump não é um “negociador”.
Trump tem todas as características de um “Manipulador” e tal foi muito evidente
naquela pequena discussão que teve consigo. Digo-lhe isto como médico que se
preocupa com o assunto. SE me permite, vou usar umas notas sobre o assunto,
para que não me esqueça de mencionar alguma das características do “Manipuladores”.
1. São intolerantes: Não respeitam
as opiniões, atitudes ou comportamentos dos outros. Vivem cheios de
preconceitos, reagem agressivamente, de forma ressentida ou pouco educada,
porque acreditam que não há nenhuma razão para impedir que a sua vontade prevaleça.
Muitas vezes são sexistas.
2. São encantadores nas fases iniciais da relação, mas ofendem-se com
facilidade se algo não se encaixa na sua verdade e mudam de humor em segundos,
passando de um estado agradável ao de fúria em questão de segundos.
3. São amantes da ordem, com base
no seu critério pessoal. Autoritários e intransigentes, perseguem uma única
verdade, a deles. Se não lhes obedecem, ficam furiosos.
4. São rígidos e têm pensamento
dicotómico - tudo está certo ou tudo está errado, sem meios termos. Não
conversam na busca de um consenso. Geralmente, os agressores cresceram em
famílias que os trataram assim.
5. São chantagistas – Provocam
medo nas vítimas, culpando-as por coisas que não fizeram ou de coisas que
fizeram, mas que não são graves.
6. Não aceitam a crítica como algo construtivo e reagem a elas como
a um ataque pessoal, procurando defeitos nos outros para os esmagar e submeter.
São especialistas em procurar interpretações arrevesadas da realidade.
7. Desconectam as vítimas dos
seus familiares e amigos, causando-lhes medo de falar com outras pessoas.
8. Têm baixa empatia (não
reconhecem as emoções dos outros), o que lhes permite fazer a vítima sofrer sem
qualquer ressentimento. São cruéis e não se arrependem, mesmo quando pedem
desculpa. Na próxima, agirão do mesmo modo.
9. São controladoras - Têm
necessidade de se sentir superiores, mas no fundo são inseguros.
10. Reagem impulsivamente,
sem ponderar as consequências, sem controle emocional. Os fins justificam-lhes
os meios. São capazes de agir discretamente em lugares públicos, o que torna a
vida da vítima uma verdadeira provação.
11. Vitimizam-se, tentando culpar
outros para justificar as suas ações.
Zelenskyy ouviu calmamente a explanação do médico e no fim
perguntou, na esperança de uma resposta positiva: - Mas será possível que algum
tratamento os faça alterar estes comportamentos?
Hipólito respondeu cabisbaixo: - Não! Os Narcisistas têm
uma total ausência de humildade. Pensam que são muito melhores que os outros e
queixam-se de tudo e de todos. Têm zero de empatia e tendem a relacionar-se com
os outros de acordo com a sua “utilidade” e, nesse sentido, a usá-los como
objectos pessoais.
Zelenskyy olhou para Zeus, como a perguntar se uma
intervenção divina não poderia por cobro à loucura de um homem. Zeus baixou
também os olhos e retorquiu: - Até o lavar dos cestos é vindima! Trump está
meter-se em demasiadas alhadas ao mesmo tempo e não tarda começar a sentir a
areia a fugir-lhe por entre os dedos. Vá para casa, sr. presidente, durma, e
vai ver que amanhã as coisas vão estar um pouco melhor. Como dizem os mortais: “De
hora a hora, Deus melhora!
E dito isto, pegou no braço de Hipólito e assim
como entraram, saíram do avião em direção ao extremo ocidental da Europa.
sábado, 22 de fevereiro de 2025
O Ocaso dos Deuses - 39
Bertrand Russel, Daniel C. Dennett, Christopher Hitchens, Richard Dawkins, Laérco Fonseca eram os palestrantes. Hipólito conhecia-os dos livros e das conferências que vira no Youtube, a criticar as religiões existentes e a defender códigos de conduta baseados no conhecimento científico e sociológico do Homem, mas nunca os vira dispostos a iniciar uma nova Religião, pelo que estava à espera de um passo, por pequeno que fosse, nesse sentido.
Após uma breve introdução em que se falou dos crimes efectuados em nome de Deus por alguns dos santos venerados na liturgia católica, apontaram a discussão para definir quais as melhores estratégias para chegar às classes mais desfavorecidas que voltam os olhos para o céu na esperança de uma solução para as suas aflições.
Definiu-se Secularismo, não como uma ausência de Fé, mas como uma moralidade à volta da racionalidade, das escolhas e da responsabilidade individual para uma conduta adequada para se ser considerado e empático com os outros. Mas, tais valores, embora entendíveis por o mais simples dos homens, perde força quando ele está perto dos seus limites e anseia por uma solução que dê sentido ao seu sofrimento. O Cristianismo que não se apoia só em sensações “moderadas” como a empatia, põe a tónica num “fervente altruísmo e amor sacrificial”. O Judaísmo não valoriza só a comunidade, mas também a imbui de “laços sagrados e escolhas que fazem vibrar as cordas do coração” e todas as outras não pedem aos crentes que sejam só respeitadores, pedem-lhes também “que a essência de cada alma se valorize com a alta dignidade da luz divina”.
Ora era esse o caminho que o Secularismo teria que fazer: deixar de se limitar aos aspectos racionais da nossa natureza e incluir no discurso conceitos capazes de “despertar emoções e exaltar paixões”.
A palavra secular vem do latim saeculum, que significa “uma geração”, “uma vida humana”, “um século” - um tempo finito ou mundano, em oposição ao tempo religioso cheio de eternidade e carregado de significado espiritual e, nesse sentido, ela também é limitante da “Esperança”, que é o grande motor da humanidade. Os deuses são o foco de “esperança”, quer através de uma intervenção directa ou pela promessa de uma vida extraterrena de grande conforto para premiar todo o sofrimento e o bem que se fez neste mundo. O Secularismo ignorava-o e essa era a grande limitação para a sua expansão como força mobilizadora de grandes massas humanas.
As palestras seguiam um tom morno, quando, do público surgiu uma voz. – Vocês podiam adoptar como ícon “Nossa Senhora”. Ela é uma mulher, não é uma deusa! E digo é e não era, porque, segundo consta, não morreu, foi levada para o Céu em corpo e alma, enquanto viva, num estado de dormição e, talvez por isso, é vista em vários locais do mundo. Maria é representada jovem e bonita e as suas 1100 denominações diferentes (em Portugal 744), têm por base a empatia, a benevolência e a aceitação da imperfeição humana. Além disso, tira a tónica da “força bruta”, masculina, que as religiões tendem a usar no seu proselitismo. Pensem nisso!
Todos se entreolharam a tentar identificar quem assim falava, pois a voz parecia ter a mesma intensidade em toda a sala. Bertrand Russel que presidia à mesa ajeitou o microfone e dirigiu-se à plateia:
- A mesa não conseguiu identificar quem acabou de falar. Agradecia que se levantasse para podermos encetar o diálogo!, mas nenhum dos deuses, mortos ou humanos presentes se acusou, e Russel assumiu de novo a palavra: - Uma vez que não foi ninguém aqui presente a proferir o discurso que acabámos de ouvir, concluo que a autoria foi da Inteligência Artificial. Devo, no entanto, avisar que a IA não foi convidada, pelo simples facto de ser perigoso valorizar as suas opiniões no devir humano. Talvez no próximo Congresso a sua participação seja benvinda, mas o estado da arte de hoje desaconselha que seja tida em consideração!
E, sem mais delongas, deu por terminada a sessão e cada um saíu para seu lado. Hipólito olhou para eles e pensou: - São como a União Europeia, permitem a transação de pessoas e bens, mas são incapazes de ter um plano de defesa comum.
Já era tarde e o corpo pedia-lhe o aconchego de uma cama. Saiu e, de imediato, foi abordado por Zeus, que lhe meteu familiarmente o braço enquanto lhe dizia: -Meu amigo, isto aqui no Médio Oriente, está a ficar muito instável. Israel e os USA estão em vias de um ataque ao Irão, o melhor é ir para casa, já!
Hipólito, apanhado de surpresa, ainda perguntou: - E as conversações que estão a decorrer na Arábia Saudita já terminaram?
Zeus respondeu, sorrindo: - Esqueça o que vem a público, que não passa de cortinas de fumo para o que se quer fazer. Neste momento, Israel está na mó de cima e quer ver-se livre dos grupos que há décadas o ameaçam e que estão sob influência e patrocínio do Irão e os USA necessitam de um aliado forte nesta zona, por causa do canal do Suez, que é a principal rota marítima do mundo, por onde passa mais de 10% do comércio mundial. Trump não vai perder a oportunidade de dar cabo do programa nuclear do Irão. Aquelas conversas com Putin sobre a Ucrânia visaram também o apoio da Rússia ao Irão e ele deve ter conseguido uma “não interferência” tácita em troca de parte do território da Ucrânia.
-E a Europa?, retorquiu o médico, a tentar tirar mais uns nabos da púcara.
- A Europa deixou de ser um problema para os USA, quando a Alemanha parou de comprar gás à Rússia. Qualquer colaboração mais intensa entre os países mais industrializados da Europa com a Rússia, tem o veto americano, independentemente das política de qualquer das partes. É que a Europa unida à Rússia seria uma força geopolítica indesejável, sob todos os aspectos, para os USA. Agora, agarre bem o tridente que vamos iniciar a viagem!
E, dito isto, elevou-se no ar, qual míssil intercontinental, em direcção ao ocidente, levando consigo Hipólito.

















































