sábado, 21 de dezembro de 2013

Burnout

- Dr. Fernando! Eu não volto lá abaixo. Estou farta de ser mal tratada. Fui à Radiologia perguntar onde se viam as metástases na TAC do doente, porque as imagens não me pareceram boas, e o radiologista quase me correu. Eu não estava à espera daquela reacção. Ele sempre foi simpático e disponível, pelo menos comigo. Mas desta vez, pôs-se a bater no écran a dizer que a TAC não tinha contraste, que não foi ele que a fez, que se lembra do doente por lhe ter feito uma ecografia, que estava crivado de metástases no fígado e que era a biópsia que dava o diagnóstico. Como se eu não o soubesse. Depois chegou mais gente para falar com ele e quando os viu, até bufava! Eu não tenho culpa de ele estar mal disposto!
- Lúcia! Não sei se ele estava mal disposto ou se estava com trabalho muito para além daquele que ele conseguia fazer. É que todos temos um limite e, se ele é repetidamente ultrapassado, começamos a ficar disfuncionais. Hoje aconteceu com ele. Amanhã acontece consigo. Eu entendo-o porque já passei por situações semelhantes.
Lembro-me de ter vivido uma situação parecida, mais ou menos com a sua idade. Agora, até dá para rir, mas na altura senti-me muito humilhado. Foi no Serviço de Urgência do Hospital de S. João, na década de 1980. Então, não havia a facilidade de agora em fazer análises. O Laboratório de apoio tinha um médico e um técnico, sem as máquinas informatizadas de hoje, em que se mete o produto de um lado e trinta minutos depois sai o resultado do outro. As análises eram efectuadas uma a uma, e tudo o que implicasse células, fosse um hemograma ou um sedimento urinário, era contado e classificado ao microscópio numa câmara de Neubauer. O analista era uma vítima. Nem tinha tempo para se coçar. Os tubos e os frascos caiam-lhe a toda a hora no balcão de entrada, sem contar com aqueles que, como eu, lhe entravam pelo laboratório adentro sempre que uma demora mais prolongada ou uma emergência os impelia.
Foi numa dessas vezes, em que eu já o sabia atormentado de trabalho, que lá entrei, por uma segunda ou terceira vez, para lhe pedir um sedimento urinário para um doente a quem não conseguia pôr um diagnóstico. Eu podia ter mandado entregar o produto, mas quis lá ir pessoalmente para justificar a análise e ele não ficar com a sensação de eu não o estar a respeitar, sobrecarregando-o.
Mas apanhei-o já desesperado. Ele mal levantou a cabeça do microscópio e me viu com o frasquinho de urina na mão, fulminou-me com o olhar e, descontrolado, soletrou, enquanto me tirava o frasco e a requisição da mão:
- Sabes, pá! Isto aqui é um LA-BO-RA-TÓ-RIO! ... Não é um MI-CTÓ-RIO! ...  Percebes?
... e eu, que na altura era um interno dos primeiros anos, meti o rabinho entre as pernas, e nesse dia não voltei lá mais. Só na semana seguinte é que lá fui, de mansinho para me justificar, bem depois de garantir que o homem estava no seu normal.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Teoria da Conspiração - 1


É o que te digo: As ondas de calor não têm rigorosamente nada a ver com gases com efeito de estufa, nem naturais nem antropogénicos. O dióxido de carbono representa 0,037 % da composição da atmosfera. As emissões devidas às actividades humanas são apenas um vigésimo das emissões naturais. O que se fala é uma moda para vender jornais e criar condições para que grupos económicos tirem vantagem dessa teoria .
O buraco do Ozono é uma treta que os americanos inventaram na década de 1970, para venderem propelentes para aerossóis e gás para ar condicionado e frigoríficos. Primeiro eram os CFCs (clorofluorcarbonos) que “davam cabo do Ozono da estrastosfera e que íamos ser bombardeados por Raios Ultra Violeta e com cancro da pele e com cataratas, etc …". Agora viram-se para o HFCs (Hidrofluorcarbonos), que os substituíram, que não interferem com o Ozono, mas têm efeito de estufa.
O que eles querem é ter o mundo a comprar-lhes os  compostos da última geração, que só são fabricados em três fábricas no mundo - DuPont (USA), Honeywell (USA), e  Daikin (Japão).

Estás a ver os chineses a querer vender frigoríficos e sistemas de ar condicionado para o Ocidente e o lobby dos líquidos refrigerantes a patrocinar os ecologistas para lutarem por um calendário para a redução da emissão dos “gases com efeito de estufa”, em protocolos como o de Quioto, que os mantém fora da corrida. É só lucro.

E não é só com estes produtos químicos. O mesmo se passa com os catalisadores dos automóveis. Só no Ocidente é que se conseguem fazer com as especificações que se exigem para poderem ser vendidos aqui.
No mundo há 400 milhões de automóveis com ar condicionado e já há directivas da União Europeia para que a partir de 2017, todos os novos carros com este equipamento tenham líquido de refrigeração desta última geração.

O aquecimento é uma treta que pode ser explicado pelo aumento na actividade solar nos últimos quatro séculos, a que se seguirá um ciclo de arrefecimento.
O que não se fala é da protecção às indústrias ocidentais para que os chineses não vendam aqui carros a metade do preço. Era o caos. Na Autoeuropa em Palmela, 3000 trabalhadores são responsáveis por 10% das nossas exportações. Quase 1% do PIB do nosso país. Com cem fábricas daquelas sustentavamos o país.

domingo, 15 de dezembro de 2013

Porta 93


-Vamos almoçar. Peixe ou um prato tradicional? Pergunta quem nota a falta de variedade na cidade, comentando a sua boa cozinha, mas sabores muito parecidos.
-Ali há um Chinês e do outro lado do rio há um churrasco brasileiro! digo até me lembrar da cozinha de autor na Porta 93, no Jardim D. Fernando. -A "Chef" é filha de um amigo nosso, o Dr. António Parra, que foi director da Farmácia do Hospital, e que faleceu subitamente há mais de dez anos. Tivesse ela aberto o restaurante numa grande cidade da Europa, por certo era preciso marcar, mas aqui vamos ter mesa. Não só não é muito central, como não está muito publicitado. São os clientes que o têm promovido.
... ...
-Então?
-Huumm! Um achado!

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Dia de Santa Luzia

13 de Dezembro - Dia das protectoras dos olhos e dos Oftalmologistas.
Diz a tradição:
Santa Luzia pertencia a uma nobre família napolitana que vivia em Siracusa (Sicília). Era dona de grande beleza. Orfã de pai desde os 4 anos, foi prometida pela mãe,  como esposa a um jovem da corte local, contrariando o seu voto de "consagrar a Deus a sua virgindade". O ex-noivo não se conformou com a recusa e denunciou-a, como cristã, ao governador romano - Pascásio, que a questionou. Ela, depois de muitas dissidências ter-lhe-á perguntado: "mas afinal o que vê o nobre patrício em mim de tão desejável?", ao que Pascásio respondeu: "os teus olhos brilham como duas estrelas e encantam como duas pérolas". Face a isto, Luzia "num gesto rápido de sublime heroísmo", arrancou os olhos e colocou-os numa bandeja, ordenando que os enviasse ao seu pretendente. Depois foi martirizada. Era o dia 13 de Dezembro de 304.

Santa Otília, nasceu cega e foi recusada pelo pai - Aldarico da Alsácia (Alemanha), que a entregou a um mosteiro. Quando o bispo a baptizou disse: "Que os teus olhos do corpo se abram, como foram abertos os teus olhos da alma" e foi-lhe restituída a visão. Então, quiseram-lhe arranjar um bom casamento e Otília preferiu a vida religiosa. Convertido, o pai transformou o seu castelo de Hohenbourg, nas margens do Rio Reno, num mosteiro. Ela foi a primeira abadessa. Aí recolheu pobres e doentes e aí morreu no 13 de Dezembro de 720.
Desde então, por sua intercessão, os devotos que molham os olhos doentes na água proveniente da fonte do mosteiro, conseguem a graça da cura.

Nos Países Nórdicos, a 13 de Dezembro, organizam-se cortejos em que uma rapariga loira de cabelos compridos, vestida com uma túnica branca e uma fita vermelha na cintura e com uma grinalda de verdes com velas acesas, encabeça uma comitiva de jovens mulheres, cada uma com uma vela, que desfila pelas ruas e visita escolas, hospitais, fábricas, etc, procurando transmitir alegria. No antigo calendário Juliano (que se usou na Suécia até 1753), esta data correspondia à noite mais longa do ano (o solstício de inverno - no calendário gregoriano é a 21 de Dezembro), quando o Sol atinge o ponto mais ao sul da sua trajectória em relação à Terra. É uma tradição pagã que o cristianismo se apropriou para facilitar a conversão.

No Norte e no Sul canta-se a zona costeira do Borgo Santa Lucia, na Baía de Nápoles.



É a globalização!

Em Viana do Castelo de hoje, Santa Luzia não tem festa. Dá nome ao monte e ao que lá está: ao Templo dedicado ao "Sagrado Coração de Jesus" por ter livrado a cidade da Pneumónica  (1918), construído no local onde até 1926 havia uma pequena capela que lhe era dedicada,  à citânia da Idade do Ferro (Séc: VII a II a.C.), à pousada e ao elevador.

Mas eu, que gosto de santos de carne e osso, faço de Lúcia cabeça, olhos e braços e tenho-a por uma santa atenta e diligente que me anima e me sossega de 2ª a 6ª feira.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Legislação


Leio Gonçalo M. Tavares, in "Atlas do Corpo e da Imaginação",

2.1 - Os Outros
Legislação
Para os Gregos, ao contrário de civilizações posteriores e do que actualmente se considera, a função de legislar não era uma actividade política. O legislador era tratado como qualquer outro artesão e podia ser trazido de fora e contratado, enquanto os actos políticos eram "privilégio exclusivo dos cidadãos". Um artesão de frases sensatas, frases claras, entendíveis por todos, um profissional que transforma os conceitos em redor da justiça em frases, tal como um artesão transforma a ideia de espada em espada, actuando sobre a matéria.

Antes que os homens começassem a agir, era necessário assegurar um lugar definido e nele erguer uma estrutura dentro da qual pudessem exercer todas as acções subsequentes; o espaço era a esfera pública da Polis e a estrutura era a sua lei;
Não se trata de acção (praxis), mas de fabricação (poiesis); as leis fabricam-se como se fossem o objecto para o qual os justos olham de modo a agir correctamente e em benefício do bem comum e da cidade.

domingo, 8 de dezembro de 2013

Sotaques


-Não acredito, Lúcia. Quatro meses para lhe arrancarem os dentes. É muito tempo! A doente tem de ser operada ao coração antes disso!
-Foi o que disse a estomatologista: Quatro meses!
-Eu vou lá abaixo falar com ela!
...
-Dra.! A minha interna disse-me que, para tirar as treze raízes podres da boca da dona Esperança, que ainda há pouco veio aqui, iam ser precisos quatro meses. É verdade?
-Nõue! Eu non disse isso! Carago! ... Eu disse quatro biezes. Não disse quatro mieses! Ela bai bir amanhã a primeira biez. Depois, de três em três dias, trata-se um quarto da buoca. Para num ser tudo de uma biez! Carago! Foi isso que eu disse!

sábado, 7 de dezembro de 2013

Psiquiatra Alternativo


- Faz favor de entrar, mas deixe essa mala do lado de fora, por favor! A Sra. ia de viagem?
- Não, Sr. Dr.! Eu venho para ser internada em Psiquiatria. Esta mala tem as minhas coisas. É que a minha mãe não me vai trazer nada enquanto eu aqui estiver. Eu  pedi alta há 2 dias. Estava farta! Mas logo que entrei em casa, cheguei à conclusão que não tenho condições para me tratar lá. ... Não dá! A minha mãe tem 84 anos. Está bem, mas não é capaz de tratar de mim. Aqui, tenho medicação e comida a horas. O Sr. Dr. tem de me internar outra vez!
- Dona * ! A Sr. mora aqui ao lado. É melhor vir amanhã e falar com o seu psiquiatra que, por acaso, até entra de urgência.
- Nem pensar, Sr. Dr.! Eu hoje estive quase a "explodir". Zanguei-me com um telefonema de um irmão meu, moí mais de 80 comprimidos e só não os tomei porque, no meio da confusão com a minha mãe, esqueci-me de os tomar. A minha mãe põe-me doida! Não faz nada a horas!
- Dona * ! Isto é um Serviço de Urgência, onde não há internamentos programados. E a esta hora não há psiquiatras de urgência. Vou ter de a enviar para um hospital central!
- Sr. Dr.! Eu  não volto para casa! ... E daqui não saio!
...
Leio no diagnóstico de Alta do internamento anterior: "Perturbação de Personalidade". Faço mais umas perguntas e parece-me uma "Neurose de Renda" .
...
Isto sou eu em funções de psiquiatra alternativo.

domingo, 1 de dezembro de 2013

1º de Dezembro

Dia da Restauração da Independência - já nem é dia de S. Feriado
Dia Mundial de Luta contra a SIDA (Notícia 10 anos Desactualizada) Dia de Luta contra a Pobreza (Notícia Actualizada)
Segundo Isabel Jonet, presidente da Federação de Bancos Alimentares, os portugueses doaram, neste fim de semana, 2914 toneladas de comida aos bancos alimentares.
Recebem as instituições de solidariedade social, recebem os Hipermercados pelo volume de negócio e recebe o Estado pelo IVA entre 6 e 23%.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Esquizofrenia


A primeira vez que vi aquela luz foi há muitos anos. Estava ainda no Canadá a acabar o curso. Numa das últimas aulas, o professor de vectores estava sempre a dar voltas com o braço direito, como um moinho, e a certa altura,  um raio verde saíu-lhe da cabeça e projectou-se no ar. Paahhh!
Perdão! Em 84 eu já tinha visto uma luz redonda no meu quarto, quando recebi o Santíssimo Sacramento em Braga.
Doutra vez, já eu cá morava e, numa daquelas manhãs de puto, estava na sala com a minha mãe, e vi pela janela uma nave de aço inoxidável parar na rua de Santana. Perguntei-lhe o que era aquilo, e ela encolheu os ombros. O ovni com três feixes de luz verde, abriu a porta, desceu uma rampa, e dois robots vieram-me buscar. Fiquei pior que estragado! Entrei lá dentro e fui teletransportado para o quarto do meu irmão, onde estava uma silhueta-sombra, que eu respeito como uma identidade máxima do altíssimo, que me disse: anda! ... anda! ... anda! ... e eu atravessei-a. Depois dela estava um hexágono das abelhas, como o do livro do 1º ciclo. Sabe?!
Quando lá cheguei tinha a mão a tremer com medo das gajos da Coreia, com aqueles capacetes com  extensão bem abaixo da nuca.
...
 Estou a vender a como comprei! E o Haldol Decanoato tem-me feito muito mal, sabe! Porque há 18 anos que é Dê-cá-no-ato. Está a perceber! Dê-cá-no-ato! ... e não tem nada para mim! ... No princípio não era o Verbo? ... E eu é que me fodo!
...
Não se preocupe que eu tenho as costas quentes, que eu vi a irmã Lúcia nas Ursulinas e um senhor com as chaves da morte e as chaves do inferno, no "3 Potes". Parecia um técnico da Grunding e do CDS. Todo avant-garde! E eu perguntei: Como é que o senhor se chama? -Cordeiro! -Cordeiro, não topo! E comecei a chorar! E depois ele mostrou-me a irmã Lúcia, num placard. Ajoelhou-se e disse: Oh mãe! Vamos para ali falar da custódia. Sentou-se e eu já não sabia em que cadeira ele estava. Depois, deu-me um cigarro e meteu-se com uns gajos por causa de um jornal. E eles disseram, meios chateados: Vamos embora pá! E eu respondi-lhes: - Só ligo à merda quando estou distraído!

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Desesperos

- O meu homem fuma e bebe como um desgraçado e chateia-me todos os dias, a dizer que eu ando sempre doente.  Sr. Dr.! ... Eu aqui com esta dor que nem me deixa respirar e ainda por cima a ter que o ouvir! Valha-me Deus, que eu só me aguento à força de comprimidos, e ele não entende! Eu mal posso fazer o trabalho de casa, quanto mais andar aos desejos dele.
...
- Mas olhe Dr.! No outro dia entrou em casa, bem tocado, a queixar-se de um dedo do pé. Ele tem o ácido úrico. E eu cá para mim: - anda, que vais ver como é! E ao jantar, dei-lhe um arroz de sarrabulho com rojões.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

"The Shadow of the Sun"


Em 1957, Ryszard Kapuscinski (1931-2006) chegou a Africa como correspondente de um jornal polaco, para testemunhar o fim da época colonial.
"The Shadow of the Sun", é um “livro de viagens” onde as pessoas, a paisagem, a beleza e o horror de Africa, são descritas e interpretadas com breves comentários históricos.
Oriundo de uma família humilde polaca, Ryszard Kapuscinski, revela-nos pormenores de um viver africano, que a África dos europeus ignora ou encobre.

Não há tradução portuguesa, mas é um bom exercício de inglês, pois prende da primeira à última página, mesmo que se tenha de ir frequentes vezes ao dicionário.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Professor


Filinto Elisio Vieira da Costa, era respeitado pela exigência de rigor a que obrigava, e temido pelo insólito da sua postura como professor.
No início de cada ano, ao apresentar-se aos alunos, clarificava a sua disponibilidade, sibilando os "sss":
 -Dentro desta sala, somos todos iguais! ... Com uma diferença! Daqui ... manda-ssse, e daí .... obedeccce-ssse!
...
Histórias de outros tempos, que passam de pais para filhos.

domingo, 10 de novembro de 2013

Arte em Medicina

A caligrafia moderna varia de inscrições funcionais até criações utilitárias para magníficas obras de arte.
A "arte da escrita bela", enquadrada dentro das competências técnicas e das limitações materiais das diferentes pessoas, épocas e lugares, é uma evolução estética, e até o Grafite é considerado como arte apaixonada, expressão de estilo, cultura e identidade.
Nesta carta de referência de um doente a um Serviço de Urgência, o médico opta por uma expressão abstracta onde a arte se torna mais importante do que a legibilidade das letras, num estilo que lembra as “escripinturas” de Emerenciano.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Padres

Eu sou bisneta do padre José Maria. A minha bisavó era criada dele quando a minha avó nasceu. Ele nunca a perfilhou, mas toda a gente na aldeia sabia. Depois, ela ainda teve outro filho, mas esse era de outro senhor.
Quando o padre morreu, deixou tudo a uns sobrinhos. A minha avó contestou o testamento no Tribunal e acabou por herdar noventa contos, que era muito dinheiro naquela altura, e arranjou a casa onde agora ainda vivemos.
Quando o meu pai ia à doutrina, o povo dizia-lhe, de brincadeira, para pedir a bênção ao avô. Mas ele nunca os tratou como família.
Dizem que era boa pessoa. Nos últimos dias não negava que a minha avó era filha dele.
Morreu velhinho, na casa de um sobrinho. Está no cemitério, num jazigo, onde há mais de trinta anos não põem lá ninguém.
Nós não vamos lá, nem no dia de finados.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

As primeiras coisas


Deste romance, de Bruno Vieira Amaral, disse Rentes de Carvalho no seu blog "Tempo Contado":
 ... embargou-se-me a garganta, não só por aquele final de antologia, mas pela certeza de que tinha lido obra moderna no melhor dos sentidos. E obra de primeira. Respeitosa dos cuidados que a língua merece, original na criação, grande na sua humanidade, espectacular na sarabanda de episódios, personagens e enredos"

 ... não hesitei, li, gostei, invejei-lhe a escrita e passei a seu seguidor no Circo da Lama!