terça-feira, 15 de setembro de 2009
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
Cheiras a desgraçado, meu filho!

- Vais ter de me contar essa história outra vez. É que o amor aos 17 anos tem a imprevisibilidade dos grandes fenómenos naturais.
- Ela teria uns 19 anos e, embora já conversada, fora nessa tarde de fim de Outono, que nos inflamámos na Levada do João Mestre. Entre gestos e palavras, os nossos corpos exigiram uma proximidade impossível, e ela sugeriu o seu quarto naquela noite!
- Arriscado!?
- Nem muito. Ela vivia com os avós, era um rés-do-chão virado para as traseiras e para o monte, que havia sido cortado na terraplanagem da construção. Os pais estavam emigrados.
- E os avós?
- Dormiam no andar de cima e para a frente, e eu só entraria quando visse um sinal de luzes, pois isso significaria que eles estavam a dormir.
- E depois?
-Depois do jantar dei uma volta pela aldeia a fazer horas, e às onze meti-me pelo monte e ali fiquei intermináveis minutos, sentado a olhar a janela à espera. Por fim a luz acendeu e apagou quatro vezes e eu desci monte abaixo os cem metros que distavam da habitação.
- E via-se bem?
- Não! Havia pouco luar, mas como não havia arvoredo denso, não me foi difícil chegar ao terreno da casa, iniciado por um pequeno talude de pouco mais de metro e meio, que me pareceu fácil de saltar. Saltei, mas quando os pés chegaram ao chão, em vez de estancar, dei por mim a escorregar por um declive húmido e a afundar-me numa pasta nauseabunda, para só parar quando a tinha pelo pescoço.
- Então caíste mesmo numa fossa!
- Literalmente! Julguei que morria. Esbracejei longos segundos naquela lama, consegui agarrar umas giestas que cresciam ao pé e sair dali barrado de merda de cima a baixo.
- E depois, ... foste ter com a rapariga?
- Nem pensar! Eu queria ir para casa, a uns dois quilómetros, mas antes tinha de arranjar modo de me ver livre daquela pasta que me envolvia e que cheirava que tolhia. Para cúmulo, nesse dia estreava umas calças à boca-de-sino, que a minha mãe mandara fazer ao alfaiate.
- Que horas eram?
- Pouco passava da meia-noite. Lembrei-me do local onde as mulheres costumavam lavar a roupa e fui para lá. Entrei no rio vestido a ver se aquilo saía, mas o lodo que estava por debaixo da roupa era tanto que tive de a tirar toda.
- Literalmente! Julguei que morria. Esbracejei longos segundos naquela lama, consegui agarrar umas giestas que cresciam ao pé e sair dali barrado de merda de cima a baixo.
- E depois, ... foste ter com a rapariga?
- Nem pensar! Eu queria ir para casa, a uns dois quilómetros, mas antes tinha de arranjar modo de me ver livre daquela pasta que me envolvia e que cheirava que tolhia. Para cúmulo, nesse dia estreava umas calças à boca-de-sino, que a minha mãe mandara fazer ao alfaiate.
- Que horas eram?
- Pouco passava da meia-noite. Lembrei-me do local onde as mulheres costumavam lavar a roupa e fui para lá. Entrei no rio vestido a ver se aquilo saía, mas o lodo que estava por debaixo da roupa era tanto que tive de a tirar toda.
- E puseste-te a lavar roupa à noite?
- Encontrei uns pedacitos de sabão rosa no meio das pedras junto à margem e esfreguei o mais que pude peça a peça, mas nem assim o cheiro desentranhava. Estive lá até às 3h, a pendurá-la nos varões da ponte à medida que a ia lavando. Quando a vesti, cheirava igual.
Meti-me ao caminho, e ainda me cruzei com o Bipa e o Pireca que vinham da estiva e que estavam à conversa, e que, à minha passagem, comentaram “ Chiça, que este vai perfumado!”, ao que o outro retorquiu “Deve estar podre!”. A minha sorte foi ser noite e ter passado bem ao largo, para eles não me reconhecerem.
Quando cheguei a casa, despi-me no coberto, meti a roupa toda num saco de plástico, escondida junto aos detergentes, passei-me pela mangueira, e pé ante pé, para não acordar ninguém, meti-me na cama.
...
Quando cheguei a casa, despi-me no coberto, meti a roupa toda num saco de plástico, escondida junto aos detergentes, passei-me pela mangueira, e pé ante pé, para não acordar ninguém, meti-me na cama.
...
Estava no primeiro sono, quando a minha mãe entrou quarto adentro e abriu a janela enquanto dizia: "A Rosa do Raul deve ter andado a despejar a fossa, que está um cheiro que não se pára nesta casa!".
E eu, embrulhado nos cobertores, esperei que ela saísse para tomar um banho de uma hora que põe fim a esta história! É que, nesse dia, nem lhe ouvi o "cheiras a desgraçado!" com que me mimoseava, quando sentia o cheiro a tabaco na minha roupa!
domingo, 13 de setembro de 2009
Dançar com Fantasmas

Imaginem um sonho surreal que começa com uma sala de baile cheia de dançarinos elegantemente vestidos. De súbito, um membro de cada par desaparece, mas os seus companheiros continuam a dançar como se nada se tivesse modificado. Os seus braços permanecem estendidos e eles continuam a descrever círculos como se estivessem a dançar com fantasmas. Depois surge um poço sem fundo no meio da pista de dança. Ficamos a ver, fascinados, os dançarinos solitários aproximarem-se da beira do poço, como actores na beira de um palco. Infelizmente, os dançarinos mostram-se tão inconscientes do poço como da ausência dos pares. E nada podemos fazer quando eles mergulham um a um e desaparecem.
Esta fantasia sinistra torna-se realidade cada vez que um ser vivo se depara com um novo ambiente e as estratégias anteriormente bem sucedidas se tornam ineficientes. É que os organismos têm de residir num determinado meio ambiente durante um número suficiente de gerações para a relação organismo-ambiente se consolidar.
Esta fantasia sinistra torna-se realidade cada vez que um ser vivo se depara com um novo ambiente e as estratégias anteriormente bem sucedidas se tornam ineficientes. É que os organismos têm de residir num determinado meio ambiente durante um número suficiente de gerações para a relação organismo-ambiente se consolidar.
Desde tempos imemoriais, que as tartarugas marinhas bebés saem dos ninhos nas praias à noite e abrem caminho até ao mar. Evoluíram de modo a poderem orientar-se pela luz reflectida pela superfície da água, o que lhes proporcionou uma pista fiável até á altura em que começaram a ser construídas casas na praia. Agora as luzes brilham ainda mais que o luar reflectido no mar, o que leva as tartarugas a tomar a direcção errada, rumo à morte, exactamente como os dançarinos que caíam no poço do meu salão de baile surreal. …
Os carvalhos produzem as bolotas em resposta a pombos que já não escurecem os céus.
Estas espécies irão continuar a dançar com fantasmas até se extinguirem ou até a selecção natural lhes ensinar novos passos de dança.
….
Nós humanos, quando somos postos numa situação completamente nova, dispomos de alguma capacidade para compreender que temos um problema e de tentar arranjar uma solução. Mas o processo mental é em muitos aspectos limitado, pois antes de possuirmos inteligência humana éramos mamíferos e primatas com um arsenal de “planos de guerra” que evoluíram por meio de selecção natural, a que a nossa inteligência humana se foi adicionar. …
Os nossos hábitos alimentares constituem um excelente exemplo de dançar com fantasmas. O desejo que sentimos de gordura, açúcar e sal fazia todo o sentido num ambiente em que essas substâncias eram constantemente escassas, mas pôr um restaurante com fast food em cada esquina, é como iluminar o céu da ilha para as tartarugas marinhas bebés.
Bem, isto também está em “A Evolução para Todos” de David Sloan Wilson, e pôs-me a pensar que nos últimos 30 anos, o ambiente social se alterou de tal modo, que deixou muita gente a dançar com fantasmas.
….
Nós humanos, quando somos postos numa situação completamente nova, dispomos de alguma capacidade para compreender que temos um problema e de tentar arranjar uma solução. Mas o processo mental é em muitos aspectos limitado, pois antes de possuirmos inteligência humana éramos mamíferos e primatas com um arsenal de “planos de guerra” que evoluíram por meio de selecção natural, a que a nossa inteligência humana se foi adicionar. …
Os nossos hábitos alimentares constituem um excelente exemplo de dançar com fantasmas. O desejo que sentimos de gordura, açúcar e sal fazia todo o sentido num ambiente em que essas substâncias eram constantemente escassas, mas pôr um restaurante com fast food em cada esquina, é como iluminar o céu da ilha para as tartarugas marinhas bebés.
Bem, isto também está em “A Evolução para Todos” de David Sloan Wilson, e pôs-me a pensar que nos últimos 30 anos, o ambiente social se alterou de tal modo, que deixou muita gente a dançar com fantasmas.
Entendo a discussão em torno dos novos paradigmas morais, mas ignorar o conhecimento e as funcionalidades técnicas actuais, é correr inexoravelmente para o tal buraco, por mais apoios sociais que a sociedade em determinado tempo possa oferecer.
sábado, 12 de setembro de 2009
O Sr. Elisiário

O sr. Elisiário era Polícia, mas quis o destino que, na década de 1950, o governo exigisse a 4ª classe a quem se quisesse manter na profissão, e o Sr. Elisiário enfrentou aquele mar de dificuldades (ler e escrever sem erros, matemática, ciências naturais, geografia e História de Portugal), a meio da vida, para manter o ganha-pão.
No exame final, suava afluentes, linhas de caminho de ferro e cognomes de reis, mas, nesse dia, a sorte estava nos vertebrados.
- Então Sr. Elisário, o que é o Homem?, e o pobre olhava especado, incapaz de uma palavra.
E a professora complacente, a empurrá-lo para a resposta.
- Então Sr. Elisário, o que é o Homem?, e o pobre olhava especado, incapaz de uma palavra.
E a professora complacente, a empurrá-lo para a resposta.
- Então? Se o homem é um animal que mama quando pequeno, o que é que ele é?
O Sr. Elisiário, depois de um longo minuto, arrisca: - Ma…mão?
- Mamão!!?? Não Sr. Elisário!, não é mamão. É um Ma…mi…
E o Sr. Elisário agradecido, com os olhos muito abertos, a sintonizar-se com a ajuda:
- jão?
O Sr. Elisiário, depois de um longo minuto, arrisca: - Ma…mão?
- Mamão!!?? Não Sr. Elisário!, não é mamão. É um Ma…mi…
E o Sr. Elisário agradecido, com os olhos muito abertos, a sintonizar-se com a ajuda:
- jão?
sexta-feira, 11 de setembro de 2009
Jacqueline du Pré
Jacqueline du Pré (1945 - 1987) - uma das maiores intérpretes do violoncelo. Nasceu em Oxford, Inglaterra. Deixou de tocar aos 28 anos quando adoeceu com Esclerose Múltipla. Morreu aos 42 anos.
Du Pré tocava dois violoncelos Stradivarius. Casou com Daniel Barenboim
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
A Reforminha

- Então Sr. Horácio, mandaram-no cá outra vez pelo mesmo motivo. Você fez o tratamento há dois anos e agora volta tudo a estar positivo!
- É, Sr. Dr.! Parece que dá sífilis outra vez!
- E você continua na mesma vida, ou agora os anos já não lhe puxam tanto para o desatino?
- Oh Dr. é menos, mas ...
- E a sua mulher sabe?
- Deus me livre! Se ela soubesse, então é que se matava mesmo, que ela, desde que lhe tiraram a reforma, anda à força de comprimidos! ... Já foi três vezes à Junta Médica, mas como é muito nervosa, começa a tremer e não sabe o que diz, e eles ... botam-na abaixo! ... É que ela esteve 840 dias de baixa profissional, 953 de baixa normal e agora, por causa do governo, tiram-lhe a reforma!
- E vocês vivem com quê?
- Eu tenho a reforma de França, uns 600 Euros, que são para os meus medicamentos e pouco mais, e ela agora não tem nada! Eu ainda quero ver de quem vai ser a culpa! ... Vai ser de rir, se um dia eu chego a casa e a encontro morta!
quarta-feira, 9 de setembro de 2009
Psiquiatrices

- Oh Edgar! Ainda bem que chegaste! Vais ajudar-me, que hoje eu tive tanto que fazer de manhã, que mal vi os doentes que me passaram, por estarem sempre novos a chegar.
Isto de haver dias sem Psiquiatria durante as férias, é um imbróglio para o Chefe de Equipe, que tem de os avaliar para ver se a doença justifica uma transferência para o Porto!
Tu és novo nisto e não te faz mal nenhum abordar este, que vem acompanhado de dois guardas. Parece que fez uma tentativa de suicídio. Foi encontrado na auto-estrada pendurado numa ponte. Vê-o já, está bem?
- OK! Onde é que ele está?
- Está lá à frente na sala do Chefe de Equipe com os dois guardas!
… … … …
- Então já o viste? Conta!
- O homem está apanhado! Esteve sempre a querer levantar-se para espreitar à porta, porque dizia que estava à espera de um amigo que levara uns tiros de caçadeira, e foi difícil convencê-lo a contar o que se tinha passado. Ele diz que não se queria matar, ... "estava a fugir para se salvar".
- OK! Onde é que ele está?
- Está lá à frente na sala do Chefe de Equipe com os dois guardas!
… … … …
- Então já o viste? Conta!
- O homem está apanhado! Esteve sempre a querer levantar-se para espreitar à porta, porque dizia que estava à espera de um amigo que levara uns tiros de caçadeira, e foi difícil convencê-lo a contar o que se tinha passado. Ele diz que não se queria matar, ... "estava a fugir para se salvar".
- Ah, é? Continua!
- Segundo ele, havia lá na terra um lavrador de quem ele não gostava. Então "inventou" um comando que virava os carros ao contrário e os dobrava, e pôs-se na estrada com o amigo à espera que ele aparecesse. Quando ele ia a passar, accionou o comando, só que o homem quando sentiu o carro a torcer-se, parou e foi buscar a caçadeira ao porta-bagagem e desatou aos tiros. Ele fugiu, e nunca mais viu o amigo que deve ter ficado ferido, e era por causa disso que estava sempre a espreitar a ver se o via chegar. Depois foi pendurar-se do lado de fora da ponte, porque se ele viesse para o matar, ele não deixava ... "porque se matava primeiro"!
- OK! Esse vai já para o Porto! Obrigado!
- OK! Esse vai já para o Porto! Obrigado!
terça-feira, 8 de setembro de 2009
Aprender com Shakespeare

Eu aprendi... que ter uma criança adormecida nos braços, é um dos momentos mais pacíficos do mundo;
Eu aprendi... que ser gentil, é mais importante do que estar certo;
Eu aprendi... que eu sempre posso fazer uma prece por alguém, quando não tenho a força para ajudá-lo de alguma outra forma;
Eu aprendi... que não importa quanta seriedade a vida lhe exija, cada um precisa de um amigo divertido para nos alegrar;
Eu aprendi... que algumas vezes, tudo o que precisamos, é de uma mão para segurar e um coração para nos entender;
Eu aprendi... que os passeios simples com meu pai, nas noites de verão, quando eu era criança, fizeram maravilhas quando me tornei adulto;
Eu aprendi... que deveríamos ser gratos a Deus por não nos dar tudo que lhe pedimos;
Eu aprendi... que dinheiro não compra "classe";
Eu aprendi... que são os pequenos acontecimentos diários, que tornam a vida espectacular;
Eu aprendi... que debaixo da "casca grossa" existe uma pessoa que deseja ser apreciada, compreendida e amada;
Eu aprendi... que Deus não fez tudo num só dia; o que me faz pensar que eu possa?
Eu aprendi...que ignorar os factos, não os altera;
Eu aprendi... que quando planeio nivelar-me com alguém, apenas estou permitindo que essa pessoa me continue a magoar;
Eu aprendi...que o AMOR, e não o TEMPO, é que cura todas as feridas;
Eu aprendi...que a maneira mais fácil para eu crescer como pessoa, é cercar-me de gente mais inteligente do que eu;
Eu aprendi... que cada pessoa que a gente conhece, deve ser saudada com um sorriso;
Eu aprendi...que ninguém é perfeito, até nos apaixonarmos por essa pessoa;
Eu aprendi...que a vida é dura, mas eu sou mais ainda;
Eu aprendi... que as oportunidades nunca são perdidas; alguém vai aproveitar as que você perdeu;
Eu aprendi... que quando o ancoradouro se torna amargo, a felicidade vai aportar noutro lugar;
Eu aprendi... que devemos sempre ter palavras doces e gentis, pois amanhã talvez tenhamos que engoli-las;
Eu aprendi... que um sorriso é a maneira mais barata de melhorar sua aparência;
Eu aprendi... que não posso escolher como me sinto, mas posso escolher o que fazer a esse respeito;
Eu aprendi... que todos querem viver no topo da montanha, mas toda felicidade e crescimento ocorre quando você a está escalando;
Eu aprendi... que só se deve dar conselho em duas ocasiões: quando é pedido ou quando é caso de vida ou morte;
Eu aprendi... que quanto menos tempo tenho, mais coisas consigo fazer.
As coisas que já se sabiam naquela época. Shakespeare (1564 to 1616).
segunda-feira, 7 de setembro de 2009
A beleza das frases

- Disseste que escrever é um prazer. Também disseste que é um sofrimento. Em que ficamos?
- As duas coisas são verdade. Quando estava a começar, quando estava a descobrir o ofício, era um acto alvoroçado, quase irresponsável. Naquela época, lembro-me, depois de acabar o meu trabalho no jornal, pelas duas ou três da madrugada, era capaz de escrever quatro, cinco, até dez páginas de um livro. Uma vez, de uma só assentada, escrevi um conto.
- E agora?
- Agora considero-me feliz se posso escrever um bom parágrafo num dia. Com o tempo, o acto de escrever transformou-se num sofrimento.
- Porquê? Dir-se-ia que com o maior domínio que tens do ofício, escrever deveria ser mais fácil.
- O que acontece simplesmente é que vai aumentado o sentido de responsabilidade. Temos a impressão de que cada letra que escrevemos tem agora uma ressonância maior, que toca muita mais gente.
.....…
Gabriel Garcia Máquez / Plínio Apuleyo Mendoza in
“O Aroma de Goiaba” (1982)
Sei muito bem, e tristemente, que a cultura das letras começa a desaparecer e está condenada. Mas não deixo de lamentar que o prazer de uma frase, de um parágrafo ou de uma vírgula maléfica se percam para sempre.
…......
Vasco Pulido Valente in "Público" 06/09/2009
Hoje, depois de escrever dez horas seguidas e sentindo-me cansado demais para continuar, levantei-me da mesa e tirei um livro da estante do corredor. Calhou ser Dickens, numa edição barata da Wordsworth. Tempos Difíceis. Abri-o onde resolveu abrir-se e apareceram quatro linhas mágicas: um filho visita a mãe, velha e muito doente. Pergunta
- Sente dores, mãezinha?
e ela responde
- Tenho ideia que anda uma dor por aí mas não estou certa de me pertencer
e fiquei parvo com isto. Entre parênteses adoro ficar parvo com o que os outros escrevem: só costumo ficar parvo comigo, a interrogar-me de onde é que aquilo saiu, porque não foi de mim com certeza, de maneira que penso que a mão de um anjo substituiu a minha. Tenho ideia que anda uma dor por aí mas não estou certa de me pertencer é uma pérola única. Igual à vida: quantas vezes senti isto, sinto isto, sem ser capaz de o exprimir. As dores que me pertencem são fáceis, as que não estou certo de me pertencerem custam tanto. Viro-as para um lado e para o outro, estudo-as contra a luz, experimento-lhes o cheiro, a consistência, a cor e a dúvida perpétua
- Pertence-me?
……….
António Lobo Antunes in Visão nº 861 – 3 a 9 de Setembro de 2009
O binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo.
O que há é pouca gente para dar por isso.
óóóó — óóóóóóóóó — óóóóóóóóóóóóóóó
(O vento lá fora).
...........
Álvaro de Campos (Fernando Pessoa) - 1944
domingo, 6 de setembro de 2009
Escolas

"A relação geral dos alunos relativamente ao saber é de rejeição. A ideia do professor como alguém que abre as portas para o mundo acabou ou está em vias de acabar. Isto tem de ser restaurado!".
José Gil – “PÚBLICO” 29.05.2009
José Gil – “PÚBLICO” 29.05.2009
sábado, 5 de setembro de 2009
Os Mouros

Em 711 DC, com a invasão da península pelos mouros, o árabe foi adaptado como língua administrativa nas regiões conquistadas. Contudo, a população continuou a falar latim vulgar.
Logo que os mouros foram expulsos e se formou Portugal (conquista de Faro em 1249), verificou-se que a influência exercida pelo árabe na língua foi pequena.
O português moderno tem ainda no seu léxico cerca de 600 palavras de origem árabe, especialmente relacionadas com os alimentos e com a agricultura, devido às técnicas e objectos que trouxeram, o que não tem equivalente noutras línguas latinas.
São fáceis de identificar porque muitas começam por al. - Almofada (al + mohada), noutras este prefixo não é tão evidente Azeitona (al + ceitun).
Muitas já entraram em desuso, porque as novas tecnologias as tendem a substituir: Azenha (moinho de roda movido por água), Alcatruz (cada um dos vasos que tiram a água da nora), Picota (engenho ou cegonha para elevar água), Almocreve (recoveiro condutor de bestas de carga), Almoxarife (feitor de propriedade real), Alqueire, Açoteia (terraço para recolha de chuva a ser conduzida para depósitos ou cisternas),
…outras resistem: Açude (presa feita em rio ou levada para desviar água para moinhos ou outros usos), Levada (canal construído para conduzir água), Nora, Alicerce, Tapete, Alfaiate, Alicate, Azulejo, Aldraba,
…mas, para além da toponímia (Almada, Alcântara, Algarve, Alfandega, Arsenal…), são os produtos do campo que se integraram mais fortemente na nossa língua (Laranja, Limão, Alcachofra, Alface, Açúcar, Abóbora, Acepipe, Algodão, Açucena, Javali).
De menos conhecida origem: Refém, Aldeia, Arrabalde. Os adjectivos (Mesquinho e Baldio) e uma preposição (Até).
Também lhes devemos a numeração em algarismos que hoje utilizamos, e que substituíram a numeração romana, e a introdução do Zero (0)
São fáceis de identificar porque muitas começam por al. - Almofada (al + mohada), noutras este prefixo não é tão evidente Azeitona (al + ceitun).
Muitas já entraram em desuso, porque as novas tecnologias as tendem a substituir: Azenha (moinho de roda movido por água), Alcatruz (cada um dos vasos que tiram a água da nora), Picota (engenho ou cegonha para elevar água), Almocreve (recoveiro condutor de bestas de carga), Almoxarife (feitor de propriedade real), Alqueire, Açoteia (terraço para recolha de chuva a ser conduzida para depósitos ou cisternas),
…outras resistem: Açude (presa feita em rio ou levada para desviar água para moinhos ou outros usos), Levada (canal construído para conduzir água), Nora, Alicerce, Tapete, Alfaiate, Alicate, Azulejo, Aldraba,
…mas, para além da toponímia (Almada, Alcântara, Algarve, Alfandega, Arsenal…), são os produtos do campo que se integraram mais fortemente na nossa língua (Laranja, Limão, Alcachofra, Alface, Açúcar, Abóbora, Acepipe, Algodão, Açucena, Javali).
De menos conhecida origem: Refém, Aldeia, Arrabalde. Os adjectivos (Mesquinho e Baldio) e uma preposição (Até).
Também lhes devemos a numeração em algarismos que hoje utilizamos, e que substituíram a numeração romana, e a introdução do Zero (0)
sexta-feira, 4 de setembro de 2009
O Flogisto

A teoria do flogisto foi desenvolvida pelo químico e médico alemão Georg Ernst Stahl (1659-1734).
Segundo Stahl os corpos combustíveis possuiriam uma essência (flogisto), que se libertava para o ar durante os processos de combustão (material orgânico) ou de calcinação (metais). Quanto mais combustível fosse um material, mais flogisto libertaria.
Segundo Stahl os corpos combustíveis possuiriam uma essência (flogisto), que se libertava para o ar durante os processos de combustão (material orgânico) ou de calcinação (metais). Quanto mais combustível fosse um material, mais flogisto libertaria.
A absorção dos flogistos do ar seria feita pelas plantas.
"Flogisto" vem do grego e significa "inflamável", "passado pela chama" ou "queimado".
Esta teoria foi aceite na comunidade científica, porque permitia explicar vários fenómenos, como a perda de massa na combustão de um material (por perda de flogisto), a impossibilidade de um combustível arder sem a presença de ar (porque o ar é necessário para absorver o flogisto libertado), o término de uma combustão e a morte de um animal pequeno num recipiente fechado (ambos devido à saturação do ar com flogisto), mas não explicava porque é que o resíduo metálico (sem flogisto) pesava mais do que o metal donde é originado.
Em 1789, Lavoisier identificou o princípio vital da combustão e da calcinação, que baptizou de oxigénio.
Agora não se fala de flogisto mas todos os produtos de herbanária e cosmética do Sândalo à Camomila, estão impregnados de propriedades antiflogísticas, antidepressivas, anti-sépticas, afrodisíacas, antiespasmódicas, carminativas, calmantes, cicatrizantes, tónicas, emolientes, refrescantes, antialérgicas...
Na Medicina raramente se usa a palavra antiflogístico como sinónimo de anti-inflamatório, ou flogístico como inflamado.
Calcinação é o aquecimento ao rubro de uma substância da qual se pretendia eliminar, queimando-as, as matérias orgânicas, usando temperaturas da ordem de 1000°C, mas quando se aplica a metais ou rochas pode-lhes alterar a composição e a densidade, para mais ou para menos.
quinta-feira, 3 de setembro de 2009
Epidemias - Fogo de Santo António - Ergotismo

Na Idade Média, o Pão de Centeio, era o pão do norte da Europa. O milho, ainda não tinha vindo da América e o trigo, uma cultura mais exigente, só no sul era rentável.
Um fungo – Claviceps purpurea, infectava-o frequentemente, dando o aspecto de pequenas tachas cravadas nas suas espigas – a cravagem.
Este fungo produz alcalóides vasoconstritores e psicotrópicos que, quando ingeridos, podem causar convulsões, alucinações, gangrena das extremidades e morte.
De vez em quando, surgia uma destas epidemias que afectava pessoas e animais e era o divino que as tentava explicar – “o fogo santo”. 

Rapidamente uma Ordem Religiosa se diferenciou no seu tratamento, sem no entanto impedir que alguns acabassem nas fogueiras acusados de bruxaria, por não lhes entenderem as alucinações!
As peregrinações a Santiago melhoraram muitos, porque na península ibérica o pão era de trigo e mesmo o de centeio (por não haver condições para o crescimento do fungo), não tinha tanta maleita.
Agora, habituamo-nos a ver morrer um aqui e outro ali, habitualmente velhos, e quase sempre com hora marcada. -“Sr. Doutor! É coisa para quanto tempo?”, e o médico balbucia um prognóstico vago de semanas ou meses.
Nas epidemias não há estes rendados. A imprevisibilidade é a regra. É que Deus, nestas alturas, anda mais por uns lados que por outros!
quarta-feira, 2 de setembro de 2009
Fátima
Fátima era a filha mais nova de Maomé. Casou com Ali, num casamento infeliz, mas foi a única das filhas do Profeta que teve descendência,
Fátima é alvo de veneração pelos muçulmanos, em particular pela minoria (~10%) xiita, que lhe atribue o título de "a Resplandecente". Por isso o nome Fátima é muito comum entre as mulheres muçulmanas, e a memória dela presente em objectos de uso corrente, como talismã.
A Hamsá - ou Mão de Fátima, é representada por uma mão com um olho no meio, e supostamente protege contra o mau olhado.
A Mão de Fátima colocada nos batentes das portas, dá sorte.
O professor Moisés Espírito Santo, no seu livro "Os Mouros Fatímidas e as Aparições de Fátima", afirma que a região portuguesa de Fátima e os seus arredores está impregnada, no inconsciente colectivo, por uma cultura herdada do tempo da facção fatímida dos mouros, que, na época, relatavam a visão de uma senhora de luz que consideravam ser Fátima, a filha de Maomé.
Fátima é alvo de veneração pelos muçulmanos, em particular pela minoria (~10%) xiita, que lhe atribue o título de "a Resplandecente". Por isso o nome Fátima é muito comum entre as mulheres muçulmanas, e a memória dela presente em objectos de uso corrente, como talismã.

A Hamsá - ou Mão de Fátima, é representada por uma mão com um olho no meio, e supostamente protege contra o mau olhado.

A Mão de Fátima colocada nos batentes das portas, dá sorte.
O professor Moisés Espírito Santo, no seu livro "Os Mouros Fatímidas e as Aparições de Fátima", afirma que a região portuguesa de Fátima e os seus arredores está impregnada, no inconsciente colectivo, por uma cultura herdada do tempo da facção fatímida dos mouros, que, na época, relatavam a visão de uma senhora de luz que consideravam ser Fátima, a filha de Maomé.
terça-feira, 1 de setembro de 2009
Meninas vamos para a Escola!
-Oh Fátima! Como é que dizes que se chama esta flor?
-Eu não lhe sei o nome, mas quando era pequena, chamavamos-lhe: "Meninas vamos para Escola", porque ela só aparecia nessa altura!
-É engraçado, porque então a aulas começavam a 7 de Outubro! Será que ela se está a adaptar à antecipação do período escolar?
Subscrever:
Mensagens (Atom)
