sexta-feira, 31 de julho de 2009

Pessoa























Cruzou por mim, veio ter comigo, numa rua da Baixa
Aquele homem mal vestido, pedinte por profissão que se lhe vê na cara,
Que simpatiza comigo e eu simpatizo com ele;
E reciprocamente, num gesto largo, transbordante, dei-lhe tudo quanto tinha
(Excepto, naturalmente, o que estava na algibeira onde trago mais dinheiro:
Não sou parvo nem romancista russo, aplicado,
E romantismo, sim, mas devagar...).

……………

Gosto assim! Truncado! Porque me deprimem os versos de Pessoa até ao fim!
Assusta-me toda aquela marginalidade, aquele “ir contra a corrente por necessidade”.
Prefiro retirar "as pérolas" do tecido áspero onde as pôs!

Não que lhe tire razão ou lucidez, mas ao abismo para onde nos leva, prefiro aquele em que combate.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

O Elefante Branco


-"Olha lá: Dizes que vais receber um elefante branco, e já mo estás a endossar. Lembra-te da história. És tu que terás de viver com ele!"

Esta expressão, tem origem num costume asiático praticado na Índia e na Tailândia.
Quando um cortesão caía no desagrado do seu monarca este, às vezes, oferecia-lhe um belo elefante branco. O que parecia um presente grandioso, vinha a revelar-se uma dor de cabeça para quem o recebia. O elefante, por ser sagrado, só podia ser usado pelo próprio rei, não podia ser usado para o trabalho, nem participar em festas privadas do presenteado.
Ainda por cima, o cortesão teria de lhe dar abrigo magnificente, alimentá-lo opulentamente e ter ao seu serviço dispendiosos cornacas que o deviam tratar como um animal de luxo.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Tentativa de Suicídio




-“Tansinha! O que é que tu fazes aqui, toda chorosa, deitada nesta maca no meio do corredor!”, pergunta-lhe, ao deparar-se com a companheira de trabalho, naquele Serviço de Urgência. “O que se passou, rapariga?”
-“Fui eu que tomei uns comprimidos para me matar!”
-“Para te matares?”, questiona-a incrédulo, –“Tu, com o comboio a passar de meia em meia hora à porta de tua casa, foste gastar dinheiro em comprimidos?”.
E assim a deixou, mergulhada nas lágrimas de uma paixão fugidia.


terça-feira, 28 de julho de 2009

Uma Horta


Como é bom ter uma horta.
Regá-la diariamente, enquanto se programa o trabalho de amanhã.
Estar atento a toda a bicharada que se aproveita do nosso trabalho, desde as lagartas nas couves, às toupeiras nas cenouras, e antecipar adubos e tratamentos.
Mais o cavar, o sachar, o estacar, o atar, o apanhar e o limpar.
...

E saber que há supermercados … para as ineficiências!

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Fazer tijolo


"Fazer tijolo" tem uma história.

Em linguagem comum quer dizer – “estar morto, sepultado”
"A sua origem vem, segundo se diz, do velho cemitério mouro que existiu para as bandas de Olarias, Bombarda e Forno do Tijolo em Lisboa. O almacáver, isto é, o cemitério mourisco, alastrava-se numa grande extensão por toda a encosta, lavado de ar e coberto de arvoredo.
Após o terramoto de 1755, quando começou a edificação da cidade, todo o barro era pouco para as construções e daí o aproveitar-se todo o que aparecesse. O cemitério árabe foi tão amplamente explorado que, de mistura com a excelente terra argilosa, iam também ossadas para fazer tijolo"
. in " A vida misteriosa da palavras" de Gomes Monteiro e Costa Leão


Se, daqui a uns 400 anos, alguém entrasse por um dos nossos cemitérios numa fúria construtiva semelhante, iria deparar com material protésico de alto valor, já que muitos deles integram metais nobres como o Cobalto, Molibdénio, Titânio e Platina, que rapidamente os converteria numa mina a céu aberto.

É que, no Ocidente industrializado, poucos são os que vão para baixo da terra sem que lhes seja acrescentado uma prótese, um pace maker ou um stent.

domingo, 26 de julho de 2009

Coros para educar



What sweeter music can we bring
than a carol for to sing
the birth of this our heavnly king.
Awake the voice, awake the string.
Dark and dull night fly hence away
and give the honor to this day
that sees december turn'd to may.
That sees december turn'd to may.
Why does the chilling winters morn
smile like a field beset with corn?
or smell like a meadow newly shourn.
Thus on the sudden come and see.
The cause why things thus fragrent be.
Tis' he is born who's quickening

birth gives life and lustre public mirth
to heaven and the under earth.
We see him come and know him ours

who with his sunshine and his show'rs
turns all the patient ground to flowers.
Turns all the patient ground to flowers.
The darling of the world is comeand

fit it is we find a room to welcome him.
to welcome him.

The nobler part of all the house here is the heart
Which we will give him and bequeath,
this hol-ly and this ivy wreath.
To do him honor who's our king
and Lord of all this reveling


Espanta-me o profissionalismo destes miúdos.

John Rutter - Compositor e maestro, nasceu em Londres em 1945. Coro do King's College Cambridge - 2008

sábado, 25 de julho de 2009

Medicina Baseada na Indolência


Não era nem mau homem, nem mau colega, era grande como o bigode que lhe comia as palavras das anedotas com que gostava de se presentear. “Sabes a última?” e contava enquanto ria, atordoando os ouvintes.

Se as paixões o forçavam, surgia a altas horas para fingir que fazia, mas era a luz do dia que o traía a distribuir o afecto.

Estudava mais roteiros turísticos que a sua arte, pois eram a História, a comida e as tertúlias que lhe davam razão ao estar.
Vivia numa auto-imposta pré-reforma, e praticava uma Medicina Baseada na Indolência.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

A Banda da Salvada


Não sei se foi verdade, mas conto esta história há mais de 40 anos, com os retoques que naturalmente lhe fui acrescentando.

A cena passa-se em Beja e numa aldeia das suas imediações – Salvada, na primeira metade do século XX.

Há um senhor que é informado que o mestre da Banda de Música da Salvada anda “enrolado” com a sua esposa. Não sabe quem ele é, e decide ir àquela aldeia assistir ao ensaio da Banda, para aí o poder identificar e “tirar de esforço”.
Entra sorrateiro e pergunta a um do grupo: “Quem é o mestre da banda?”.
Só que é identificado como alguém que quer saber o que não deve, e é-lhe dada a resposta:
“Aqui, não há mestre! Aqui, cada um toca o que sabe!”

A frase ficou, e eu uso-a quando vejo qualquer equipe funcionar sem respeito pelas hierarquias e pelas funções.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Construção Civil


O Sr. Soeiro tinha um Alvará de Construção Civil.
O Sr. Soeiro tinha a 4ª classe, carro de alta cilindrada e vestia-se a rigor.
O Sr. Soeiro já tinha construído casas e sentia que tinha obra feita.
O Sr. Soeiro até tinha feito obra para um médico, facto que lhe dava qualidade.
O Sr. Soeiro ia à missa aos domingos e ajudava a festa da freguesia.
O Sr. Soeiro aventurou-se numa obra com arquitecto e envaideceu-se.
O Sr. Soeiro a meio da obra já corrigia o projecto.

É que o Sr. Soeiro gostava de "imitir o intigo".

quarta-feira, 22 de julho de 2009

No Tribunal.


-Também cá estás?
-Queres ver que fomos chamados todos outra vez?
-É garantido! Ali está C e ali D!
-Estes gajos não sabem trabalhar. Tratam-nos como se andássemos todos de costas ao alto!

O Processo é de 2003, entre audiências e adiamentos, esta é a sétima vez que aqui vimos, para dizer o que já dissemos, umas vezes no Juízo Cível, outras no Criminal.

-É o que acontece quando os malucos andam à solta! Quem paga é quem tem juízo!
-Não é bem assim! Maluca só há uma, e essa já morreu! Os outros andam a safar-se!

Recapitulemos:
A Sra. Balbina era esquizofrénica de longa data. Vivia sozinha e recusara qualquer tratamento. Um dia foi encontrada inanimada por vizinhos e levada para o Hospital em coma diabético. Recuperou e, por continuar a recusar viver com a família, foi-lhe assegurado apoio domiciliário com uma sua antiga aluna. Manteve a recusa da medicação e entrou no SU do Hospital várias outras vezes com graves descompensações da doença.
Da última vez, teve alta já com grande degradação. Estava acamada, tinha escaras e mal respondia à voz. Morreu dias depois.
Mas … antes de morrer, pôs a impressão digital num documento que alterava o seu testamento em favor da cuidadora.
E aqui, é que está o problema.

A doente tem diagnóstico clínico de esquizofrenia e, mesmo que o não tivesse, todo o seu comportamento nos últimos 10 anos o apoia.

A tentar safar-se:
1: A Cuidadora que pensa que alguém que sabe escrever, que está na plena posse das suas faculdades mentais e sem qualquer défice motor identificado, autentica um documento com uma impressão digital.
2: O Notário que dá cobertura a uma cena destas.
3: O Tribunal, que vai vivendo com estas questiúnculas, e evita assim lidar com casos complexos.
4: Os Advogados, para quem casos como este, são a galinha dos ovos de ouro, que os transforma nos verdadeiros herdeiros.

E os quatro médicos chamados a depor, mais as 15 testemunhas, a assistir à divisão do bolo da herança.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Loucos à solta - O fim dos Manicómios


A prática de retirar os doentes mentais do convívio social para colocá-los num lugar específico tem origem na cultura árabe, datando o primeiro hospício conhecido do século VII.
Os primeiros hospícios europeus são criados no século XV e proliferam no século XVII. Abrigam juntamente os doentes mentais e marginalizados de outras espécies. O tratamento disponibilizado nestas instituições era desumano, sendo considerado pior do que o recebido nas prisões.
O termo Manicómio surge no século XIX para designar mais especificamente o Hospital Psiquiátrico, já com a função de dar um atendimento médico sistemático e especializado.

Philippe Pinel (1745-1826), influenciado pelos ideais da Revolução Francesa inicia a abordagem da questão dos "loucos" como um assunto médico-científico, sem contudo mudar a prática dos tratamentos que se mantiveram fundamentados no conceito de que um "choque" que fizesse o doente passar por uma sensação intensa, o poderia tirar do seu estado de alienação. Eram correntes as práticas de sangria, de isolamento em quartos escuros, de banhos de água fria, além dos aparelhos que faziam com que o paciente rodopiasse em macas ou cadeiras durante horas para que perdesse a consciência.
Com Freud (1856 – 1939) e a psicanálise, com os Psicofármacos (de 1950 em diante) e o desenvolvimento dos recursos de diagnóstico, dá-se o esvaziamento progressivo dos macro-hospitais psiquiátricos – os Manicómios.

Em meados do século XX surgem movimentos que apontam críticas ao atendimento dispensado nos Hospitais Psiquiátricos, acusando-os de promoverem isolamento, reclusão, abandono, estigmatização e tratamentos inadequados, elementos propiciadores de um percurso institucional cronificante, e propõem um atendimento que garanta a sua dignidade, enquanto cidadãos.

Usa-se uma nova linguagem: “atender às necessidades do cidadão portador de um sofrimento psíquico, num tratamento mais humanizado, mais socializante, mais solidário e mais eficaz, visando as suas relações familiares, de trabalho e também assistenciais, de forma a melhor inseri-lo no seu meio, oportunizando mais espaços de socialização e de recuperação das suas potencialidades, reabrindo a sua comunicação na família e no seu ambiente social, trazendo a ele um sentido mais significativo de existência".

Em Portugal, a Lei de Saúde Mental, Lei n.º 36/98, de 24 de Julho, dá as orientações para as mudanças ideológicas, estruturais e políticas.

Só que, quando as estruturas de saúde e assistenciais não tem recursos para lhes bastar, todas aquelas palavras bonitas ficam no papel, enquanto as famílias desesperam.

domingo, 19 de julho de 2009

Eu sei a mulher que tenho!























- Sr. Firmino! As suas análises, não estão bem! Aqui há indícios de que você continua a beber!
- Sr. Dr., é só uma taça de longe em longe! Só se foi de uma cerveja gelada que eu bebi no domingo anterior às análises!
- Mas havia de ser uma grande cerveja para causar tanto estrago, Sr. Firmino!

Não tinha jeito. Numa fraqueza condescendera em ir ao médico. Com pouco mais de 40 anos, era a mulher que lhe fazia tudo, desde o trabalho da casa ao negócio do Café, enquanto ele passeava de mesa em mesa ou fazia pequenos recados.

- “Oh Sr. Firmino, você nem se entretém com o trabalho! Assim a sua mulher não aguenta!”
- “Aguenta sim Sr. Dr.! Eu sei a mulher que tenho!”
- “Aguenta agora! Olhe que ela não é de ferro. Um dia cansa-se, e vocês ficam sem o sustento!”
-“Oh Sr. Dr. Não cansa nada! Eu sei a mulher que tenho!”
- “Mas olhe que se não cansa, farta-se de si e deixa-o!”
- “Não deixa nada Sr. Dr.! Eu sei a mulher que tenho!”

E ela com os olhos baixos, sem conseguir enfrentar aqueles 40 Kg de homem.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Panis Angelicus




St. Philips Boys' Choir, Norbury, UK. Gravado em Julho de 1987. Solistas Jaymi Bandtock e Sam Harper.
Texto em Latim de Tomás de Aquino (1227-1274), e música de Cesar Franck (1822-1880)

Panis angelicus fit panis hominum;
Dat panis coelicus figuris terminum:
O res mirabilis!
Manducat Dominum
Pauper, pauper, servus et humilis.
Pauper, pauper, servus et humilis.


Pão dos anjos que se torna o pão da humanidade!
Pão do céu que é o fim de todos os desejos.
Oh, coisa maravilhosa!
Este corpo de Deus irá alimentar
Até os servos mais pobres e humildes!

Para mim o Pão do Céu é o Conhecimento Estruturado. É ele que irá salvar os pobres e os simples dos abusos e prepotências.
Mas para isso, é necessário que as novas Catedrais sejam as Escolas e os Bispos os Professores.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Esquizofrenia Residual


- “Não me interne ... Sr. Dr.!” , dizia com voz entaramelada a envolver-me num hálito adocicado de cuba vazia.
- “É estigmatizante para mim, ... Sr. Dr.! ... Ficar aqui ... não se faz, ... é coarctar a liberdade das pessoas, ... Sr. Dr.!
E eu a escrever os tópicos dos seus 15 anos de esquizofrenia e alcoolismo, ditados pela sua mãe, enquanto ele, inquieto, arrastava os pés pelo consultório:
-“Ficar aqui, ... à beira dos tolos, ... Sr. Dr.?! Deixe-me ir embora! ... É que ainda por cima, ... esqueci-me do tabaco, ... Sr. Dr.!”
...
-“Então a Sra. foi visitá-lo a casa, e encontrou-o em coma?, e ele a interromper, enfastiado e pastoso: - Oh mãe! ... Em coma? Mãe?! ... Eu só bebi duas taças, Mãe!

Vive só, tem uma pensão de invalidez. Estudou Direito. Nos 3 últimos anos veio 40 vezes ao Serviço de Urgência, muitas delas trazido pela Policia por desacatos.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Uma Mania


- “Ele até pode ser aquilo que você está para aí a dizer, mas não há mãos como as dele!”
- "E depois? Se a cabeça julga mal, para que lhe servem as mãos?”
Era uma conversa de surdos.

Sempre entendi que a mão obedece à cabeça e que o resultado final é um projecto desta e não um acaso daquela, mas ele insistia em se deslumbrar com a sua filigrana. Todos lembrávamos as vezes em que aquelas mãos foram decisivas, mas enquanto uns, só por isso, lhe desculpavam as loucuras, outros pesavam tudo e concluíam de modo diferente.

Para mim era um atrevido, que se aproveitava das fraquezas dos outros mas, no seu grupo, onde a irreverência fazia escola, havia quem o tolerasse, já que não se vislumbravam consequências dos seus desmandos.

- "Mas eu estou-me a entender?!" Gritava, quando sentia qualquer ameaça à sua posição, antes de se ausentar para paradeiro incerto. É que ele não estava ali para atender quem chegava. Estava ali para resolver o que mais ninguém resolvia, sem mais recursos de que a sua habilidade. Depois, assim como aparecia, desaparecia, qual Justiceiro Solitário, fumando sereno a sua cigarrilha para pasmo dos mortais.
Era ele o chefe e, como minorava as consequências, não antevia dificuldades. Também os grandes intervalos com que se presenteava lhe facilitavam a ousadia, facto que facilitava os “presentes envenenados”, com que era agraciado.
Falava-se que uma doença psiquiátrica o protegia, e antevia-se breve o fim daquela carreira. Por fim este chegou, atabalhoado, inconsistente, com negações das evidências, mas a ser suficiente para ... "uma reforma antecipada"!