quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

A vida em Alta Voz


Por prudência ou timidez, tento cumprir o lema “Low profile, high performance” (baixo perfil, alto desempenho). “Alto desempenho” é, para mim, o melhor desempenho de que sou capaz, o que me obriga a procurar um resultado que não me deixe desconfortável com a minha própria consciência, mesmo quando o custo pessoal ultrapassa o que seria razoável para muitos.

Não me seduzem elogios públicos e sinto até algum embaraço quando ouço alguém expor as suas fragilidades e erros em praça pública, ou gabar-se de vitórias individuais. São coisas que considero deverem ser guardadas para a nossa “tribo”, para o círculo de confiança. Diferente é quando falamos de vitórias integradas num esforço de equipa, onde o mérito é partilhado e o resultado é coletivo.

Mas neste novo mundo de “likes”, onde muitos se expõem na procura de uma aceitação que dê sentido à vida, surgem os influencers, sempre prontos a “vender” qualquer produto, seja ele um bem de consumo ou uma ideia. Não se coíbem, muitas vezes, de distorcer a verdade, de exagerar ou mesmo de inventar uma mentira, desde que a coisa “funcione” ou “não funcione” conforme lhes convém e lhes dê espaço de ação e visibilidade.

Quando eu andava no 7.º ano do Liceu, uma das cadeiras com prova escrita e oral no fim do ano era a OPAN – Organização Política e Administrativa da Nação. Estudava-se por um pequeno livro, com pouco mais de cem páginas. Um dia ouvi, da boca de um ou dois dos melhores alunos da turma, que “para OPAN não é preciso estudar; aquilo lê-se dois dias antes do exame e tira-se boa nota”. E eu acreditei.

Não estudei. Mas, uma semana antes do exame, peguei no livro para o “medir” e caí na realidade: memorizar as funções dos diferentes órgãos do Estado não era tarefa de dois dias. Li, reli, e segui por aí fora, angustiado, até ao dia da prova. Consegui tirar 13 valores, mas o maior ensinamento não foi a nota. Foi deixar de acreditar em quem empola capacidades e minimiza o esforço, por passar a duvidar de que o seu propósito seja apenas serem “os melhores”, mesmo que isso implique fazer os outros tropeçar.

Os influencers pertencem, muitas vezes, a essa mesma classe de ilusionistas. Usam uma linguagem apelativa, emocional e simplificadora, que leva os crentes a “entrar na onda” em benefício deles próprios. A lógica é antiga, apenas mudou o palco.

A verdade é simples:
“Quem sabe, faz. Quem não sabe, fala para as multidões.”

Ensinar exige proximidade, responsabilidade e compromisso com a verdade. Exige acompanhar, corrigir, escutar e responder. Os influencers, em regra, não ensinam: seduzem. Não formam: atraem. Não constroem: exibem.

E talvez por isso eu continue a preferir o silêncio do trabalho bem feito ao ruído da vida em alta voz.

domingo, 18 de janeiro de 2026

A Esperança - 2


Sempre me preocupou o modo como a Esperança é gerida, principalmente pelos médicos e pela religião, embora o dia de hoje esteja dominado pela sua gestão na política, com a eleição de um novo Presidente da República Portuguesa.
«Dá o que não é teu! Promete o que não tens! E... perdoa a quem não te fez mal!» — este é o lema de alguns candidatos. Outros fundamentam-se na obra feita, esquecendo uma outra máxima que diz: «Basta de realizações! Queremos promessas!»; e assim vamos indo, à espera dos resultados da primeira volta.
Entretanto, vou continuando a ler as crónicas de Rubem Braga e tropeço num texto de 1949, onde a esperança é abordada do jeito que melhor conheço: na saúde. Diz o cronista, no seu escrito intitulado «O Motorista do 8-100», que transcrevo em português de Portugal:
«É costume dizer que a esperança é a última a morrer. Nisto está uma das crueldades da vida; a esperança sobrevive à custa de mutilações. Vai minguando e secando devagar, despedindo-se dos pedaços de si mesma, apequenando-se e empobrecendo e, no fim, é tão mesquinha e despojada, que se reduz ao mais elementar instinto de sobrevivência. O homem, ou se revolta e joga a sua esperança para além da barreira escura da morte no reino luminoso que uma crença lhe promete, ou enfrenta, calado e só, a ruína de si mesmo, até ao minuto em que deixa de esperar mais um instante de vida, e espera como bem supremo o sossego da morte. Depois de certas agonias, a feição do morto parece dizer: "Enfim veio! Desta vez não me enganaram!"»

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Sobre o amor, etc.

Ouço o telefone no bolso das calças. — Está! Está! — atendo rapidamente. É a Marisa que pergunta: — Então, doutor! A que devo a honra deste telefonema?!
— É uma chamada de bolso! Desculpe se a incomodo.
— Não incomoda nada. É um gosto ouvi-lo!
E iniciamos uma conversa de amigos que raramente se encontram, depois de terem partilhado muitos meses de trabalho. É uma mulher delicada, bondosa e paciente. Um poço de bonomia, que diz, para me agradar, ter aprendido muito comigo. 
A vida separou-nos e apenas nos encontramos umas poucas horas por ano. No fim, questiona-me por que razão tenho escrito pouco neste blogue, que diz seguir regularmente, como se ele fosse um fio de união espiritual.
E, nem de propósito, hoje, num dia em que a chuva desaconselha qualquer saída, leio esta crónica que os deuses puseram na minha mão e que não resisto a transcrever. 




SOBRE O AMOR, ETC. 

Dizem que o mundo está cada dia menor.
É tão perto do Rio a Paris! Assim é na verdade, mas acontece que raramente vamos sequer a Niterói. E alguma coisa, talvez a idade, alonga nossas distâncias sentimentais.

Na verdade há amigos espalhados pelo mundo. Antigamente era fácil pensar que a vida era algo de muito móvel, e oferecia uma perspectiva infinita e nos sentíamos contentes achando que um belo dia estaríamos todos reunidos em volta de uma farta mesa e nos abraçaríamos e muitos se poriam a cantar e a beber e então tudo seria bom. Agora começamos a aprender o que há de irremissível nas separações. Agora sabemos que jamais voltaremos a estar juntos; pois quando estivermos juntos perceberemos que já somos outros e estamos separados pelo tempo perdido na distância. Cada um de nós terá incorporado a si mesmo o tempo da ausência. Poderemos falar, falar, para nos correspondermos por cima dessa muralha dupla; mas não estaremos juntos; seremos duas outras pessoas, talvez por este motivo, melancólicas; talvez nem isso.

Chamem de louco e tolo ao apaixonado que sente ciúmes quando ouve a sua amada dizer que na véspera de tarde o céu estava uma coisa lindíssima, com mil pequenas nuvens de leve púrpura sobre um azul de sonho. Se ela diz “nunca vi um céu tão bonito assim”, estará dando, certamente, sua impressão de momento; há centenas de céus extraordinários e esquecemos da maneira mais torpe os mais fantásticos crepúsculos que nos emocionaram. Ele porém, na véspera, estava dentro de uma sala qualquer e não viu céu nenhum. Se acaso tivesse chegado à janela e visto, agora seria feliz em saber que em outro ponto da cidade ela também vira. Mas isso não aconteceu, e ele tem ciúmes. Cita outros crepúsculos e mal esconde sua mágoa daquele. Sente que sua amada foi infiel; ela incorporou a si mesma alguma coisa nova que ele não viveu. Será um louco apenas na medida em que o amor é loucura.

Mas terá toda razão, essa feroz razão furiosamente lógica do amor. Nossa amada deve estar conosco solidária perante a nuvem. Por isso, indagamos com tão minucioso fervor sobre a semana de ausência. Sabemos que aqueles 7 dias de distância são 7 inimigos: queremos analisá-los até o fundo, para destruí-los.

Não nego razão aos que dizem que cada um deve respirar um pouco, e fazer sua pequena fuga, ainda que seja apenas ler um romance diferente ou ver um filme que o outro amado não verá. Têm razão; mas não têm paixão. São espertos porque assim procuram adaptar o amor à vida de cada um, e fazê-lo sadio, confortável e melhor, mais prazenteiro e liberal. Para resumir: querem (muito avisadamente, é certo) suprimir o amor.

Isso é bom. Também suprimimos a amizade. É horrível levar as coisas a fundo: a vida é de sua própria natureza leviana e tonta. O amigo que procura manter suas amizades distantes e manda longas cartas sentimentais tem sempre um ar de náufrago fazendo um apelo. Naufragamos a todo instante no mar bobo do tempo e do espaço, entre as ondas de coisas e sentimentos de todo dia. Sentimos perfeitamente isso quando a saudade da amada nos corrói, pois então sentimos que nosso gesto mais simples encerra uma traição. A bela criança que vemos correr ao sol não nos dá um prazer puro; a criança devia correr ao sol, mas Joana devia estar aqui para vê-la, ao nosso lado. Bem; mais tarde contaremos a Joana que fazia sol e vimos uma criança tão engraçada e linda que corria entre os canteiros querendo pegar uma borboleta com a mão. Mas não estaremos incorporando a criança à vida de Joana; estaremos apenas lhe entregando morto o corpinho do traidor, para que Joana nos perdoe.

Assim somos na paixão do amor, absurdos e tristes. Por isso nos sentimos tão felizes e livres quando deixamos de amar. Que maravilha, que liberdade sadia em poder viver a vida por nossa conta! Só quem amou muito pode sentir essa doce felicidade gratuita que faz de cada sensação nova um prazer pessoal e virgem do qual não devemos dar contas a ninguém que more no fundo de nosso peito. Sentimo-nos fortes, sólidos e tranqüilos. Até que começamos a desconfiar de que estamos sozinhos e ao abandono trancados do lado de fora da vida.

Assim o amigo que volta de longe vem rico de muitas coisas e sua conversa é prodigiosa de riqueza; nós também despejamos nosso saco de emoções e novidades; mas para um sentir a mão do outro precisam se agarrar ambos a qualquer velha besteira: você se lembra daquela tarde em que tomamos cachaça num café que tinha naquela rua e estava lá uma louca que dizia, etc., etc. Então já não se trata mais de amizade, porém de necrológio.

Sentimos perfeitamente que estamos falando de dois outros sujeitos, que por sinal já faleceram – e éramos nós. No amor isso é mais pungente. De onde concluireis comigo que o melhor é não amar, porém aqui, para dar fim a tanta amarga tolice, aqui e ora vos direi a frase antiga: que é melhor não viver. No que não convém pensar muito, pois a vida é curta e, enquanto pensamos, ela se vai, e finda.

Maio, 1948.

"Desculpem tocar no assunto", pertence a uma coleção de livros de grandes autores brasileiros, assumida pela editora Tinta da China.
Rubem Braga (1913 — 1990) foi um dos melhores cronistas brasileiros.

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Jantar de Natal

Chega o Natal e a festa da empresa é pretexto para o reencontro com aqueles com quem partilhámos horas boas e más, em território neutro, distendido, onde o vinho cumpre a antiga função de dissolver reservas e encurtar distâncias. Só depois chegam a comida e a dança. Para mim, que já estou aposentado, a ordem é esta. Gosto de rever os antigos companheiros de labuta, os amigos e até aqueles com quem tive desencontros. O tempo tudo alisa: os montes, as arestas, as mágoas. Quem não aprende a esquecer acaba prisioneiro do que foi e raramente alcança a serenidade. Nem todos, porém, se reconhecem neste meu estar mais recolhido. São agora raros aqueles para quem a festa ainda guarda ecos dos tempos da escassez e se atiram à comida para além do limite da prudência. Para outros, a festa também é palco para exibir a juventude — ou o que dela sobrevive — ornada de lantejoulas e músculos disciplinados em ginásios, em coreografias que oscilam entre o vigor e a sensualidade estudada. É sobretudo o feminino que aposta nessa vertente. Conversa, petisca, dança, deixando-me, observador discreto, fora daquele bando de estorninhos humanos, movendo-se em uníssono ao som das músicas da moda. Aquela ali mexe-se bem! A outra já acusa alguma rigidez! Aquela anda fora do compasso, atrasada uns milissegundos! O melhor é aquele que parece comandar o grupo: gestos largos, precisos, sem perder o ritmo ao virar-se. Já vi danças mais exigentes no YouTube, mas essas pertencem a outro campeonato. E a mente continua, imparável, a classificar, comparar, medir. Quando me dou conta, é quase meia-noite. Saio para a noite fria a pensar na fisiologia do movimento. Há no cérebro mecanismos silenciosos que explicam aquela harmonia. Os neurónios-espelho ligam percepção e acção: disparam quando fazemos um gesto e quando vemos esse mesmo gesto no corpo de outro. Permitem compreender o movimento alheio sem raciocínio consciente, como se o corpo pensasse antes das palavras. É por eles que aprendemos observando, que afinamos gestos complexos — na dança, no desporto, na cirurgia. É também por eles que sentimos com o outro e compreendemos o outro, que nos coordenamos em grupo, que nos movemos juntos sem nos tocarmos. Os bailarinos, mestres dessa gramática corporal, ativam intensamente este sistema. Não têm mais neurónios-espelho que os outros; têm-nos melhor ligados, mais eficientes, mais refinados. Um exemplo de neuroplasticidade dependente da prática. 
Os Autistas têm uma disfunção dos neurónios-espelho.
 
Os estorninhos também dançam no ar em coreografias de espanto, mas seguem outra lógica. O seu ballet nasce da rapidez do olhar, do ajuste automático à distância e à velocidade dos vizinhos. Não há intenção compreendida, nem simulação interna do gesto alheio: apenas uma ordem que emerge do caos. Nos peixes, reunidos em cardumes, entram em jogo os sensores de pressão e vibração da linha lateral. Perceção e ação estão acopladas, mas sem espelhos interiores. 
 
Volto para casa com esta ideia simples: entre a dança dos homens e a dos estorninhos e  cardumes, há uma diferença subtil, mas decisiva. Uns movem-se juntos porque se veem; os outros porque, de algum modo mais fundo, se reconhecem — sobretudo quando basta um copo a mais e uma música repetida para lhes criar a ilusão de que andamos todos no mesmo ritmo.

sábado, 6 de dezembro de 2025

Frase do dia

 


Às vezes, ... a verdade ... é aquilo com que todos concordam!

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

A Reforma e o Tédio



Nas redes sociais, quando encontro alguém da minha geração, o que mais me chama a atenção não é a exuberância das viagens nem o culto de afazeres emocionantes, mas um murmúrio quase permanente de tédio. É curioso, porque muitos desses mesmos que hoje confessam não saber como preencher os dias foram, durante anos, os que mais desejaram a reforma — exaustos da “canga” (como diria o meu avô paterno), persuadidos de que a simples libertação do trabalho seria suficiente para garantir o bem estar pleno.

Quando era adolescente, chegava regularmente a casa dos meus pais, a edição portuguesa das Selecções do Reader’s Digest. Detinha-me sobretudo nas pequenas histórias que encerravam cada artigo: episódios breves, muitas vezes anedóticos, que nada exigiam da mente mas que, unidos, ajudaram a formar o meu olhar sobre o mundo. Uma dessas histórias ficou-me para sempre.
Narrava-se que um homem morrera e  a sua alma fora acolhida no céu por um pajem de libré que, depois de se apresentar como “um seu criado”, lhe garantiu satisfazer qualquer seu capricho. O recém-chegado, surpreendido com tamanha disponibilidade, deu azo aos seus desejos mais íntimos e pediu, lascivo, uma jovem mulher num quarto sumptuoso, para os seus devaneios sensoriais.
O criado estalou os dedos e, imediatamente, surgiu a loura perfeita, submissa às suas extravagâncias. Seguiram-se horas de cupidez, longas refeições, bebidas abundantes, despertares tardios. Nos dias seguintes repetiu o programa; mais tarde, extenuado da luxúria, exigiu viagens — Roma, Paris, Hong Kong, Nova Iorque ... — e tudo lhe foi concedido. Até que, vários meses depois, cansado de tantas "facilidades", chamou o criado e pediu-lhe "qualquer coisa onde pudesse sentir o gosto de superar uma dificuldade". O pajem, num gesto cortês, respondeu que isso era impossível: Podia conceder-lhe tudo, menos uma tarefa. O homem indignou-se — “Que Céu é este, onde não se pode fazer nada?” — ao que o criado devolveu, imperturbável: “O senhor não está no Céu! Está no Inferno!.”

Compreendi muito cedo que o não ter que fazer me corrói a alma e sempre me surpreendeu a serenidade com que alguns se declaram felizes vivendo dias sobrepostos, feitos de televisão, rotinas mecânicas, numa repetição litúrgica do nada. A reforma, imaginada como um território de liberdade, transformada num espaço onde o tempo se alarga além do suportável. A vida ativa com ritmos, responsabilidades e  encontros, subitamente transmutada em horários irrelevantes, convivências escassas e a sensação de utilidade a extinguir-se.
Quarenta anos de trabalho não deixam apenas experiência: deixam hábito, estrutura mental, uma forma de se estar no mundo. Quando essa estrutura cai e se instala essa vertigem silenciosa, o cérebro, privado de desafios, perde agilidade; a memória embacia-se; o humor achata-se; a motivação desfaz-se como um músculo não exercitado.

Nada disto é inevitável. Com imaginação, disciplina e uma certa coragem é possível encontrar atividades com propósito, aprendizagem contínua, exercício adaptado e relações sociais vivas. Não é fácil nesta sociedade que não desenvolveu uma cultura de "lifelong learning". Mas essas portas existem e, para quem as atravessa, a reforma deixa de ser esse deserto monótono que vejo plasmado em tantos lugares por onde passo.

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

A Ínclita Geração


A fotografia é 1927. São irmãos. Falta o mais velho. O mais novo ainda não nasceu. Deixaram boas memórias na família e em quem com eles conviveu. Nasceram em Constância e estudaram no Porto (no Colégio da Guia), longe da casa, onde o pai (viúvo neste mesmo ano), tinha o emprego (Macedo de Cavaleiros). Nesse período, assumiram a adversidade e formaram-se com distinção. Depois, dispersaram-se por Portugal, levando soluções de norte a sul (3 Professores, 1 Engenheiro e um Tesoureiro da Fazenda Pública). Tiveram residência (temporária ou definitiva) em Viana do Castelo, Resende, Porto, Vila Nova de Gaia, Lisboa, Beja, Faro, Funchal, Luanda. Os seus filhos, chamam-lhes - a “Ínclita Geração”, por terem sobressaído pela sua educação e sabedoria.

domingo, 2 de novembro de 2025

O mapa e o território

 


“Aqueles que passaram demasiado tempo com o nariz colado aos mapas terão tendência para confundir o mapa com o território.”

Tropecei nesta frase de O Cisne Negro, de Nassim Nicholas Taleb, e ela ficou a ecoar-me. Pensei em alguns dos conflitos que vivi com a gestão do hospital onde trabalhei, sobretudo quando, por iniciativa própria, decidi conter despesas no serviço que dirigia, tentando tratar mais doentes com menos custos em medicamentos e meios complementares de diagnóstico. Era uma tentativa de eficiência, num tempo em que essa palavra soava estranha nos corredores da administração, como se o dinheiro fosse um bem inesgotável, bastando querer para poder.

Mais de uma década depois, o discurso político muda e, pela primeira vez, o governo declara querer tornar a Saúde mais eficiente, combater o desperdício, corrigir os erros de gestão.

Mas o desperdício não nasce apenas da má organização. Brota também da pressão social exercida sobre os médicos e sobre as instituições. A Saúde é, nesse aspeto, irmã da Justiça: se queremos garantir que nenhum inocente é condenado, temos de aceitar que muitos culpados fiquem impunes.
Na Medicina, se se exige erro zero, os médicos defender-se-ão com baterias de exames e terapêuticas de eficácia duvidosa, para não poderem ser acusados de “não terem feito tudo o que era humanamente possível”. O preço é alto, e não apenas financeiro: multiplica-se a iatrogenia, o dano colateral do excesso de zelo.

Recordo-me de ter alertado um gestor para o impacto negativo que determinada decisão estava a ter sobre alguns doentes. Respondeu-me, sem hesitar, que o que o preocupava era “a floresta e não as árvores”. Noutra ocasião, pediram-me silêncio quando ousei questionar os custos da ineficiência.

Talvez alguma ineficiência seja inevitável, como o ruído que acompanha qualquer sistema vivo. Mas quando ela é evidente para quem está no terreno e invisível para quem observa de um gabinete, debruçado sobre relatórios e gráficos, é sinal de que confundimos o mapa com o território.

Mas, entre o querer fazer e o fazer, vai uma grande distância. Há que contar com os lóbis — os da indústria farmacêutica, os dos médicos, os dos enfermeiros, os dos psicólogos e ainda o da Assistência Social, que usa a muleta da Saúde para amparar o desamparo em que uma parte significativa da população cai quando a velhice ou a doença a atinge.
Ter resultados neste contexto é obra, porque é ainda maior a necessidade de não confundir o mapa com o território.

domingo, 19 de outubro de 2025

Burka e Niqab

 

Dito pelo ChatGPT:

A burka (ou burqa) é uma peça de vestuário usada por algumas mulheres muçulmanas para cobrir completamente o corpo e o rosto, incluindo os olhos (que geralmente ficam por trás de uma rede ou tecido translúcido). A sua utilidade depende do contexto cultural, religioso e social em que é usada. Eis os principais aspetos:

🕌 1. Função religiosa e de modéstia

  • Em certas interpretações do Islão, especialmente em versões mais conservadoras (como entre alguns grupos no Afeganistão ou no Paquistão), a burka é vista como uma forma de cumprir o princípio da modéstia (haya), prescrito para homens e mulheres.
  • A ideia é que o corpo feminino não deve ser exibido em público para evitar “tentação” ou “olhares indevidos”.

👩‍👧 2. Identidade cultural

  • Em algumas regiões, a burka não é apenas religiosa, mas também um símbolo cultural.
    Exemplo: no Afeganistão rural, o uso é mais uma tradição social do que uma obrigação religiosa direta.
  • Pode ser vista como um sinal de respeito, honra ou estatuto familiar.

⚖️ 3. Controlo social e género

  • Noutros contextos, o uso é imposto por normas patriarcais ou leis religiosas, limitando a liberdade da mulher.
  • Por isso, é também um símbolo de debate político e feminista, representando para uns a opressão e, para outros, a escolha identitária.

🛡️ 4. Funções práticas

  • Em regiões desérticas (como o Afeganistão ou a Península Arábica), a burka protege contra o sol, a areia e o vento, funcionando também como vestuário adaptado ao clima.

 

 DITO por MIM

O uso do Niqab e da Burka, em Portugal, é totalmente desajustado, porque neste país é importante que qualquer pessoa seja facilmente identificável no espaço público, onde uma burka pode ser usada por um homem, como máscara para cometer um crime ou para esconder violência doméstica.


terça-feira, 14 de outubro de 2025

Esteios













 Os metrosíderos morreram. Repor a sebe? A opção foram os esteios e uma tarde de trabalho. Agora é esperar que as árvores que sobraram se componham.

Estou em crer que a tela colocada para impedir o crescimento das ervas daninhas  "esganou" os troncos e matou as árvores. 
O próximo passo: retirar todas as telas do jardim que estejam a envolver árvores.

quinta-feira, 2 de outubro de 2025

F.C.P.


 Porto, Porto, Porto! És a nossa glória!

sábado, 27 de setembro de 2025

segunda-feira, 1 de setembro de 2025

Religiões

 


Muçulmano é a pessoa que segue a religião do Islão. A palavra vem do árabe muslim (مُسْلِم), que significa “aquele que se submete” (a Deus, Allah).

Para se ser muçulmano, basta que um dos pais seja muçulmano, pois o filho de um muçulmano é considerado muçulmano por nascimento (mesmo que a mãe tenha outra religião) e uma mulher muçulmana não pode casar com um homem de outra religião sem ele se converter, e não é sensato ela converter.se a outra religião porque tal é “apostasia”.

Qualquer pessoa se pode converter ao Islão. Faz Declaração da Shahada, isto é pronuncia, com sinceridade e entendimento, a frase árabe: Ashhadu an la ilaha illa Allah, wa ashhadu anna Muhammadan rasul Allah - “Testemunho que não há divindade além de Allah, e testemunho que Muhammad é o Mensageiro de Allah” perante o imam e algumas testemunhas. A aprendizagem, as práticas e a integração comunitária, vêm depois, de forma progressiva. Pode pedir um certificado de conversão (útil para casamento e para questões legais).

Em alguns países fortemente islamizadas, ser muçulmano confere plena integração comunitária, onde os não-muçulmanos são alvo de restrições (ex.: não podem fazer proselitismo, não podem construir templos, têm restrições alimentares, a herança e certos contratos civis têm regras diferentes, não têm direito a ocupar cargos de liderança política ou nas forças armadas, são alvo de impostos e não beneficiam de alguns subsídios ou apoios sociais. Em casos de divórcio a lei favorece o progenitor muçulmano, para garantir que a criança seja educada no Islão. Nota: a Igreja Católica, só aceita que o filho de mãe católica seja batizado e educado na fé cristã, se ambos os pais concordarem. Se o pai não aceitar, a Igreja não força. 

No entanto, há grande diversidade. Países como Turquia ou Albânia são oficialmente seculares e concedem quase os mesmos direitos a muçulmanos e não-muçulmanos. Já países com sharia incorporada como Arábia Saudita, Irão, Afeganistão são muito restritivos para não-muçulmanos. Em muitos lugares (ex.: Marrocos, Egito, Jordânia), a vida diária de cristãos e judeus é relativamente livre, mas com algumas limitações legais e sociais.

Apostasia: se um muçulmano declarar que já não é muçulmano, adotar outra religião ou declarar-se ateu, insultar o Islão, negar pilares da fé ou abandonar práticas fundamentais de forma pública. A sharia prevê a pena capital para apostasia. Na prática, os tribunais dão ao acusado a possibilidade de se retratar (isto é, voltar ao Islão).

Ser secularista, isto é: defender a separação entre religião e política, ou a liberdade de crença/descrença, em muitos países islâmicos é perigoso. Na Arábia Saudita, Irão, Afeganistão, Sudão, criticar a fusão entre religião e política pode ser tratado como apostasia, blasfémia ou terrorismo e levar a prisão longa, chicotadas, até pena de morte. Nos outros países, mesmo sem condenação formal, há risco de violência social (linchamentos, ameaças).

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A conversão ao Judaísmo é um processo longo, exigente e altamente regulado. Primeiro procura-se uma sinagoga ou comunidade judaica oficial e fala-se com o rabino, que vai avaliar a seriedade da intenção. Depois o candidato entra num período de estudo intensivo, sob orientação do rabino: estuda a Torá e os profetas, as festas judaicas, as leis alimentares (kashrut), o Shabat e outras práticas diárias, durante um a dois anos, porque se espera que a pessoa comece a viver como judeu ainda antes da conversão formal. Quando o rabino considera o candidato preparado, apresenta-o ao Beit Din (tribunal de três rabinos), que lhe irá fazer perguntas para avaliar se está convicto e preparado para seguir os mandamentos (mitzvot). Se o candidato masculino não for circuncidado, deve fazê-lo. Depois, homens e mulheres devem mergulhar numa mikvá (piscina ritual com água “viva”) como símbolo de purificação e renascimento espiritual. Após o mergulho, o Beit Din declara a pessoa judeu/judia e pode receber um nome hebraico. A partir daí, é considerada parte do povo judeu, sem distinção de origem.

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Os Drusos, os Alaouitas e os Yazidis encerraram as portas à conversão: só quem nasce de pais dessas religiões pode ser considerado.

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A Conversão ao Cristianismo não é igual em todas as Igrejas cristãs (Católica, Ortodoxa, Protestantes), mas há elementos comuns. Há um tempo de instrução (catequesese) e de acompanhamento, antes do Batismo, que é considerado o rito fundamental de entrada no Cristianismo. Em alguns ritos, recita o Credo (Igreja Católica e Ortodoxa) ou faz um testemunho pessoal de fé (muitas Igrejas protestantes), após o que se integra na vida comunitária.

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Distribuição religiosa mundial:
Cristianismo – ~31% (católicos, protestantes, ortodoxos e outros ramos)
Islão – ~25% (sunitas, xiitas e outros ramos)
Hinduísmo – ~15% (principalmente na Índia e Nepal)
Budismo – ~6% (sobretudo na Ásia oriental e sudeste asiático)
Tradições chinesas / religiões populares – ~6%(taoísmo, confucionismo, culto dos antepassados, práticas sincréticas)
Religiões étnicas / indígenas – ~5% (África tradicional, povos ameríndios, religiões locais da Oceânia, etc.)
Sikhismo – ~0,3% (sobretudo na Índia/Punjab e diáspora)
Judaísmo – ~0,2% (maioritariamente em Israel e EUA)
Outras minorias (bahá'ís, jainistas, zoroastrianos, drusos, yazidis, etc.) – <0,2%
Sem religião (ateus, agnósticos, “nones”) – ~16% (muito significativo na China, Europa e países desenvolvidos)

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 Na Europa Ocidental, antes da II Guerra Mundial, quase não havia muçulmanos. Após a guerra, com a imigração laboral e colonial dos anos 50–70 para os países em reconstrução (França, Alemanha, Bélgica, Holanda) e a chegada de muçulmanos de países em guerra (Líbano, Palestina, Irão), mais bósnios e kosovares e novas vagas de imigrantes do Magrebe e da Turquia, a população muçulmana multiplicou-se mais de 20 vezes. Em 2020 eram 25 milhões. Em 2025 calcula-se que sejam mais de 44 milhões. A grande maioria (≈70%) mantém-se muçulmana praticante. Cerca de 28% seguem a via da secularização (muçulmanos “culturais”, agnósticos, afastados da prática). Apenas uma pequena fração (≈2%) converte-se formalmente ao Cristianismo

Na Europa actual: - Cristãos:~72%, Muçulmanos:~5%, “Sem religião” (secularistas, ateus, agnósticos, indiferentes): ~23%

Tendências: Cristianismo: em declínio, Secularistas: em crescimento. Em alguns países (República Checa, Estónia, Holanda) já são maioria. Islão: crescimento lento mas constante, devido a taxas de natalidade mais altas e imigração.

Projeção para 2050 (Pew Research Center): Cristãos: deverão cair para cerca de 60%. Secularistas: poderão estabilizar entre 23–28%. Muçulmanos: podem crescer para 10%.

segunda-feira, 25 de agosto de 2025

Apoteose

 


A palavra apoteose tem origem na Antiguidade Clássica. Vem do grego antigo apó = “a partir de, desde” + theós = “deus”. Literalmente, significa “transformar em deus” ou “elevação à condição divina”.

O termo foi usado no contexto grego e romano para designar a divinização de heróis, imperadores ou figuras notáveis, após a morte ou, por vezes, ainda em vida.

Em português, “apoteose” ganhou também um sentido figurado: glorificação máxima, consagração final, clímax de uma obra ou celebração.

Em Roma, a apotheosis (em latim também chamada consecratio, de onde deriva o português consagração) era o ritual oficial de divinização do imperador após a morte, reconhecido pelo Senado. O imperador falecido passava a ser venerado como divus —  uma figura semidivina protetora do Estado.

Imperadores divinizados: Júlio César – primeiro a receber apoteose oficial (42 a.C.), proclamado Divus Iulius; Augusto (27 a.C.–14 d.C.) – proclamado Divus Augustus; Cláudio (†54) – Divus Claudius;  Vespasiano (†79), Tito (†81), Trajano (†117), Antonino Pio (†161), Marco Aurélio (†180), Septímio Severo (†211). Nem todos tiveram essa honra: alguns foram alvo de damnatio memoriae (apagamento oficial da memória), como Nero, Cómodo ou Domiciano. Também várias esposas, irmãs, mães e filhas de imperadores receberam a honra, sendo veneradas como divae.

Séculos mais tarde, o cristianismo reinterpretou a ideia de “divinização”. Atanásio (c. 296–373 d.C.), bispo de Alexandria, escreveu no século IV: “Jesus Cristo encarnou para que nós, homens, pudéssemos tornar-nos deuses.” Esse processo chama-se theosis (deificação ou divinização). A natureza divina de Cristo, unida à humana, abre a todos a possibilidade de comunhão com o divino. A teologia de Atanásio foi essencial no Concílio de Niceia (325), que fixou o Credo ainda hoje rezado.

E dito isto, o Homem que já era o único ser criado “à imagem e semelhança de Deus”, com razão, liberdade e capacidade de comunhão com o Criador, consegue acesso ao Paraíso e, aquilo que em Roma dependia do Senado e da política imperial, tornou-se vocação universal.


sábado, 16 de agosto de 2025

Marinheiros

Dizia um capelão da marinha, por afinidade meu tio, que num navio só há três cordas. A corda do sino, a corda do relógio e acorda malandro. O resto são cabos.

Rei A.