domingo, 28 de janeiro de 2024
terça-feira, 23 de janeiro de 2024
Eleições
PROMETEI o que não tendes!
PERDOAI a quem não vos fez mal!
Conselhos de Álvaro
Pais (1330 – 1390)
ao Mestre de Avis para cativar partidários para a sua causa.
sábado, 6 de janeiro de 2024
Dia de Reis
- Avôôô! Arranja-me uma tesoura!
- Toma-a lá, mas tens de ter cuidado! Não vais magoar-te, nem estragar nada?
- Oh! Avô!!!!! E, como se eu tivesse dito alguma insensatez, sai dali disparada, para um canto da sala.
...
sábado, 30 de dezembro de 2023
Soneto
Um amigo do Facebook (Benjamim Carvalho) escreveu este poema, na sua página.
Paixões de verão.
Todos os dias, naquela encruzilhada
Atrás do velho tronco d’um sobreiro,
Escondido, descias pela estrada ...
Passava, num momento, o dia inteiro...
O sol, no teu rosto, em labaredas mansas,
Os olhos que fechavas nos passos que descias,
Batia o meu peito, em pulos de esperanças …
E tu passavas fazendo que não vias...
Já ias longe...o sol estava posto
A noite, bem no fundo, escurecia
Esperava o momento que não vinha...
Foi tão lindo, aquele mês de agosto.
Tanto gostei de ti, eu tanto te queria...
Tanto gostei de ti, mas nunca foste minha...
E eu, que não sou poeta, por achar graça à ideia, atrevi-me a transformá-lo num soneto.
Ora cada verso de um soneto tem onze sílabas. O primeiro quarteto apresenta o assunto e o segundo amplifica o mesmo. O primeiro terceto reflete sobre a ideia central dos quartetos, e o terceto final, mais emotivo, acaba com alguma reflexão, moral ou ideia profunda. A rima é fixa nos quartetos (ABBA; ABBA) com variantes mais livres nos tercetos (CDE:CDE; CDE:DCE; CDC:DCD).
E dito isto, meti-me ao caminho
Paixões de verão
Atrás do velho tronco d’um sobreiro,
Escondido, naquela encruzilhada
T’ esperava descendo pela estrada.
Passava, num minuto, o dia inteiro.
Luzia o sol nos campos que florias
E teus olhos fugiam quais crianças
Do meu peito esmagado de esperanças
Quando passavas, fazendo que não vias.
Quando partias, o sol ficava posto
E num repente a noite escurecia
A espera do momento que não vinha.
Tão fagueiro foi aquele agosto.
Tanto gostei de ti, tanto antevia...
Que tolo até pensei que fosses minha...
terça-feira, 26 de dezembro de 2023
O Pescada
A razão primeira porque lhe chamavam “Pescada”, nunca a
soube. Talvez os seus detratores inventassem a alcunha por ser alto, branco e
sempre bem arrumado. Fosse ele pequeno e gorducho e iriam apelidá-lo de “Garrafão”,
mesmo que ele não consumisse bebidas alcoólicas. Mas na equipe, alguns achavam-lhe
mais defeitos que virtudes e, quando a ele se referiam, era assim que o nomeavam, para que se soubesse que eram seus críticos.
Eu gostava dele. Como profissional, tudo somado, era melhor
que outros cirurgiões. Sabia das suas limitações e não se metia em aventuras
onde previa grandes dificuldades. Os outros diziam que era lento, por ser demasiado
meticuloso a operar, e faziam chacota quando tinham que o ajudar nas grandes cirurgias,
dizendo; “Vais operar com o Pescada!? O melhor é algaliares-te!”, e riam. E
riam também quando ele contava as peripécias do seu hobby, a fotografia, onde dava cartas. E aí, ele não brincava. Era tudo muito “a sério”. Equipamentos
dos melhores e estudo minucioso das instruções das máquinas que adquiria. Disso
sou testemunha, pois vi-o várias vezes sentado à secretária, em frente à Canon
topo de gama de manual aberto, a medir-se com ela, e quando lhe perguntei se já
a tinha usado, respondeu-me que só a tinha comprado há uma semana e que antes, tinha de a estudar. Mas o resultado era “Muito Bom”, a ponto de pretender vender à National Geographic Magazine as fotos que fazia aos bichinhos e plantinhas do monte, que o tiravam da cama a
desoras ou no meio de inclemências do tempo para apanhar a melhor luz. Vi algumas e alguns dos pequenos filmes e confirmo a qualidade e a paciência.
Mas era o seu humor o que mais me surpreendia. Aquela capacidade
para ler no inesperado um ponto alto do dia e dele retirar uma história, que
depois contava despretenciosamente, ridiculizando-se se necessário, para que a
situação atingisse um clímax e se extinguisse nos segundos seguintes. E se lhe pedisse
para repetir, ele contava-a exatamente como da primeira vez e ria comigo, não só
da história, mas por nos rirmos de coisas que outros não achariam qualquer
graça. Havia muitas trapalhadas em que ele se achara envolvido e, quando o
encontrava, fosse num tempo morto do trabalho ou num corredor de um
Supermercado, não resistia a relembrar uma, para ficarmos a rir,
os dois, até ao embaraço.
Lembro aquela que mais me levou às lágrimas: Ele tinha uma casa no Porto, onde ia regularmente,
principalmente quando ele e a mulher só tinham horário de manhã. Saíam
do trabalho, almoçavam num restaurante em Esposende e depois seguiam viajem.
Ora num desses dias, a comida não lhe caiu bem e, minutos depois, sentiu-se
nauseado. Ainda pensou em parar, mas como tinha um encontro na Praça D. João I a
que não queria chegar atrasado, continuou a conduzir o seu Mercedes Classe E,
até mais não poder. Em frente ao Palácio de Cristal, parou no
espaço então dedicado à paragem do eléctrico e, meio cambaleante e pálido como a
cal, saiu do bólide e encostou-se ao tronco da primeira árvore que encontrou. E
foi nesta posição que uma alma caridosa que por ali passava, lhe foi perguntar
se precisava de ajuda. Agora o relato dele: “Eu estava em ponto de vómito eminente.
Estás a ver! Tinha o antebraço apoiado na árvore e a cabeça apoiada nele. Quando o ouvi falar, virei-me na sua direcção e, aquilo que estava por um
fio, rebentou, e o vómito saiu-me explosivo. Havias de ver o gajo
a saltar para trás com as calças a escorrer uma papa de arroz de sarrabulho misturada
com tinto do Douro! Aos pulos, a sacudir os sapatos e a dizer Oh Homem! Oh homem!
Então como é! E eu sem saber o que fazer. Se acabar de vomitar ou de cuidar
dele! Ainda por cima o tipo estava todo apinocado, como quem vai para uma festa.
Uma desgraça! A minha mulher a sair do carro com um pacote de lenços de
papel, mas o vómito tinha-o atingido em cheio. Cá pra mim tinha-lhe passado já
para a cueca! E o tipo a dizer C’um caraças! C’um caraças! Sem me ligar mais! E
eu lá acabei de vomitar o resto para o tronco da árvore, mas o grosso já tinha
ido para cima dele.“
E ria, enquanto imitava o fulano a saltar com ar enojado. E
eu ria com ele e a malta que passava sorria de nos ver rir e dos gestos dele, e
a certa altura caíamos na real com medo de alguém conhecido nos tomar por
insanos.
Era assim o “Pescada”, há-de haver uns bons vinte anos.
Depois disso, vi-o duas vezes e numa delas pedi-lhe para recontar esta história e
ele contou como se o tempo não tivesse passado e rimo-nos, talvez não tanto
como dantes, mas o suficiente para sairmos dali satisfeitos de tanto rir,
lembrando também os alarmes que tinha em casa e que assustavam mais os
convidados que o ladrões e os esquilos que mantinha numa imensa gaiola com
todas as comodidades possíveis e imagináveis para um esquilo da alta sociedade.
Espero encontrá-lo ainda mais vezes nesta vida mas, caso tal não aconteça, por certo que nos iremos encontrar no Além para nos rirmos outra vez das mesmas histórias ou doutras peripécias que lhe tenham acontecido, que ele era um bom contador de histórias.
sábado, 16 de dezembro de 2023
As duas liberdades de Isaiah Berlin.
A liberdade está estreitamente ligada à coação, isto é,
àquilo que a nega ou limita. Somos mais livres na medida em que encontramos
menos obstáculos para decidirmos a nossa vida como quisermos. Quanto menor for
a autoridade exercida sobre a minha conduta, enquanto esta puder ser
determinada de forma mais autónoma pelas minhas próprias motivações
(necessidades, ambições, fantasias), sem interferência de vontades alheias,
mais livre eu sou. É este o conceito “negativo” de Liberdade.
É um conceito mais individual do que social e absolutamente
moderno. Nasce em sociedades que alcançaram um elevado nível de civilização e
uma certa abastança. Pressupõe que a soberania do indivíduo deve ser
respeitada, porque em última instância é ela a origem da criatividade humana,
do desenvolvimento intelectual e artístico, do progresso científico. Se o
indivíduo for sufocado, condicionado, mecanizado, a fonte de criatividade fica
ceifada e o resultado é um mundo cinzento e medíocre, um povo de formigas ou
robôs. Os que defendem esta noção de liberdade veem sempre o maior perigo no
poder e na autoridade, e por isso propõem que, já que é inevitável eles
existirem, que o seu raio de acção seja mínimo, só o indispensável para evitar
o caos e a desintegração da sociedade, e que as suas funções sejam escrupulosamente
reguladas e controladas.
…
Enquanto a liberdade “negativa” quer sobretudo limitar a
autoridade, a “positiva” quer apoderar-se dela, exercê-la. Esta noção é muito
mais social que individual, pois fundamenta-se na ideia de que a possibilidade que
cada indivíduo tem de decidir o seu destino, está em grande medida subordinada
a causas sociais, alheias à sua vontade. Como poderá um analfabeto disfrutar da
liberdade de imprensa? Para que servirá a liberdade de viajar a quem vive na miséria?
… Enquanto a liberdade “negativa” tem principalmente em conta o facto dos indivíduos
serem diferentes, a “positiva” considera acima de tudo o que eles têm de
semelhante. Ao contrário daquela, para a qual a liberdade é bem mais preservada
quanto mais se respeitarem as variantes e os casos particulares, ela considera
que há mais liberdade, em termos sociais,
quanto menos diferenças se manifestarem no corpo social, quanto mais
homogénea for uma comunidade.
Todas as ideologias e crenças totalizadoras, finalistas,
convencidas de que existe uma meta última e única para uma dada colectividade –
uma nação, uma raça, uma classe ou a humanidade inteira -, partilham do
conceito “positivo” da liberdade. Deste derivam inúmeros benefícios para o
homem, e é graças a ele que existe a consciência social: saber que as desigualdades
económicas, sociais e culturais são um mal corrigível e que podem e devem ser
combatidas. As noções de solidariedade humana, de responsabilidade social e a
ideia de justiça, enriqueceram-se e expandiram-se graças ao conceito “positivo”
de liberdade, que também serviu para travar ou abolir iniquidades como a
escravatura, o racismo, a servidão e a descriminação.
Mas este conceito de liberdade também gerou as suas iniquidades correspondentes. Todas as utopias sociais de direita e de esquerda, religiosas ou laicas, baseiam-se na noção “positiva” de liberdade. Elas partem da convicção de que existe em cada pessoa, além do indivíduo particular e distinto, algo mais importante, um “eu” social idêntico, que aspira realizar um ideal colectivo, solidário, que será realidade num dado futuro e ao qual deve ser sacrificado tudo o que o impedir e obstruir. Por exemplo, aqueles casos particulares que são uma ameaça para a harmonia e homogeneidade social. Por isso, em nome dessa liberdade “positiva” – essa sociedade utópica futura, a da raça eleita triunfante, a da sociedade sem classes e sem Estado, ou a cidade dos bem-aventurados eternos – travaram-se guerras crudelíssimas, criaram-se campos de concentração, exterminaram-se milhões de seres humanos, impuseram-se sistemas asfixiantes e eliminou-se todo o tipo de dissidência ou crítica.
Estas duas noções de liberdade repelem-se reciprocamente, mas não faz sentido tentar demonstrar que uma é verdadeira e outra falsa, pois apesar de se servirem da mesma palavra, tratam de coisas diferentes. As liberdades “negativa” e “positiva” não são duas interpretações de um conceito, mas duas atitudes divergentes e irreconciliáveis sobre os fins da vida humana.
As sociedades que forem capazes de conseguir um compromisso
entre estas duas formas de liberdade, conseguirão níveis de vida mais justos.
in "O apelo da Tribo" de Mario Vargas Llosa
domingo, 10 de dezembro de 2023
Deang
DEANG, é da Tailândia. A sua obra abrangente, explora diferentes materiais que vão da madeira, ao ferro, à pedra e à cerâmica. Por vezes figurativo, outras vezes abstracto, mas sempre com um olhar atento e determinado na sua forma de representar.
quarta-feira, 6 de dezembro de 2023
Arte abstrata
Nunca pensei ser artista, embora mantenha veleidades de artesão. Artista, implica capacidade de inovar, de criar qualquer coisa que nunca tenha sido feita e o meu trabalho sempre foi aplicar o estado da arte às particularidades de cada indivíduo. Por isso, olho os artistas, com um misto de respeito e receio, por temer que a etiqueta de “arte” caia sobre embustes de toda a espécie.
No outro dia, dei com um pequeno texto sobre “A
Desumanização da Arte e outros ensaios de estética” de Ortega e Gasset
(1883-1955). Transcrevo:
O livro abre com uma afirmação audaciosa: As massas odeiam a arte nova, porque não a entendem!. A razão é evidente: a arte romântica, que encadeou o século XIX, bem como o naturalismo, estavam ao alcance de todos, com a representação exaltada da vida sentimental e das suas efusões piegas e o tratamento clínico dos seus problemas sociais; mas as novas tendências da música, da pintura, do teatro e da literatura, que não aspiram a mostrar a vida tal como é, mas sim criar “outra” vida, exigem um esforço intelectual laborioso – uma mudança de perspectiva e da própria ideia do que é arte - , que “o grande rebanho filisteu” não está disposto a fazer. Portanto, deu-se um divórcio irremediável – um abismo – entre a arte nova, os seus cultores e defensores, e o resto da sociedade.
… O artista do nosso tempo, não quer que a sua arte apareça como uma ilustração da “vida verdadeira”; pelo contrário, aspira criar uma vida diferente da real. … Debussy desumanizou a música, Mallarmé a poesia, Pirandello o teatro, Joyce a literatura e, na pintura, “de pintar as coisas, passou-se a pintar ideias. O artista cegou para o mundo exterior e voltou a pupila para as passagens interna e subjectivas”.
“Nestes tempos, cada vez mais, nos diferentes ramos da cultura, se impõem, sobre a
linguagem comum, os jargões especializados e herméticos sob cuja
sombra, muitas vezes, se esconde não a complexidade e a profundidade
científica, mas sim a prestidigitação verborreica e o ardil”.
segunda-feira, 27 de novembro de 2023
Verdades
“Ajude-se a si mesmo, preferindo sempre os artigos
nacionais!”, “Beber vinho é dar de comer a um milhão de portugueses!” e “A
verdade é só uma, Rádio Moscovo não fala verdade!”, tenho-os como slogans
recorrentes da Emissora Nacional, nos anos 60 do século passado, as verdades
que o Estado Novo procurava impôr, a par do “Deus, Pátria, Autoridade!” e mais
tarde com o “A Pátria não se discute. Cumpre-se!”
Frases saídas depois de um sinal horário ou do fim de uma
radionovela, que cedo me levaram a lhes questionar a intenção, atitude
que se expandiu aos dogmas religiosos com que simultaneamente me bafejavam.
Mais tarde, a Ciência foi-me relativizando as “verdades” sem,
no entanto, ter lido os filósofos que sobre elas discorriam.
Eis-me agora chegado ao tempo de pegar em livros arrumados
que, por uma razão ou outra, me vieram cair na mão.
Há dias iniciei o “Apelo da Tribo” de Mario Vargas Llosa,
Nobel da Literatura (2010), onde o autor revê os pensadores que o levaram a acreditar
no “Liberalismo” como melhor solução política, e onde também aborda a “Verdade”.
… “no relato histórico, as ideologias e as religiões, os
interesses criados, as paixões e os sonhos humanos foram injectando, ao longo
dos séculos, cada vez mais doses de fantasia, até os aproximarem dos domínios
da literatura e, às vezes, confundi-los com ela. É evidente que isto não nega a
existência da História, apenas sublinha que a História é uma ciência carregada
de imaginação”.
Para Karl Popper, a verdade vai sendo descoberta num processo
que não tem fim. Ela é sempre provisória e dura enquanto não for refutada mas,
enquanto dura, reina todo-poderosa.
… para que o progresso seja possível, é importante que as
verdades vigentes sejam sempre sujeitas a críticas, expostas a provas,
verificações e desafios que as confirmem ou substituam por outras mais próximas
dessa verdade definitiva (inalcançável e porventura inexistente), cujo chamariz
dá alento à curiosidade, ao apetite de saber humano, desde que a razão
substituiu a superstição como fonte de conhecimento.
Popper faz do exercício da liberdade o fundamento do
progresso. Sem crítica, sem possibilidade
de questionar todas as certezas, não há avanço possível no domínio da ciência,
nem aperfeiçoamento da vida social. Se tal não for permitido, em vez de
verdades racionais, entronizam-se mitos, actos de fé, magia, metafísica, num
processo que pode adoptar aparências religiosas, como nas sociedades
fundamentalistas cristãs ou islâmicas, nas quais ninguém pode questionar as “verdades
sagradas”, ou pode adoptar uma aparência laica, como nas sociedades
totalitárias, nas quais a “verdade oficial” é protegida contra o exame livre em
nome da “doutrina científica” do marxismo-leninismo.
Foi errando e aprendendo com os erros, que o homem evoluiu
no conhecimento da natureza e de si próprio, num processo onde não estão
excluídos retrocessos e ziguezagues. Foi assim na medicina, na astronomia, na
física e também na organização social. É este “peacemeal approach” que
Popper postula, expressão que equivale à opção gradual ou reformista,
antagónica da revolucionária, que faz tabula rasa do que existe.
Estou com ele!
segunda-feira, 13 de novembro de 2023
Fazer o bem a quem nos faz mal!
É bom que aprendamos, na juventude, as regras da sociedade em que se vive, juntamente com a noção que algumas delas irão mudar ao longo da nossa vida. É bom também tomar conhecimento de que, em diferentes regiões deste planeta, as regras podem ser outras, para que reformulemos o pensamento quando se viaja ou se emigra.
Para além das leis, há que contar com os árbitros que decidem as questões, pois, em muitos locais, a corrupção, o compadrio e o nepotismo orientam a prática da lei.Quando há uma revolução e o poder “cai na rua” abre-se a porta ao crime de oportunidade, pois as revoluções ditas “populares” são mais eficientes a destruir que a criar e estabilizar um novo regime, a exemplo do que aconteceu na Primavera Árabe. Depois de uns milhares de mortos e de muito ressentimento, o poder é tomado por quem for capaz de promover um bode expiatório e negociar apoios internos e externos para reestabelecer a paz, deixando muito crime por punir.
Mas, no dia a dia, é bom que mantenhamos a ideia de que o crime e o castigo são indissociáveis, com as suas variantes conforme a região.
A filosofia dos primórdios do Cristianismo de “Fazer o bem a quem mal nos faz!” que, de tempos a tempos, se tenta reanimar nas sociedades ocidentais, não é reconhecida como lei por qualquer Estado, nem por outra religião para além do Cristianismo.
As crianças e os jovens adultos podem e devem ser “vergados pelo amor”, mas quem tem mais de 30 anos, salvo motivo de doença ou de uma forte paixão, não deve ter “redenção” possível
“Fazer o bem a quem nos faz mal” é a atitude certa para um filho menor, mas é erro aplicá-lo fora do nosso espaço familiar, pelo risco de se desmoronar toda a complexa estrutura social
Fazer apelos à paz, não é o mesmo que perdoar.
sexta-feira, 3 de novembro de 2023
terça-feira, 24 de outubro de 2023
Josué
Pego na Bíblia. No Velho Testamento, vou directo ao “Livro de Josué”
Depois de Moisés ter morrido, o SENHOR disse a Josué “Prepara-te tu e todo o povo de Israel para atravessarem o rio Jordão e entrarem na terra que eu lhes vou dar. Hei-de dar-vos todos os lugares que os vossos pés pisarem, como prometi a Moisés! O vosso território irá desde o deserto até ao Líbano e até ao grande rio Eufrates, estendendo-se através das terras dos hititas, e desde as terras do nascer-do-sol até ao mar Mediterrâneo. Ninguém te poderá resistir, enquanto viveres. Eu estarei contigo. Tem coragem e firmeza porque hás-de conduzir este povo à posse da terra que eu prometi aos seus antepassados.
… e depois Josué meteu mãos à obra e os judeus levaram pela frente amorreus, perizeus, cananeus, hititas, guirgaseus, heveus e jebuseus.
«Consagraram a cidade [de Jericó] ao Senhor, destruindo no fio da espada homens, mulheres, jovens, velhos, bois, ovelhas e jumentos; todos os seres vivos que nela havia.» - Josué, 6. 13.
…
«Israel terminou de matar os habitantes de Ai no campo e no deserto, onde os tinha perseguido; eles morreram no fio da espada. Depois disso, todos os israelitas voltaram à cidade de Ai e mataram os que lá haviam ficado. Doze mil homens e mulheres caíram mortos naquele dia. Era toda a população de Ai» - Josué, 8. 24-25.
«Naquele dia Josué tomou Maquedá. Atacou a cidade e matou o seu rei à espada e exterminou todos os que nela viviam, sem deixar sobreviventes. E fez com o rei de Maquedá o que tinha feito com o rei de Jericó.» - Josué, 10. 28.
«O Senhor entregou Laquis nas mãos dos israelitas, e Josué tomou-a no dia seguinte. Atacou a cidade e matou à espada todos os que nela viviam, como tinha feito com Libna» - Josué, 10.32.
«Tomaram a cidade [de Hebron] e a feriram à espada, como também o seu rei, os seus povoados e todos os que nela viviam, sem deixar sobrevivente algum. Destruíram totalmente a cidade e todos os que nela viviam, como tinham feito com Eglom» - Josué, 10.37.
…
«Tomaram a cidade [de Debir], seu rei e seus povoados e os mataram à espada. Exterminaram os que nela viviam, sem deixar sobrevivente algum. Fizeram com Debir e seu rei o que tinham feito com Libna e seu rei e com Hebrom - Josué, 10.39.
…
«Os israelitas tomaram posse de todos os despojos e dos animais dessas cidades, mas mataram todo o povo à espada, até exterminá-lo completamente, sem poupar ninguém» - Josué, 11.14.
E por aí afora…. Depois … distribuíram pelas diferentes tribos o território conquistado e até o que faltava conquistar, conforme as ordens que o SENHOR havia dado a Moisés, lembrando: “Não se misturem com esses povos que ainda continuam a viver no vosso meio!” e: “Se abandonarem o Senhor e servirem a deuses estrangeiros, ele voltar-se-á contra vós e destruir-vos-á!”
Segundo a Bíblia, Deus elegeu os Judeus, como o seu povo e prometeu-lhe terras. Segundo o Corão, logo ali ao lado, vestiu-se de Alá e foi falar com Maomé para lhe dizer coisas diferentes.
Deus tem um fraco pelo Médio Oriente. O Filho também. No resto do Mundo tem sido a Nossa Senhora a andar de um lado para o outro, em aparições em lugares ermos, a dizer uns segredos a uma meia dúzia de crianças.
quarta-feira, 11 de outubro de 2023
"DOGVILLE" (2003, dir. Lars von Trier)
…
- Na nossa última conversa disseste o que te desagradava em
mim e, é uma regra de boa educação, também me deixares dizer o que me desagrada
em ti!
- Que coisa é essa que te desagrada?
- Usaste uma palavra que me provocou. Chamaste-me “arrogante”, quando é exactamente, a arrogância o que mais me desagrada em ti! Na tua opinião os violadores e os assassinos podem ser vítimas. Eu chamo-lhes cães, que só com o chicote se consegue impedir que lambam o próprio vómito.
- Os cães podem aprender coisas úteis, se não se perdoarem
sempre que sigam a sua natureza!
- Então sou arrogante! Sou arrogante por perdoar?
- Meu Deus! Não vês quão condescendente és, ao dizer isso?
Não vês que ninguém consegue chegar a esses teus padrões éticos, onde tudo se
perdoa? E eu não conheço nada mais arrogante que isso! Tu, minha filha, perdoas
aos outros com desculpas que nunca admitirias para ti própria!
- E porque é que não posso ser misericordiosa??
- Podes e deves ser misericordiosa, mas na altura certa!
Mantendo os teus padrões! Deves-lhes isso! Os castigos que mereces para os teus
erros, é o mesmo que merecem os outros!
- São só humanos!
- E todo o ser humano deve ser responsável pelos seus actos.
Só que tu, não o deixas ser! E isso, é extremamente arrogante! … O poder não é
assim tão mau e eu tenho a certeza que eras capaz de usar o teu à tua maneira!
- As pessoas que aqui vivem esforçam-se em circunstâncias
muito duras!
- Mas será que fazem o seu melhor? Ou só o suficiente?
…
E, de repente, soube qual era a resposta para a sua dúvida.
Se tivesse agido como eles, não encontraria uma só desculpa para os seus actos
e não haveria castigo que a punisse. E foi como se uma dor se tivesse dissipado. Se
alguém tinha o poder para pôr tudo como deve ser, tinha o dever de o fazer, a
bem das outras aldeias e de toda a humanidade. E também, não em menor grau, a
bem do ser humano que era ela, Grace.
domingo, 8 de outubro de 2023
S. Martinho
Onze de Novembro é dia de S. Martinho e os dias chuvosos darão espaço a três dias amenos antes do verdeiro inverno – o Verão de S. Martinho, e como Martinho rima com vinho, e as rimas ajudam a sabedoria popular para lembrar os afazeres, no S. Martinho vai-se à adega, prova-se o vinho e faz-se um magusto com castanhas, água pé ou jeropiga, mesmo que o santo tenha sido abstémio.
O soldado romano, a cavalo, de espada na mão a dividir a capa com um desgraçado é a sua imagem de marca e aquilo que “o povo” sabe do santo. Na História, observado à distância de uns séculos, Martinho de Tours, também foi um "malfeitor".
Martinho nasceu na Panónia (actual Hungria), em 316. Era filho de um tribuno da Guarda Imperial do exército romano. O seu nome tem relação com o deus da Guerra de Roma - Marte. Com 15 anos, por ser filho de oficial veterano, foi chamado ao regimento de cavalaria e em 356, quando estava estacionado perto da actual Amiens, em França, converteu-se ao cristianismo e tornou-se monge e eremita. Terá andado pela Panónia, pela Itália e pelas Balcãs, onde segundo Sulpício Severo, asceta cristão, seu biógrafo, “conhece o Diabo, faz milagres e exorcismos” e até “arranca uma confissão dos lábios de um morto”.
Em 371 Martinho é aclamado bispo de Tours e ordena entusiasticamente a destruição dos templos, dos altares e das esculturas pagãs…“Na Gália, São Martinho, bispo de Tours, marchava à frente dos seus fiéis monges, para destruir os ídolos, os templos e as árvores sagradas da sua extensa diocese e, na consumação desta árdua tarefa, o leitor avisado, julgará se Martinho foi ajudado por poderes milagrosos ou por armas terrenas”. – (Edward Gibbon)
O Convento Catharijne em Utrecht, é detentor de um martelo de bronze que a lenda diz ter sido usado por S. Martinho para agredir o Diabo e os ícones pagãos.
quarta-feira, 27 de setembro de 2023
São Jorge
Santiago
por Castela! São Jorge por Portugal!, era assim que eu entendia o início das batalhas que, nos
primórdios da nacionalidade, nos opunha às investidas dos espanhóis, sem nunca
entender o porquê de o terem elegido patrono das nossas Forças Armadas.
Verdade seja
dita que só há bem poucos anos me deu para ler alguma coisa sobre a hagiografia
(descrição da vida e prática de virtudes heroicas) dos santos e beatos das
igrejas cristãs e, como seria de esperar, deparei-me com um sem-número de
confabulações que caracterizam a construção dos mitos.
Neste espaço já
escrevi sobre Santa Luzia, Santo Onofre, Santo Antão, S. Roque, S. Fiacre, S. Brás e mais
uns quantos que, por uma razão ou outra, se meteram no meu caminho e me
despertaram a curiosidade. Desta vez foi o São Jorge, pela mão de Edward
Gibbon, que é reconhecido como o pai da historiografia moderna, no seu livro de
1776, The History of the Decline and Fall of the Roman Empire.
Aquilo que tradicionalmente se diz do santo está envolto numa bruma lendária, de
veracidade mais que duvidosa, a ponto do Papa Paulo VI o ter retirado do
calendário litúrgico. Gibbon era historiador e escreveu baseado em documentos e
não na tradição, e surpreendeu-me a discrepância da vida real do "santo", face ao que
depois dela contaram.
Resumo das
páginas 511, 512, 513:
“Jorge,
cognominado o Capadócio (na actual Turquia), devido à origem dos pais e ao local
da sua educação, era filho de um pisoeiro. Elevou-se a partir deste nascimento
obscuro e servil por via dos talentos de um parasita; e os protectores, a quem
lisonjeava assiduamente, arranjaram a este indigno valido uma comissão
lucrativa, ou um contrato, para abastecer o exército de carne de porco salgada.
Tinha um emprego mesquinho e tornou-se infame. Acumulou riqueza lançando mão
dos mais baixos meios de fraude e da corrupção; mas as suas malversões eram tão
notórias, que Jorge se viu forçado a fugir às buscas da justiça. Depois desta
peripécia em que parece ter salvo a fortuna à custa da honra, adoptou, com
sinceridade ou hipocrisia, a profissão do arianismo. Mercê do seu amor
verdadeiro ou fingido às letras, reuniu uma valiosa biblioteca de História,
retórica, filosofia e teologia, e a escolha da facção cristã dominante, elevou Jorge da
Capadócia ao lugar de Bispo de Alexandria no Egipto.
A entrada do novo arcebispo foi a de um conquistador bárbaro, e cada momento do seu reinado ficou manchado pela crueldade e a avareza. Os católicos de Alexandria e do Egipto acharam-se abandonados a um tirano …que alardeava a pompa e a insolência da sua alta posição, continuando a mostrar os vícios da sua baixa e servil extração. Os mercadores de Alexandria viram-se empobrecidos pelo monopólio injusto e quase universal que ele conseguiu do nitro, do sal, do papel, dos funerais, etc.; … Os alexandrinos jamais puderam esquecer ou perdoar o imposto que ele sugeriu sobre todas as casas da cidade, sob o obsoleto pretexto de que o régio fundador da cidade, transmitira aos seus sucessores, os Ptolomeus e os Césares, a propriedade perpétua do solo.
…
Sob o reinado do imperador Constâncio, foi expulso pela raiva, ou antes, pela justiça do povo; e só com uma violenta luta se conseguiu restaurar a autoridade dos poderes civis e militares do Estado. … Jorge e dois dos seus obsequiosos ministro, foram vergonhosamente conduzidos acorrentados para a prisão pública. Ao cabo de vinte e quatro dias, a prisão foi assaltada pela fúria da multidão supersticiosa, impaciente com a morosidade dos procedimentos judiciais. Os inimigos dos deuses e dos homens expiraram no meio de cruéis insultos; os corpos sem vida do arcebispo e dos seus companheiros foram transportados em triunfo pelas ruas, no dorso de um camelo e a passividade da facção atanasiana pareceu a toda a gente um notável exemplo de paciência evangélica. Os restos deste miseráveis criminosos acabaram por ser atirados ao mar. A morte louvável do arcebispo apagou a memória da sua vida. O rival de Atanásio era estimado e venerado pelos arianos, e a aparente conversão destes sectários introduziu o culto dele no seio da Igreja Católica. O odioso estrangeiro, depois de se adulterarem todas as circunstâncias de tempo e de lugar, assumiu a máscara de um mártir, de um santo e de um herói cristão; e o infame Jorge da Capadócia foi transformado no famoso São Jorge de Inglaterra, o patrono das armas, da cavalaria e da Jarreteira.”
Foram os
cruzados, que ajudaram a conquistar Lisboa aos mouros, a razão do nome de Castelo
de S. Jorge, em Lisboa. Dom Nuno Álvares
Pereira, Condestável do
Reino, considerou-o responsável pela vitória portuguesa na batalha de Aljubarrota e mandou erguer a Ermida de São Jorge em Porto de Mós, a testemunhar esse facto. O
Rei Dom João I de Portugal que também era devoto do Santo, substituiu Santiago Maior por São Jorge como padroeiro de Portugal e o
Jorge de Capadócia, deve-se estar a rir, … no Inferno!
Jorges da Capadócia, com protagonismo religioso, a viver naquela época, pode haver muitos, mas credibilidade cega, superstição infundada e fraude deliberada são marca constante em toda a história religiosa












.jpg)




